10 filmes para uma bonita tarde de Verão... com (ou sem) chuva

Pois é, parece que o aquecimento global anda a fazer efeito nas temperaturas e o calor dos próximos dias  vai ser um bocado incerto. E assim, para aproveitarem os dias em que chova durante a tarde e que, por isso, tornem as idas à praia impossíveis de serem concretizadas (a não ser que se queiram constipar), deixo aqui dez bons filmes para aproveitarem os tempos mortos causados pela temperatura instável. Contudo, estas fitas são boas para ver em qualquer altura, e esta lista poderia ter, assim, outro título qualquer. Mas este é giro e sugestões são sempre sugestões. Em cada título que escolhi, está o link para a crítica detalhada do filme, feita pela minha pessoa, para este estaminé. Os nove últimos estão ordenados por nome e o primeiro está nesse lugar porque foi o primeiro filme que me veio à cabeça. Aqui ficam:

1. - Network - Escândalo na TV
"I'm mad as hell and I'm not gonna take this anymore!". Este é o grito de irritação lançado por Howard Beale, a personagem central deste drama satírico de Sidney Lumet que faz uma crítica única à televisão e ao poder dos media. Foi feito nos anos 70, mas se fosse executado hoje, não mudaria em nada. Um filme que continua a ter um impacto extraordinário, e que é muito relevante para os tempos que correm, em que estamos inundados de contestações sociais por tudo e mais alguma coisa. Mas com tantas críticas e protestos, alguma coisa muda na sociedade? Ou apenas fazem manchetes nos jornais durante um dia ou dois e desaparecem como nunca tivessem existido? Esta é uma das muitas questões pertinentes levantadas por «Network», onde o jornalismo televisivo é desmascarado de uma forma assustadoramente genial, e onde percebemos como interessam sempre mais as audiências de um acontecimento do que o apuramento da veracidade do mesmo. A ascensão do louco "profeta" Howard Beale, e o seu destino, é apenas um exemplo ficcional de todos os segredos verdadeiros que nos escapam todos os dias...

E que tal um Western com muitos tiros e pancadaria à mistura (mas atenção - não é uma pancadaria qualquer!) para animar a tarde? E que tal serem surpreendidos quando pensavam que os filmes de "cobóis" estão ultrapassados e não interessam já nem à Maria Cachucha, que é a época em que eles eram populares? Poderia dar muitas mais sugestões, mas deixo nesta lista duas (fica mais uma num dos números a seguir, no quarto, mas são duas fitas muito distintas), e uma delas, uma das mais recorrentes que eu faço, é este «The Wild Bunch», de Sam Peckinpah, o realizador que inovou o Cinema Americano com obras primas como esta, onde a violência foi mostrada de uma maneira nunca antes tentada em Hollywood. É um ataque aos bons costumes, mostrando as personagens tal como elas são, sem dó nem piedade (o assalto da sequência inicial é um claro exemplo disso mesmo), e é de uma excelência enorme. É daqueles filmes que nos deixam de boca aberta. E mais não digo.

E um filme de Woody Allen nunca calha mal, principalmente se for visto num ambiente familar ou romântico. E «A Rosa Púrpura do Cairo» é perfeito para isso mesmo. É um dos filmes preferidos do próprio realizador, entre os que realizou, por ter conseguido fazê-lo exatamente como queria. E é uma delícia, além de ser uma homenagem ao Cinema, com uma história onde a realidade da narrativa e a magia do Cinema se aliam para contarem uma bonita história de amor, protagonizada por Mia Farrow e Jeff Daniels. Muitos dos temas das relações humanas recorrentes do Cinema de Woody Allen estão aqui, e é impossível uma pessoa não se deixar encantar pelo mundo desta fita e pela relação que envolve uma cinéfila compulsiva e a personagem do filme que ela vai ver recorrentemente à sala. E depois, o próprio ator do filme mete-se na parada! Isto só mesmo a ver é que se pode acreditar... um filme muito imaginativo.

O segundo (e último) Western desta lista é o épico de Sergio Leone. Porquê? Porque o filme fala por si, porque é daqueles filmes para se ouvir com o som no máximo (ou quase - evitem ficar surdos!) e porque é magistral. «Aconteceu no Oeste» é um Western saído da mente de um cineasta italiano, que deu um novo impulso ao género e que conseguiu retratar melhor a América do que os próprios americanos nas suas "coboiadas". E a música de Ennio Morricone, meus amigos... aquela música... Com um suminho fresco a acompanhar, e sem retirar os olhos do ecrã a qualquer instante (sim, o filme é lento, mas é tão envolvente!), faz uma sessão de Cinema imperdível.

Talvez para as mentes mais picuinhas, este filme calhe melhor num ambiente noturno, menos aconselhável a pessoas mais sensíveis, mas «Blood Simple», o primeiro filme realizado pelos incontornáveis Irmãos Coen (e que eu continuo a considerar o melhor da filmografia desta dupla) pode ser visto a qualquer hora do dia. É um thriller empolgante como poucos e de uma intensidade que apenas os Coen conseguem captar. É um filme algo esquecido, mas que vale tanto a pena. E o Canal Hollywood faz muito bem em passá-lo muitas vezes na sua programação. A ver se as pessoas o visionam! E é outro daqueles filmes que me deixou de boca aberta. Mas neste caso, foi do princípio ao fim. Com a sala completamente às escuras, e sem ninguém a importunar a sessão com SMS's constantes a enviar e a receber, é daquelas coisas que nem vos digo. E todos falam de «Fargo», que também gosto muito, e de «Este País Não é Para Velhos», mas aqui têm os Coen num estilo "noir" como eles nunca mais conseguiram voltar a fazer...

