Um Adeus Português [1986]


Tempo de Guerra e Tempo de Paz: eis as duas épocas que se cruzam e se confrontam em «Um Adeus Português», uma interessante obra de João Botelho que critica não só a inutilidade de um conflito armado (neste caso específico, a Guerra Colonial), como também a forma como a mesma influencia, para sempre e de uma forma dramática, um grupo de pessoas que só estão ligadas à mesma pelo facto de um familiar ter participado na mesma e de lá ter perdido a sua vida. Em «Um Adeus Português», Botelho faz uma constante (e metafórica) oposição entre as duas eras, o passado e o presente do filme, mostrando um retrato da guerra, intimista, tenso e a preto e branco, ao lado dos "coloridos" anos 80 (a primeira cena passada nessa época abre com o plano de um bonito arco-íris a surgir no céu - apenas uma de muitas mensagens simbólicas?), mas que, com tanta "cor", não deixa de pairar a tristeza nos Pais, no irmão e na viúva do soldado morto em combate no Ultramar, que nunca deixaram de passar, doze anos depois, pela dor e pelas consequências que aquele trágico acontecimento trouxe às suas vidas. Os tempos mudam, as vontades também, mas há ainda uma parte do passado que continua a estar muito presente e viva em cada uma destas quatro personagens, difícil de ultrapassar e de esquecer, e que, quer eles queiram ou não admitir, mudou os seus percursos de uma maneira incrivelmente trágica. Nunca mais voltaram a ser os mesmos depois daquela tragédia, o que nos mostra como «Um Adeus Português» é um forte filme em termos de mensagens sociais, sendo um conto sobre a passagem do tempo e a maneira como a mudança política (e as particularidades do antigo regime) alterou Portugal e os Portugueses. Tenho pena é que, com tantas boas intenções e ideias, o apenas razoável conteúdo não consiga fazer justiça à forma e às ideias algo inspiradas de Botelho, com alguns pormenores e situações a serem introduzidos de maneira forçada e inconsequente (como por exemplo, na cena que se passa no metro)...


Em «Um Adeus Português», todas as personagens do presente são "obrigadas" a regressar ao passado e à dita tragédia quando se reencontram, ou seja, quando os Pais do falecido decidem partir para Lisboa ver a nora e o filho, que já não os vê há mais de um ou dois anos (ele já nem sabe bem a quantas anda...). A viúva tem, nessa altura, um novo namorado (um indivíduo que, numa palavra, posso qualificar de "sacana", mas isto sou só eu), e o filho escreve histórias obscenas para uma editora manhosa. E sem precisarem de tocar muito no assunto que acaba por os voltar a reunir todos, percebe-se como todo o ambiente se torna mais pesado quando se dá o reencontro e quando voltamos a vê-los nas cenas seguintes de 1985. O Pai (Ruy Furtado) não queria voltar a suportar o trauma e, antes da viagem, tinha tentado convencer a mulher para que não saíssem do seu lar. Mas depois da ida para Lisboa e de voltar a ver a viúva, ele volta também a pensar no passado e no dramático destino do seu filho. E ao mesmo tempo, são-nos mostradas imagens da guerra e da tensão que a rodeia, ilustrando perturbantes acontecimentos que perfazem alguns dos perigos que os conflitos armados propiciam a quem neles participa. Contudo, filmam-se também os hábitos dos soldados, as particularidades de alguns deles e a indiferença que muitos têm perante a tristeza do ambiente e das situações de que são testemunhas. Porque são eles que têm de sobreviver no meio daquele pandemónio, e por vezes não têm, sequer, tempo para pensar no que estão a fazer, em detrimento da sua auto-salvação. É claro que os Pais, o irmão e a viúva não estão a par de todos os pormenores do infeliz caminho que o soldado percorreu e os motivos que levaram ao seu trágico fim de vida (numa das - poucas - sequências do filme que revela uma grande mestria cinematográfica). Mas não precisam: sabemos que apenas a dor do seu desaparecimento é suficiente para lhes causar uma mágoa que irá durar para o resto das suas vidas, e tudo por causa de uma Guerra sem algum sentido aparente. E, no presente, sente-se também, na figura da Mãe, uma necessidade de se encontrar com a Fé para ter forças para continuar, abordando bem a religião e a sua relação com o ser humano (numa cena muito bonita - outra das ditas poucas). No final, todos percebem como as feridas do passado são impossíveis de sarar, e que, por mais que queiram e façam, a memória não lhes vai permitir pôr de parte a lembrança do soldado, aquilo que ele foi e, se não tivesse morrido, aquilo que poderia ter sido ou onde poderia ter chegado.


Com muitos planos demasiado supérfluos e desnecessários, alguns atores bons e outros não tanto, e um argumento interessante mas com algumas incongruências e desnecessidades, se fez «Um Adeus Português». É um filme com muitas boas intenções, mas com muito poucas concretizações a partir dessas intenções. Foi um filme que marcou a época da sua estreia, pelo seu tema, pela sua abordagem, num Portugal onde a democracia até há bem pouco tempo tinha acabado totalmente de ser construída. Mas com o passar dos anos, pode-se hoje fazer uma distinção entre preocupações políticas e Cinema de uma forma mais objetiva: não há dúvida que João Botelho quis passar uma história sobre a sociedade portuguesa de uma maneira diferente e pouco vista na cinematografia nacional (aliás, muitos dos seus filmes são exemplo disso mesmo, como se sucede com «Filme do Desassossego»), mas infelizmente, a meu ver, com o passar do tempo (não sei se, na época, teria a mesma opinião - estou a escrever segundo o visionamento que fiz há uns dias, e não nos anos 80), «Um Adeus Português» deixou apenas uma marca de curiosidade e de um quase-documento pseudo histórico passados tantos anos. Mas não deixa, por isso, de ser uma obra com interesse e com coisas para serem exploradas. Coisas essas que poderão tocar mais a uns do que a outros, dependendo das opiniões e dos gostos cinéfilos - só espero é que ninguém me queime em hasta pública por esta crítica! No fundo, é um filme que se destaca ainda por alguns aspetos, mas que se torna um pouco dispensável por não cumprir da melhor forma as metas que pretendia atingir. Mas a intenção e a boa elaboração de algumas partes dá esse interesse adicional a «Um Adeus Português», uma obra sobre acontecimentos e políticas que marcaram, de uma forma indelével, toda a existência do País.

* * * 1/2

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