Um Coração Selvagem (Wild at Heart)

 
A cinefilia tem destas coisas estranhas: tanto se pontapeiam desalmadamente filmes cuja temática deveria ter sido melhor explorada pelos espectadores, como depois se aclamam fitas que causam um estranho impacto em meio mundo por terem, como realizador, um indivíduo que gosta de utilizar um "estilo diferente" em algumas das suas obras, mas que, se tivessem sido realizadas por uma pessoa completamente distinta, seriam consideradas sacrilégios cinematográficos. Foi essa a principal ideia que retirei de «Um Coração Selvagem», uma constante divagação em forma de filme desalmadamente inconsequente, sem muitas pontas por onde se lhe possa pegar. Mas lá está, este é daqueles filmes que fazem parte daquela "secção" especial com o título de "ou se odeia ou se ama". Mas como eu não gosto de extremos (e também porque, no fundo, e apesar das coisas que não gostei em «Um Coração Selvagem», existem algumas outras coisas boas que não me dão justificação para odiar esta película), fico pela mediania. Este filme é um romance que, autenticamente, faz juz ao adjetivo do seu título: é totalmente selvagem, descontrolado e, mais do que tudo, muito estranho e descabido. David Lynch decidiu, aqui, pegar em mais uma das muitas malucas ideias que o seu cérebro anda a matutar no dia a dia (ideias bizarras que ocorrem a todos nós mas que, na maioria das vezes, preferimos guardar na gaveta - e bem, porque ainda podem pensar que sofremos de algum problema mental), e não querendo fazer comparações com algum dos outros filmes do realizador que são bastante aclamados (e nisto refiro aos seus trabalhos mais complexos e controversos, como «No Céu Tudo é Perfeito», «Veludo Azul», «Estrada Perdida», «Mulholland Drive» e «Inland Empire») porque ainda não vi nenhum deles, posso apenas dizer que, ao contrário dessas fitas, que são famosas pelo seu teor psicológico e mental muito elevado, em «Um Coração Selvagem» não há complicações narrativas, nem grandes ousadias cinematográficas e estilísticas: temos uma história de amor insípida, pouco original (mas que, para muitos, está repleta de originalidade - talvez mais pelo estilo bizarro de David Lynch do que por outra coisa qualquer...), repleta de personagens caricaturais e cuja composição deve tanta inteligência como às bandas desenhadas que este escriba elaborou, durante anos, no ensino básico, e que, para mim, tem apenas um lado mais interessante, e divertido, no humor muito negro e excêntrico com que são polvilhados os diálogos das personagens, a bizarria/loucura da sua maneira de ser e os seus estados de espírito (como a famosa frase de Sailor Ripley, a personagem de Nicolas Cage, This snake skin jacket symbolizes my individuality and belief in personal freedom.), e a ironia combinada com a bizarria de muitas das cenas apresentadas, neste filme que é, basicamente, uma narrativa de matanças, amor e oportunismos em locais muito pouco cinematográficos (pelo menos, no senso comum), onde são feitas, constantemente, referências a «O Feiticeiro de Oz». Para quê? Supostamente, pelo que diz na sinopse do filme, é para homenagear o famoso musical com Judy Garland. Mas para mim, é só mais um ingrediente que não encaixou em «Um Coração Selvagem».
 
 
«Um Coração Selvagem» é a história da relação-tipo entre duas pessoas completamente banais, Sailor e Lula que são assombrados por uma constante perseguição pela arte e engenho da mãe de Lula, que é o autêntico diabo em pessoa e que, pelo que o filme nos mostra, é como se fosse a bruxa má do reino de Oz (porquê? Sinceramente, não sei), porque não aprova o casal e, devido a umas coisas do passado, gostava de ver Sailor morto e enterrado. Ah, o amor da família, sempre tão bom para as relações humanas... Sailor é um fã acérrimo de Elvis Presley e imita os seus gestos e a sua forma de andar (de uma maneira muito ridícula), e Lula é uma rapariga com um passado obscuro e com umas estranhas ideias que lhe passam constantemente pela cabeça (olha o Lynch versão feminina!), como, outra vez, coisas do «Feiticeiro de Oz» (caramba, já chega!), e vão partir numa viagem, após Sailor ter saído da prisão e estar em liberdade condicional, para conseguirem dar alguma felicidade às suas vidas e verem-se livres da terrível mãe de Lula (que tem um gosto amoroso especial por assassinos contratados, é preciso referir). E é este mundo alternativo, bombeado com uma banda sonora peculiar, que nos é apresentado em «Um Coração Selvagem». E que há mais para dizer? Que este é um filme ultrairreverente, com muitos planos elaborados de uma maneira muito alternativa, onde as estranhas ideias de Lynch, e as coisas sem sentido que são metidas ao acaso na narrativa (e que acabam por quebrar muito do seu ritmo) acabaram por levantar questões despropositadas na minha cabeça, aquele tipo de perguntas que não são lá muito boas que surjam na mente do espectador enquanto está a ver um filme: "Mas o que é aquilo?", "Porque é que está metida esta referência desta maneira tão esquisita?", "O over-acting das personagens tinha de chegar a este nível particularmente irritante?" e "Mas afinal o que é isto?" são apenas alguns exemplos. Ou seja, tratam-se daquelas perguntas que nos querem distrair do essencial do filme para partirmos para a auto-discussão de todas as coisas que não estamos a gostar no mesmo. Mas com algum esforço, consegui ultrapassar essas perguntas, quando me surgiam, e até consegui aproveitar bem as duas horas de filme que constituem «Um Coração Selvagem». O filme tem, como já disse, coisas boas e que, ao verem o filme, conseguem captar quais são (até podem ser capazes de gostar mais da fita do que eu, é bem provável). Mas é pena que, no geral, esta obra não tenha uma estrutura muito convincente dentro do seu próprio universo bizarro e diferente, onde a parca originalidade que possui é só posta no estilo de David Lynch (algo que, a meu ver, acabou então por colocar esta fita num patamar de qualidade que, nas mãos de outro realizador, não conseguiria adquirir uma fasquia tão alta) e onde senti um grande desequilíbrio para tudo ser levado ao máximo exagero possível, de uma maneira propositada e para entrar, de uma forma mais fácil e menos interessante, na cabeça das pessoas.
 
 
«Um Coração Selvagem» não é, por isso, nenhum «Mulholland Drive». A lógica é óbvia, e aqui faz-se, em suma, uma ode ridícula às coisas ridículas da vida. Há tantas cenas que, se fossem remontadas ou pensadas de outra maneira, poderiam ter encaixado melhor no filme, assim como diversas personagens e alguns figurantes que nos são apresentados. Há tanta coisa que é metida ao acaso, neste filme, que depois acaba por não servir de nada, para um filme que pretende parecer profundo e romântico sem ser lamechas, mas que acaba por ser tão inteligente como uma telenovela. Mas no fundo, é um filme divertido, que me deu gosto de ver e que, apesar das muitas críticas que lhe fiz, merece ser elogiado na cinematografia, na realização de David Lynch e na escolha acertada de muitos dos atores que fazem o elenco (e que, apesar do over-acting, têm algumas performances dignas de memória - sobretudo Nicolas Cage e Laura Dern, o casal-protagonista da trama, e também Willem Dafoe - aqui as memórias que terei desta personagem roçarão o repugnante), além de existir, no fim de contas, uma ideia interessante e algumas cenas bastante boas, no meio desta salganhada Lynchiana. «Um Coração Selvagem» é um filme para os fãs de Lynch e do seu "estilo", uma história de amor bizarra cheia de falhas, mas que é divertida de se ver.
 
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