Django Libertado [2012]


Qualquer novo projeto em que Quentin Tarantino se envolva, direta ou indiretamente, acaba por se tornar num acontecimento mediático global. Não é por menos: ele é um dos cineastas da sua geração mais adorados pelo público e um dos poucos que ainda quer mudar Hollywood, não deixando de executar entretenimento ao mais alto nível. A cada novo filme Tarantino renova a sua imagem e versatiliza-se cada vez mais, por se envolver em projetos completamente distintos uns dos outros (não deixando estes, contudo, de ter as suas marcas específicas e muito tarantinianas). E mais importante do que isso, é relevante assinalar o significado que Tarantino dá à forma como as suas referências o influenciam nos filmes que faz. Muitas delas são desconhecidas do grande público ou estão, simplesmente, a fugir dos novos espectadores de Cinema, mas Tarantino tenta-lhes dar uma nova frescura para os seus fãs poderem perceber como os Grandes Mestres da Sétima Arte são tão importantes para este ídolo da cinefilia atual, e assim, terão alguma curiosidade em explorá-los. E «Django Libertado» vai buscar as suas raízes ao spaghetti western, esse género tão estimado por uns, e repudiado (sem razão) por outros, que foi muito famoso nas décadas de 60 e de 70 na Europa, e também ao nome maior desse tipo de filmes, Sergio Leone, que o tornou imortal graças ao seu génio inconfundível, bem expresso nas obras primas «O Bom, o Mau e o Vilão» e «Aconteceu no Oeste», como também no excecional não-western «Era Uma Vez na América» (que é, para mim, a mais soberba fita de Leone). É inegável o legado tremendo deixado por Leone, que aqui, e pegando noutras referências dos westerns com esparguete à mistura (nomeadamente o franchise «Django», protagonizado por Franco Nero e realizado por Sergio Corbucci, e que originou dezenas de cópias), ganha um novo fôlego, apelando às novas tendências e às necessidades do Cinema do Século XXI (cuja importância e revelância é tão subvalorizada, principalmente pela cada vez maior hegemonia do "on-demand" e do "home cinema"), pela visão de Quentin Tarantino.


«Django Libertado» é um filme onde o divertimento é Rei e onde Tarantino explora ao máximo a sua veia sanguinária (mais notória depois de feito o díptico «Kill Bill - A Vingança»). Voltamos a ouvir os grandes diálogos habituais dos argumentos escritos pelo realizador, muito imaginativos, numa história muito bem construída (e muito bem musicada pelos gostos extravagan!tes e obscuros de Tarantino) que é esta demanda do ex-escravo Django (Jamie Foxx) e do Dr. King Schultz (Christoph Waltz), o homem que o libertou e que é um "bounty hunter" profissional. Ele "contrata" Django para encontrar os tão procurados Brittle Brothers em troca do salvamento de Broomhilda, a sua amada, mas serão muitas as surpresas que esperam este duo. E num total banho de sangue, num festim de piadas imparáveis (algumas mais negras e inteligentes - como o caso da agora famosa cena do Klu Klux Klan, que mesmo assim não é tão hilariante como muitos a pintam -, outras mais rebuscadas e fáceis) e numa aventura que parece não ter fim, «Django Libertado» é também um olhar crítico aos preconceitos da América (nomeadamente ao seu passado, com a escravatura retratada no filme, e à forma como, hoje em dia, o país parece querer esquecer esses tempos difíceis, impondo interdições e conservadorismos a torto e a direito) a e ao uso da "N-Word", ou aliás, à proibição do uso do termo, que já fez com que certos conservadores fossem mexer numa das Bíblias Sagradas da literatura americana (refiro-me a «As Aventuras de Huckelberry Finn», uma genial obra satírica e irónica de Mark Twain) por causa de uma simples e ridícula palavra. Aliás, muita da controvérsia que rodeou o filme foi exagerada e estragou, em parte, a estreia da fita e a paciência de Tarantino. Mas não deixou de ser um sucesso de bilheteira, mais um aliás, que se tornou o maior da carreira do realizador. Não é uma obra prima, não é um filme excelente e exagera, em parte, na sua duração e na lentidão de algumas partes menos estruturadas. Contudo, «Django Libertado», esta luta de um homem por amor, com as dificuldades postas pela escravatura e pelo racismo em primeiro plano, é um filme muito bom, um dos mais versáteis Tarantinos, que carrega mais uma vez na sua violência algo cartoonesca e divertida, com um grande elenco que providencia fenomenais performances (e só a dada altura é que percebemos porque é que Waltz é "só" um ator secundário do filme - porque a sua presença é enorme!), no meio da criatividade explosiva e delirante de Tarantino (onde se vê, hoje em dia, o uso do slow motion e da música épica que não nos filmes dele?), que, sejamos sinceros, adora matanças cinematográficas. E, se estivermos dispostos a isso, perceberemos como o que ele quer apenas é divertir os seus espectadores com todo aquele sangue. «Django Libertado» é mais uma ressurreição moderna do género Western, que tanto ainda tem para dar hoje em dia. Com ou sem tonalidades de vermelho a aparecerem no ecrã.

* * * * 1/2

Comentários