Jackie Brown [1997]


O genérico, com uma música muito "cool" (interpretada por Bobby Wormack, e cujo nome é «Across the 110th Street»), que abre «Jackie Brown», o terceiro filme realizado por Quentin Tarantino (e um dos menos aplaudidos pela crítica) e que, de alguma maneira, parece ser uma espécie de homenagem à famosa sequência inicial com Dustin Hoffman em «The Graduate», acaba por dar uma certa ideia de algumas das coisas que podemos esperar nesta fita, tão Tarantiniana mas que, ao mesmo tempo, rompe com alguns estilos e formas que o cineasta utilizou nos seus dois anteriores filmes e que não estão tão presentes neste. Mas lá está, Tarantino sem marcas de Tarantino não seria a mesma coisa, e algumas das suas características mantêm-se, como o extenso palavreado "hardcore", os acutilantes diálogos intermináveis e que não se enquadram muito no que poderíamos estar à espera de ouvir, e as situações vividas pelas personagens, sempre com o seu "quê" de surpreendente. «Jackie Brown» é uma espécie de "filme-de-transição" entre a obra prima que é «Pulp Fiction», e o díptico de «Kill Bill», que se seguiria, alguns anos mais tarde, à obra protagonizada pela irreverente Pam Grier. Como filme "a solo", marca uma nova reinvenção do estilo Tarantino, e que, apesar de algumas falhas, mostra mais uma vez a versatilidade de um dos grandes nomes do Cinema Americano da atualidade, numa mistura de comédia, crime, romance e farsa, em que todas as personagens, ou pelo menos a maioria delas, podem não ser o que parecem. As mentiras que são sucessivamente contadas em «Jackie Brown» levam o espectador a entrar na roda viva que é a narrativa do filme e que (outra característica de Tarantino que se manteve nesta sua terceira realização) é habilmente desconstruída, tanto formal como cronologicamente, mostrando que ainda se podem revolucionar os tradicionalismos da escrita de filmes e da forma como se quer contar uma história na Sétima Arte. Ah, e aparece, mais uma vez, a referência do porta bagagens, que volta a ter uma função muito importante para a narrativa, que é muito cómica (ao estilo do melhor humor negro e sarcástico) e excêntrica, acompanhada na perfeição pela banda sonora mais uma vez escolhida a dedo pelo próprio Tarantino (com as suas tão peculiares referências e gostos culturais - sinceramente, há coisas que ele vai buscar e que não lembram a ninguém!)...


Jackie Brown (Pam Grier) é a figura central do filme homónimo: ela é o "sol" da narrativa de Quentin Tarantino, baseada no livro «Rum Punch» de Elmore Leonard (que foi um dos produtores desta adaptação cinematográfica). É Jackie que é o ponto central de toda a história e que da qual todos os outros personagens são "dependentes". Mas Jackie Brown também precisa de todos eles para levar o seu esquema a bom porto, um esquema que envolve muito dinheiro e muitas pessoas, sendo que uma delas é, efetivamente, a quem a "massa" era destinada. É uma personagem com várias facetas, que conta histórias diferentes segundo a pessoa com quem está a falar, e tudo para conseguir obter a soma tão desejada pelos homens e pelas mulheres que fazem parte desta trama. Mas no final, quem é que estará a "jogar" com quem, como nos diz um dos slogans da campanha de promoção do filme? É tudo inesperado, nos filmes de Quentin Tarantino, e em «Jackie Brown», isso não é exceção. Os diferentes interesses de cada personagem estão em jogo, numa disputa onde ninguém confia em ninguém e onde todos têm o mesmo objetivo: o dinheiro. «Jackie Brown» não tem um ritmo tão bem composto como os dois anteriores Tarantinos, com algumas partes melhores que outras, mas acaba por ser um filme muito bom, que peca por ser demasiado longo em certas cenas. Mas é um filme que vale mesmo a pena, nem que seja só para acompanhar o empolgante desenvolvimento da história e ver o destino, mais ou menos trágico, que as personagens irão receber. Porque os filmes de Quentin Tarantino podem não agradar a todos os gostos, mas há algo que ninguém pode negar: é que este cineasta tem uma grande criatividade. E «Jackie Brown» é uma prova disso, não tão exemplar como «Reservoir Dogs» ou «Pulp Fiction», é certo, mas é uma fita muito divertida, inteligente, cómica e com alguns toques da "típica" brutalidade tarantiniana, que não cai nos facilitismos do "gore" mais atrativo para as audiências mais ligeiras. É um filme que é uma delícia!

* * * * 1/2

Comentários

  1. Continuo a gostar imenso deste filme, até percebo o rótulo de "filme de transição" mas ao mesmo tempo desenvolve-se com um gosto pelas personagens enorme e não é ofuscado por truques de escrita ou efeitos especiais cartoonescos.

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    1. É verdade Narrador... o cinema de Tarantino mudou muito desde Jackie Brown... ;) Um Abraço!

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