A Vida é um Jogo (The Hustler) [1961]


I'm gonna beat him, mister. I beat him all night and I'll beat him all day. I'm the best you've ever seen, Fats. Even if you beat me I'm still the best.

«A Vida é um Jogo» apresenta uma das personagens mais memoráveis da carreira do lendário ator Paul Newman, "Fast Eddie" Nelson, cuja história de vida continuaria, vinte e cinco anos depois, numa sequela não tão aclamada como o filme original, realizada por Martin Scorsese e com o nome «A Cor do Dinheiro». Mas centremo-nos em «A Vida é um Jogo»: é um filme que criou um dos mais memoráveis personagens do Cinema Americano e que, apesar de todo o seu ar de anti-herói, é uma das figuras mais acarinhadas pelo imaginário das fitas dos States. E apesar de ser um filme que tem o bilhar (e o fascínio de Eddie pelo desporto) como ponto central, é mais uma obra que lida com um grande "character study" das várias personagens que a protagonizam (Eddie, a sua namorada Sarah, o mestre do bilhar Minnesota Fats e o apostador pouco escrupuloso Bert Gordon) do que com o jogo propriamente dito (apesar da câmara seguir e captar profundamente os grandes momentos de jogo e as grandes táticas do bilhar das disputas que a narrativa nos conta, utilizando ângulos muito favoráveis e uma montagem muito bem construída). Contudo, é por causa do jogo que toda a história se desenrola, e é o bilhar que acaba por condicionar as vidas das figuras do filme. «A Vida é um Jogo» é uma adequada tradução não em relação ao título original (que é, pura e simplesmente, «The Hustler»), mas sim em relação às temáticas do filme e à mensagem de vida que transmite: a existência humana é como um jogo, cheio de obstáculos e de armadilhas que o Homem tem que ultrapassar, e muitas vezes, para conseguirmos atingir os sonhos que tanto ambicionamos, o preço a pagar pela execução dos mesmo é muito elevado e pode trazer consequências que não conseguimos até prever, quando temos de tomar alguma decisão delicada que envolva algum desses ditos sonhos (porque, e como dizia o poeta, "O Sonho comanda a Vida"). Mas é de ambição que se faz «A Vida é um Jogo», da persistência de "Fast Eddie" Felson em querer derrotar o aparentemente invencível Minnesota Fats (Jackie Gleason), num duelo de gigantes que pretenderá vencer durante muito tempo, não olhando a meios para poder atingir os seus inacreditáveis fins. E no meio disto, há sempre muitas apostas a serem feitas e, por isso, o dinheiro está constantemente a circular...

Os vícios do jogo e da ambição desmedida de "Fast Eddie" Felson.
"Fast Eddie" Felson não se cansa do seu objetivo, e a sua ambição parece não ter limites: ele faz mesmo de tudo para vencer e para continuar a dar que falar no mundo quase "subterrâneo" e escondido do bilhar, onde o perigo espreita e os interesses dos mais endinheirados também vêm ao de cima (e isto é muito evidente na personagem de Bert Gordon - o inigualável George C. Scott, que recusou a nomeação ao Oscar atribuída pela Academia por esta grande interpretação - que, ao ver Eddie tão determinado em arrumar Minnesota Fats, decide usá-lo para ganhar mais umas massas, ensinando-lhe, como diz a sinopse do filme, a "cruel arte de vencer"). Mas a persistência de Eddie, e a forma como isso o leva a ser derrotado em algumas partidas de bilhar ou a meter-se em sarilhos por causa das suas jogadas, interroga-nos se ele terá mesmo talento, ou se tudo aquilo não passa, pura e simplesmente, de um grande golpe de sorte. No excelente final do filme tudo ficará esclarecido, quando Eddie defronta, por uma última vez, o estranho mundo do bilhar e do dinheiro que o envolve, revelando ainda mais o seu temperamento desafiador e o "descaramento" que tem em relação aos que o rodeiam. Mas Eddie é uma pessoa com problemas e um indivíduo difícil de lidar, e daí, conhece Sarah (Piper Laurie), ume mulher algo perturbada que o segue e que acaba por sofrer as consequências da sua ambição descontrolada e pelo facto de não querer continuar a ser um "perdedor" nem de não saber nunca quando deve desistir, para o seu próprio bem (o que causa um dos grandes momentos de clímax da narrativa). No fundo, Eddie só pretende, como qualquer ser humano, integrar-se num determinado ambiente e impor-se perante os outros. Quer ser ele próprio e só pede que se faça notar no meio do pessoal. Mas será que conseguirá atingir o reconhecimento que tanto anseia? Será que as noitadas de jogo e de apostas trarão alguns frutos para ele e não para o seu pseudo-manager, que ganha mais do que ele pelas disputas em que participa? E por fim, será que Eddie perceberá que não só de ambição vive o Homem?


«A Vida é um Jogo» é, justamente, um clássico do Cinema por três razões: por ter conseguido fazer um retrato tão negro da vida sem cair em facilitismos ou clichés (utilizando o preto e branco para realçar a dureza dos ambientes em que Eddie entra e onde joga bilhar), algo que deve muito ao seu realizador, Robert Rossen; por ter essa personagem lendária (magistralmente interpretada por Paul Newman, com uma humanidade e uma simplicidade extraordinárias) e com quem nos conseguimos identificar tão bem, mesmo que nunca nos tenhamos confrontado com uma situação deste tipo; e pelo argumento, baseado no livro homónimo de Walter Tevis, que foi construído de uma forma elegante e que os atores souberam aproveitar muito bem nas suas excelentes performances. «A Vida é um Jogo» é um filme do público, mas que não deixa de ser (apesar de filmes ditos "populares" poderem ser, muitas vezes, muito mal conotados - e injustamente) uma excelente peça de Cinema, feita de coisas simples que acabam por se tornar bastante complexas quando as olhamos mais de perto, tal como o filme nos mostra. Esta é uma daquelas fitas que nos quer dar algumas pistas sobre o jogo da vida através de uma ficção que tem tanto de realidade como a existência de cada um dos seus espectadores. E não é por causa dos filmes que a nossa vida pode mudar, mas a Sétima Arte pode ajudar a abrir a nossa visão das coisas para perspetivas mais abrangentes e problemáticas. «A Vida é um Jogo» consegue fazer isso e, melhor ainda, ainda é um filme muito negro hoje, pela maneira realista e sem pretensiosismos como filma as deambulações de "Fast Eddie" Felson. Porque todos ambicionamos algo na vida, mas talvez não conseguimos perceber que tudo o que é ambicionado tem um preço, mesmo que lutemos o mais que conseguirmos pelos nossos sonhos...

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