O Caimão [2006]


«O Caimão» é uma história de família e de política, feita de todos os condicionalismos que cercam os seus autores (um deles o realizador Nanni Moretti, que há bem pouco tempo voltou a dar que falar com «Habemus Papam - Temos Papa»), que levaram à criação deste filme. Let's face the facts: «O Caimão» não existiria sem Silvio Berlusconi, visto que é ele o alvo do novo filme que Bruno Bonomo (o formidável Silvio Orlando, um ator veterano dos anteriores filmes de Moretti), um neurótico produtor de filmes de qualidade duvidosa, vai dar ao mundo, após dez anos de ausência da atividade cinematográfica ("despedida" forçada que se deveu ao seu último filme, «Cataratas», cujos "fabulosos" minutos finais são-nos mostrados no início de «O Caimão», ter sido um grande fracasso precisamente uma década antes, o que levou o produtor à ruína financeira e profissional - na narrativa da fita, o filme está a ser projetado numa espécie de cineclube que "aclama" o "brilhante" talento de Bonomo), depois de ter recebido o guião escrito por uma jovem realizadora, Teresa Mantero (a brilhante Jasmine Trinca - também esteve muito bem no anterior filme de Moretti a este,«O Quarto do Filho», um autêntico drama, completamente distinto de «O Caimão»), com o título que dá nome a esta obra. A princípio, e por sua própria culpa (não se deu ao trabalho de ler o guião inteiro, mas sim, na diagonal), Bonomo não percebe as grandes críticas sociais e políticas que rodeiam a história de Teresa, e mais propriamente, a construção do Império de Berlusconi e todas as questões que os seus negócios duvidosos e algo criminosos deixaram por responder (e que continuam sem resposta, em alguns casos), sendo que uma delas (a que é constantemente repetida ao longo de todo o filme) é "De onde vem todo o dinheiro dele?". 


A "carreira" de Berlusconi alterou a situação política da Itália nos últimos trinta anos, devido ao facto que o político atuou em várias frentes (como na televisão e na construção de empresas) e sempre com algum aparente sucesso - sucesso esse construído a partir de métodos muito pouco legais -, que reforçou a sua imagem dentro da opinião pública... pelo menos, durante uns anos. E quando se apercebe disso, Bonomo percebe que será muito difícil levar um projeto destes a bom porto. Muitos interesses estão em jogo e são poucos os que pretendem mesmo pôr o dedo na ferida e atacar um senhor tão poderoso e que move tanta coisa em Itália, e serão muitas as ocasiões em que, quando tudo parece estar bem, se sucedem novos problemas que dificultarão ainda mais a elaboração de «O Caimão». E, ao mesmo tempo que encaramos esta espécie de "making-of" do projeto de Bonomo (que, além deste problema, está numa situação familiar e matrimonial delicada) e Mantero, mostram-nos algumas cenas em que o primeiro "imagina" partes do guião que está a ler, dando-nos uma ideia da extrema força política e crítica que a história da jovem rapariga escreveu... Se eles vão conseguir realizar o filme, isso é questão de vê-lo e cada um tirar as suas conclusões. Mas, com «O Caimão», Moretti deixou um filme que acaba por ser um retrato do seu próprio país, sem deixar de dizer qualquer coisa a qualquer outro. Com cenas cómicas hilariantes, muito bem equilibradas com o drama e a sátira política e social que é feita (e que culmina com o extraordinário final da fita - e mais não conto), «O Caimão» é não só um guia para a(s) trafulhice(s) em que Silvio Berlusconi esteve envolvido nas últimas três décadas, como também consegue ser uma genial obra sobre a humanidade e a mentalidade do ser humano, condicionada pelos meios de comunicação social e pelos interesses que põe em causa em determinados momentos da sua vida pessoal e profissional.


«O Caimão» é, além de um dos melhores filmes do realizador Nanni Moretti (e o melhor, pelo menos, entre as três fitas que elaborou no século XXI), uma peça-chave para se entender melhor muitas das convicções e preocupações do Cinema contemporâneo. Não foi tão elogiado pela crítica ou pelo público como outras das obras do cineasta, mas é um filme que precisa de ser descoberto e redescoberto. É um filme cheio de intenções, repleto de mensagens políticas e sociais, sem querer moldar a cabeça do espectador a pensar de uma certa maneira. Em «O Caimão», são apresentados os factos e uma visão muito realista do quotidiano de cada ser humano e dos bastidores obscuros da política. Trata-se de uma obra muito bem medida, com vida, acima de todas as outras coisas. Um filme inteligentíssimo, para rir e pensar no verdadeiro significado do impacto de políticas, de reformas e de reformistas na nossa sociedade. Moretti apenas nos dá um fio dos acontecimentos, e deixa-nos explorar, segundo a nossa própria cabeça, toda a narrativa do filme, sendo que cada um tira as conclusões que assim melhor entender. Com uma grande realização, e um retrato das relações humanas ao melhor estilo de Woody Allen, «O Caimão» é uma crítica que assenta que nem uma luva a qualquer regime político e a qualquer pessoa. Uma delícia de filme, muito bem medida, e que não se trata de um filme datado, apesar de abordar, em parte, um político que teve mais influência no ano em que foi produzido (contudo, Berlusconi continua a dar que falar hoje - prisões e tal...), porque o seu valor e o seu simbolismo permanecerão, felizmente (e também infelizmente), intemporais...

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