quinta-feira, 18 de julho de 2013

8 1/2 [1963]


Uma crise de inspiração? E se não fosse passageira? Se fosse o desmoronamento final de um mentiroso sem sorte nem talento?

Depois de «La Dolce Vita», do seu sucesso internacional e da influência que teve para outros filmes e cineastas da época, Federico Fellini volta a chamar o grandioso Marcello Mastroianni para brilhar como protagonista noutra fita, completamente diferente dessa tão famosa obra cinematográfica com a icónica cena passada na Fonte de Trevi, entre Mastroianni e Anita Ekberg. Após uma colaboração em «Bocaccio 70'», Fellini decide apostar num filme completamente diferente de «La Dolce Vita», onde o sonho e a realidade se confundem constantemente, e acrescentado uma dose autobiográfica muito intensa à narrativa, protagonizada por Guido, um cineasta com um sério bloqueio criativo (ele vai fazer um novo filme... só não sabe é sobre o quê!). A estranheza começa logo pelos três algarismos do título: o que quererá simbolizar «8 1/2»? Segundo a História do Cinema, é porque este se tratou do oitavo e meio trabalho de Fellini (esta era a sétima longa-metragem, mas o realizador participara também em três outros filmes, contando cada como um "meio") e, circunstâncias do destino à parte, este é um dos números mais famosos da Sétima Arte. Apenas o título dá logo uma ideia da componente autobiográfica do filme, mas obviamente, é muito diminuta: a autobiografia só se compreenderá mesmo com o visionamento da fita e com a atenção às cenas em que Guido recorda o seu passado (há nessas partes uma exatidão tal que é muito difícil não perceber que existe muita coisa que aconteceu mesmo nas situações apresentadas) e nos dilemas que este sofre com as pressões de todos os produtores e agentes que o querem a trabalhar no seu próximo projeto cinematográfico, à medida que a realidade se confunde com os inúmeros sonhos (alguns bastante surreais - veja-se logo a cena que abre o filme) que povoam o sono de Guido. É interessante a forma como «8 1/2» "autoriza" o espectador, no meio de todas as cenas que variam entre o drama e a grande comédia à italiana (que, e agora num tom de nostalgia, já não se fazem hoje em dia, pelo menos desta forma), pensar pela sua própria cabeça qual é o autêntico real da história. E «8 1/2» permite tantas teorias, tantas explorações e tantas vias para a sua narrativa... Vou ter de ver este filme muitas mais vezes. Deixou-me uma vontade enorme de o fazer.


Muitos realizadores consideram os seus atores como meros acessórios para a elaboração dos seus filmes. Contudo, isso nunca pode ser bem verdade (porque, mesmo que o cineasta faça um filme onde tudo é genial, menos a forma de interpretar dos atores - segundo a história, segundo o ambiente, segundo as intenções da câmara, etc -, isso pode danificar muito um filme - aliás, o que seria «Laranja Mecânica» sem a inesquecível performance de Malcolm McDowell? Ou será que «Vertigo» de Hitchcock teria o mesmo poder narrativo se James Stewart não fosse o personagem central dessa fita?) e Federico Fellini sabe muito bem disso. Tal como em «La Dolce Vita», é Mastroianni que domina «8 1/2» e toda a força e imaginação que dá a Guido. E no meio do rol de personagens peculiares e excêntricas (mas que nunca perdem a sua humanidade, apesar da excentricidade) que o rodeiam, ele consegue sempre destacar-se por ser, lá está, o "sol" de toda a fita. Desiludido com a sua vida, Guido não quer ser obrigado a fazer um filme para o qual as ideias não abundam, mesmo que tenha ido fazer tratamento a umas termas para tentar recuperar a criatividade perdida. Recorre muitas vezes à nostalgia que nutre pelo passado neste seu desgosto constante com o presente, recordando certas pessoas que o marcaram (e acaba por reencontrar uma ou outra, que acabam por lhe suscitar mais memórias e situações). Em «8 1/2» há sempre algo a acontecer, várias situações em cada cena, sempre tão humanas e ao mesmo tempo irreverentes, que tornam o filme ainda mais rico do que se poderia esperar. Fellini aproveita e dá também ao espectador mais um retrato da "sua" Itália, suas ideias e seus costumes (acabando por dar alguma maior atenção ao papel de uma Igreja mais conservadora e fanática, que ele próprio testemunhou em pequeno), não deixando de ser uma crítica algo satírica que abrange qualquer país e qualquer ser humano. Se em «La Dolce Vita» havia um confronto mais autêntico com a realidade, em «8 1/2» a mesma está também presente nos sonhos de Guido que, apesar da elevada surrealidade, não deixam de ter uma intenção crítica - nem que seja para a perspetiva de Fellini e no valor ou na importância que as personagens ou as situações que Guido recorda tiveram na vida e nos comportamentos do cineasta.

O desfile das memórias e dos sonhos de Guido numa das melhores e mais inesquecíveis cenas de 8 1/2
«8 1/2» é mais um exemplo da mestria da realização e da imaginação de Federico Fellini, um cineasta que soube explorar todas as potencialidades do Cinema para conseguir por em prática algumas das suas mais malucas ideias e conceitos. Vemos tudo e mais alguma coisa a suceder-se no filme, o personagem central e reencontrar-se, fisica e mentalmente, com o seu passado, e o frenesim é tanto que ele próprio começa a questionar o seu verdadeiro valor. Uma questão que me ficou na cabeça durante o visionamento do filme e que deixo aqui exposta foi: será que Guido é um sósia psicológico de Marcello, de «La Dolce Vita»? Ambas as fitas deixaram-me uma impressão tão forte e encontrei algumas semelhanças muito interessantes entre as duas personagens (apesar de, ao mesmo tempo, serem muito distintas - Marcello é um playboy italiano e boémio, Guido é um cineasta a entrar num quase-estado de decadência pessoal e criativa) que não consegui deixar de pensar nesta questão - ambos estão frustrados e decidem não sair da situação de frustração que sentem (porque no fundo, Marcello e Guido nada têm a dizer ou a fazer no ambiente em que se encontram, mas querem atrair, na mesma, alguma atenção sobre si próprios)... mas fica à vossa consideração, se estiverem a pensar em ver o(s) filme(s) ou se já o(s) conhecem neste momento. Porque eu não sou um teórico do Cinema e há coisas que servem melhor para tema de conversa do que para a escrita... Em «8 1/2» Fellini volta também a confrontar o sagrado e o profano, deixando uma série de importantes questões morais após o término da fita. Todo o elenco é soberbo, mas Mastroianni, mais uma vez, volta a ser um inesquecível protagonista felliniano, acompanhado por mais uma sublime banda sonora do sempre inspirado Nino Rota. «8 1/2» é um filme inquieto, como o ser humano é inquieto, e como o próprio Fellini também o é. Ao pegar na sua própria vida, o realizador conseguiu fazer um filme maior do que a vida, e que conseguiu dar um novo fôlego ao seu próprio Cinema.

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