6. - Cyrano de Bergerac
Esta é a versão mais famosa e intemporal da famosa lenda de Cyrano de Bergerac, e tem tudo para agradar a todos. Têm também Gerard Depardieu numa das suas melhores interpretações (sim sim, muito antes da história da Rússia...), numa história de amor impossível entre o magnífico poeta narigudo e uma bela donzela na França do século XVII. É um filme de aventuras, de romantismo e de Vida. E a forma como Cyrano foi humanizado por Depardieu é mesmo notável. Uma narrativa simples de um homem simples, mas que deixou muito para a posteridade e muitas histórias e situações da sua vida para serem contadas às gerações posteriores. Ah, e «Cyrano de Bergerac» mostra também como o amor é difícil para o Homem desde sempre. Por isso, engatatões solteiros, animem-se!

Donnie Darko, a estranha personagem interpretada por Jake Gyllenhaal, saberá mesmo viajar no tempo, ou não passa de um tipo com muitos problemas mentais? Este filme surpreendente faz tantas perguntas e deixa poucas respostas, e causou-me um impacto muito grande quando o vi no ano passado. É uma espécie de "mind-f*ck movie", onde o mistério se torna cada vez mais complexo e a história se torna cada vez mais viciante. Será que é tudo verdade em «Donnie Darko»? Um bom filme para ser debatido após a sessão. E deixo um grande aviso: vejam a versão original de Cinema. A Director's Cut não é muito a "versão que o realizador queria ter feito mas que os mauzões dos produtores não deixaram", mas sim a "versão que o realizador quis executar anos depois para tornar o filme mais objetivo e para lhe render mais umas massas".

Um grande filme sobre o (suposto) pior realizador de todos os tempos. Talvez seja a fita mais precisa e refinada de Tim Burton, e Johnny Depp está aqui excentricamente genial, na personificação do ídolo do cineasta e do ator, neste biopic que percorre a estranha carreira cinéfila de Edward D.Wood Jr até à estreia do seu clássico de culto (na categoria dos "bons maus filmes") que é «Plan 9 From Outer Space» (a tradução portuguesa é muito má, «A Morte Veio do Espaço»).O uso do preto e branco é excelente e não há aqui nenhuma intenção de ridicularizar Ed Wood e as suas extravagâncias cinematográficas. Mostra-se apenas os métodos e manias do realizador e a forma como ele via o Cinema, a sua grande paixão, e os meios que arranjava para concretizar os seus mirabolantes projetos. «Ed Wood» foi um fracasso quando estreou, e infelizmente não está (aind) editado em Portugal. Mas é uma lição de Cinema que nos ensina que, por vezes, é dos "fracos" que reza a História...

É Marlon Brando numa das suas melhores interpretações, é Elia Kazan numa das suas melhores realizações, é um argumento soberbo e uma fita com um espírito único, que ultrapassa qualquer época histórica ou política (mesmo que «Há Lodo no Cais» tenha conotações políticas, nomeadamente relacionadas com a caça às bruxas do McCarthyismo). Uma obra excelente do bom velho e clássico Cinema Americano, que nos faz pensar nos grupos que nos rodeiam e que influenciam demasiado a nossa individualidade e as convicções de cada ser humano. No caso de Terry Malloy, a personagem de Brando, foi o facto de ter deixado o pugilismo por causa da máfia que o "dominou" e que pela qual ele se deixou levar, esquecendo o seu amor próprio. «Há Lodo no Cais» é um filme que nos mostra que vamos sempre a tempo de agarrar as oportunidades que surgem e que o indivíduo é mais importante do que um coletivo "uno". Excelente para ser visto em família.

E para terminar esta lista, deixo uma escolha mais recente e que, para muitos, pode parecer insólita: o filme independente e subvalorizado «Away We Go», realizado por Sam Mendes (que voltou a brilhar, recentemente, com o regresso triunfante de James Bond em «Skyfall») e protagonizado por John Krasinski e Maya Rudolph. Esta é uma fita simples, sobre a construção da família e das esperanças que o futuro traz a um casal. De uma forma cativante, inteligente e absorvente, «Away We Go» mostra um casal a reencontrar-se com várias pessoas e diversos lugares que marcaram as suas vidas, para conseguir decidir, afinal, o que querem fazer das suas próprias vidas e onde querem criar o filho que está por nascer. Fiquei muito surpreendido com este filme, muito esquecido e menorizado por muitos, mas é uma fita que deve mesmo ser vista. É um encanto de filme, que também é ótimo para ser visto num ambiente familiar, e que como até está a um ou dois euros nas lojas das grandes superfícies, é de aproveitar.

E assim acabo esta lista. Poderia ter-me lembrado doutros filmes, se fizesse a lista noutra altura, mas acho que estas dez sugestões são muito boas e interessantes para esta época do ano. Aproveitem estas sugestões e descubram outras obras que vos interessem... mas vejam sempre bons filmes!

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