domingo, 28 de julho de 2013

O Sentido do Fim – as várias faces da Memória


Parece-me que pode ser esta uma das diferenças entre a juventude e a idade: quando somos jovens, inventamos futuros diferentes para nós; quando somos velhos, inventamos passados diferentes para os outros.

Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios.


Este é um dos livros mais bonitos e sinceros que já me vieram parar às mãos. Uma escrita brilhante e sublime, a de Julian Barnes, o autor de «O Sentido do Fim», vencedor do Man Booker Prize no ano de 2011 com esta obra. Parece-me que este é um daqueles livros tão curtinhos e que se lêem tão depressa, mas que possuem uma profundidade que muito calhamaço com várias centenas de páginas não consegue captar na sua essência. «O Sentido do Fim» é um livro onde as frases estão perfeitamente construídas, onde a forma e o conteúdo da obra se unem de uma maneira fantástica, onde fiquei maravilhado por cada parágrafo que lia, tão revelador de um escritor e de uma forma de ser e estar no Mundo. «O Sentido do Fim» é um livro sobre a memória e a forma como esta nos ilude, ou por outras palavras, a maneira como nós próprios enganamos a nossa memória que, depois, se “vingará” num futuro próximo, dando outra imagem aos factos que presenciámos que nada tem a ver com a veracidade dos mesmos. A vida é toda uma subjetividade, e é isso que Tony Webster se apercebe a cada momento, quando as suas recordações da juventude e das pessoas que o marcaram não correspondem muito ao que, de facto, lhes aconteceu, acabando por também ele perceber que ele não agiu sempre da maneira que a memória lhe permite recordar. Se pudesse haver alguém capaz de adaptar «O Sentido do Fim» de uma maneira digna para o Cinema, seria Sérgio Leone. Muitas vezes recorreu-me a lembrança dessa obra prima que é «Era Uma Vez na América» e a minha cabeça “reproduziu”, por diversas ocasiões, a banda sonora única de Ennio Morricone em muitas passagens do livro. Acho que só ele conseguiria filmar bem a sensibilidade desta história, sem correr o risco de se tornar piegas ao estilo de «Terms of Endearment». O que é pena é que ele já não esteja por cá para realizar esse trabalho, porque «O Sentido do Fim» é, para mim, daqueles livros especiais, para ler e reler no dia a dia, para ser uma espécie de “guia” para o quotidiano. É um grande pequeno livro, com tudo dentro dele.

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