sábado, 6 de julho de 2013

O Ódio (La Haine) [1995]


C'est l'histoire d'une société qui tombe et qui au fur et à mesure de sa chute se répète sans cesse pour se rassurer : "Jusqu'ici tout va bien, jusqu'ici tout va bien, jusqu'ici tout va bien..." L'important c'est pas la chute, c'est l'atterrissage.

Esta é a frase que ouvimos ser pronunciada no início de «O Ódio». É uma metáfora que percorre todo o filme e as situações em que as três personagens principais (Vinz, Said e Hubert, todos de culturas diferentes e que em nada se associam à francesa - um judeu, um árabe e um negro -, o que é uma pequena mostra da grande multiculturalidade do país, que tem vindo a crescer nestas duas últimas décadas de uma forma gigantesca) se envolvem, e que pode ter vários significados. Só chegamos mesmo a entender qual é o motivo desta pequena "piada" ser contada com todos os acontecimentos que culminam num final que traduz a preocupação de toda uma geração, e que acaba por coincidir com a minha geração (aliás, com tanta contestação que se tem visto no nosso país nas últimas semanas, não é para menos...), e a cada momento da fita, as personagens só ficam descansadas quando perceberem que "até aqui, está tudo bem". Porque vai haver momentos em que a incerteza vai aumentar as dúvidas e voltará a trazer consequências imprevisíveis para qualquer um dos três rapazes, ou das pessoas que conhecem e que vivem no mesmo bairro social que eles. Em «O Ódio», um filme baseado numa(s) história (s) verídica(s) - foi uma em particular que levou o realizador, Mathieu Kassovitz, a criar esta fita, mas o seu significado abrange muitas outras mais -, veracidade essa que visionamos, desde logo, nas imagens reais de confrontos entre a polícia e os cidadãos que são apresentados nos créditos iniciais do filme (mais a dedicatória "curiosa" que abre a obra, Dedicamos este filme aos que morreram antes dele ficar pronto) é uma reflexão sobre as transformações provocadas pela evolução constante da sociedade e da desorganização do poder político, judicial (na figura dos polícias que abusam da autoridade que têm - a causa do estado de Abdel, um amigo dos três rapazes, logo no início do filme, que está no hospital em estado grave, que nunca é visto na fita, mas têm uma grande importância) e económico. Mas ninguém é um verdadeiro santo em Paris, e em qualquer recanto, encontramos pessoas que, pura e simplesmente, querem zelar pelos próprios interesses, através de métodos mais ou menos irracionais... só resta perceber quando, ou até onde, é que tudo vai deixar de ficar relativamente bem.


«O Ódio» é um filme "outsider", fora das normas e direcionado à mentalidade dos espectadores. É um filme que pretende abrir os olhos das pessoas e mostrar como as coisas não estão muito bem no meio que as rodeia. Num tempo em que convivemos cada vez mais com a contestação social e a irracionalidade mostrada pelas duas "fações", os que protestam e os que tentam controlar o protesto, um filme como este, com um espírito tão profundo e com uma índole real e social tão forte, não pode ser posto de parte. A escolha do preto e branco foi certeira, apesar das distribuidoras televisivas, em 1995, terem imposto uma versão a cores para ser mais "visionável". Contudo, o sucesso do filme foi tal que essa versão foi eliminada. Mas na primeira edição DVD nacional de «O Ódio» podemos encontrar cenas eliminadas filmadas a cores, e percebemos que o impacto é muito diferente. Parece que, sem a vivacidade da cor, o filme conseguiu captar muito melhor os graves problemas sociais que são a sua temática principal, como parece que o confronto civis VS polícias, onde a força e a posse de uma arma torna-se o maior poder em casos extremos de violência (em que Vinz - Vincent Cassel - participa com muita convicção, dizendo até que, se Abdel morrer, irá vingar-se na autoridade) se torna mais próximo de nós nesta tonalidade, como parece também que a cidade é retratada com mais realidade desta forma (apesar de termos algumas cores mais bonitas - apesar de, com algumas tragédias que se sucedem no quotidiano do mundo, a existência delas pareça totalmente invisível...). Ah, e a realização e a montagem surpreendentes, muito pouco perfeitinhas e consistentes, são outro auxiliar importante para uma maior aproximação à "nossa" realidade, ou pelo menos, àquela que a produção contactou algumas semanas para que conseguisse fazer o filme da melhor maneira - ou seja. para conseguir atingir este maior nível de proximidade com o mundo real.


Seguimos um dia completo de atribulações para as personagens de «O Ódio», tal como se se tratasse de um documentário com os pontos mais altos das vinte e quatro horas vividas por Vinz, Said e Hubert (até as horas certinhas dos acontecimentos estão indicadas no filme!), que apesar de terem comportamentos estranhos e algo suspeitáveis, apenas querem concretizar os seus sonhos. São ainda muito infantis e reveem-se nas suas influências (maioritariamente da cultura americana, a partir dos filmes e das séries de televisão - e porque não se identificam com a cultura francesa) e querem ser como elas, mas não estão no ambiente certo para isso. E no meio de conversas banais (com uma linguagem muito vulgar e com muitos palavrões à mistura, num ambiente onde reina a violência física, psicológica e verbal) e do passeio do trio por várias zonas de Paris, percebemos quais são os verdadeiros impactos dos conflitos com a autoridade e, mais propriamente, do tumulto que ocorreu na noite anterior, que vitimizou Abdel e onde os jovens da zona incendiaram a escola local. «O Ódio» mostra que a raiva e o descontentamento humano, se levados a níveis extremos de irracionalidade, poderão gerar mais violência e mais contestação. É um ciclo que parece não ter fim, mas é tudo por causa das anomalias do sistema. E apesar de ter o abuso do poder como um dos temas mais fortes, «O Ódio» centra-se, de uma forma mais crítica à política, ao sistema que nos comanda, filmando, tão crua e diretamente, apenas mais um dia do "habitual" quotidiano daquele bairro social e das pessoas que o habitam. E acreditem, o "habitual" da realidade de um ambiente como o de «O Ódio» não augura nada de bom... um grande filme que continua a suscitar debate e a levantar questões importantes para a sociedade e para as novas gerações. Uma obra "social", que acaba por ser também uma grande peça de Cinema, do melhor que se fez na última década do século XX.

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