segunda-feira, 15 de julho de 2013

Breve Encontro [1945]


No último ano da Segunda Guerra Mundial estreava «Breve Encontro», um drama romântico intimista britânico, simples e encantador, realizado pelo Mestre David Lean, muito tempo antes deste cineasta criar esses épicos esmagadores que caracterizariam o seu Cinema a partir da década de 50, como «A Ponte do Rio Kwai», «Lawrence da Arábia» e «Dr. Jivago». Neste pequeno filme encontramos uma realização muito distinta da grandiosidade dessas fitas com que Lean se celebrizaria em todo o Mundo: é um romance simplista e quase banal, que deve muito do seu espírito e do seu encanto à dinâmica entre os dois atores principais e à misteriosa e bonita banda sonora, minimalista, muito assente no segundo concerto para piano composto por Sergei Rachmaninoff. «Breve Encontro» é uma história de amor à inglesa, onde no meio do retrato das duas personagens e dos encontros furtivos e escondidos que têm uma com a outra às quintas-feiras e que alimentam o amor que os une, se faz uma crónica dos costumes britânicos e das características de um povo tão peculiar, quer na sua linguagem, quer nos seus hábitos quotidianos. David Lean filma os pequenos movimentos dos atores, as subtilezas do espaço e a magia da Grã-Bretanha de uma forma tocante, centrando-se nessa relação que tem tanto de romântica como de destruidora para os dois amantes. A protagonista, Laura (Celia Johnson) confessa interiormente os seus "pecados" ao marido, que não suspeita da traição da esposa, ao longo de um monólogo "ilustrado" pelos flashbacks da sua mente, que nos revelam muitos dos momentos bonitos e reveladores que criaram a relação entre as duas personagens principais e que a fez crescer de uma forma preocupante para cada um deles mas que, para Laura, a deixa constantemente perturbada e preocupada com o futuro daquela relação secreta. Recheado de "lamechices" clássicas (no bom sentido do termo) tão bonitas e tão bem executadas, «Breve Encontro» é um dos romances que já não se fazem no Cinema (ou que, pelo menos, não são recorrentes nas novidades recentes da Sétima Arte - talvez só «Before Sunrise» se consiga safar deste rótulo), que recorre às pequenas coisas do Amor para o retratar da melhor forma, sem ser pretensioso nem precisando de recorrer a grandes dramatismos ou grandes fantasias para conseguir funcionar da melhor forma, filmando o romance de uma maneira inteligente e subtil. E ainda bem.


«Breve Encontro» tem a duração certa. Porque se o romance de Laura e Alec se tivesse prolongado por mais algumas cenas, talvez ter-se-ia tornado enfadonho, tal como se sucedeu com muitos filmes românticos da época (é uma lição que muitas fitas românticas de hoje teimam em não querer aprender ou utilizar nas suas narrativas), que hoje nos podem parecer algo datados. E por ser um filme tão preciso, direto e bonito e por si mesmo, ele não deixa grandes coisas para serem ditas, porque fala pelos seus oitenta e três minutos. Um filme simples, que enche as medidas de quem procura uma história singular e, ao mesmo tempo, com que nos possamos identificar. «Breve Encontro» foi, à época, um sucesso de bilheteira no Reino Unido, tendo sido também aplaudido com grandes honras no Festival de Cannes. E acho que o seu êxito deve ao seu romance que, a meu ver, tem um carisma tão grande como o de outros clássicos intemporais da Sétima Arte, cuja frescura e narrativa ultrapassou o seu ano de criação, tal como «Casablanca», que deve ser sempre obrigatoriamente mencionado. A forma como Lean pega nesta história tão vulgar e a transpõe para o ecrã tornou-a inesquecível para muitos (mais do que a mim, sinceramente) e consegui entender como é tão adorada esta fita. Uma daquelas pérolas que só os "Antigos" poderiam fazer e que, com tanta magia que possui, consegui resistir até aos nossos dias...

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