quinta-feira, 27 de junho de 2013

Timão de Atenas: mais Shakespeare no D. Maria II


"Quando há dinheiro, há amigos". Este provérbio surgiu-me várias vezes no pensamento quando, ontem à noite, estive a assistir a mais uma magnífica peça que está em cena no Teatro Nacional D. Maria II: «Timão de Atenas», e que é mais uma obra genial do eterno William Shakespeare (que dispensa qualquer apresentação) e que, não sendo das mais celebrizadas, não deixa de ser uma obra fundamental da História do Teatro e deste seu dramaturgo. E essa é apenas uma das muitas lições de moral que o espectador pode retirar das desventuras de Timão, um homem rico que, de um momento para o outro, perde tudo o que tem e aí percebe o verdadeiro valor que lhe dão as pessoas que o rodeavam nos tempos dos excessos e do luxo. Totalmente diferente de «À Vossa Vontade» (que esteve em cena há pouco tempo e que também tive oportunidade de ver "no melhor ecrã HD alguma vez construído", o do palco), que se tratava de uma comédia em estado puro, cheia de excentricidades e de grandes momentos de comédia, «Timão de Atenas» é uma peça dramática em todo o seu esplendor (se bem que tenha alguns atores que, pelo menos na televisão, estivemos habituados a fazerem papéis cómicos - como é o caso de três dos atores, que fizeram parte de projetos como o exuberante e delirantemente parvo programa «Duarte e Companhia» -, mas que no drama saem muito bem), provocadora para a sua época e provocadora ainda hoje em dia. William Shakespeare volta a dar umas alfinetadas na sociedade do seu tempo e nas ridicularidades e nos defeitos que a mesma possui, dando-nos o retrato de um homem que, por ser tão bondoso com os outros, acaba sem nada e sem nenhum dos seus "protegidos" a retribuir a ajuda e as ofertas que Timão lhes atribuira antes, nos grandes banquetes que proporcionava em sua casa.

«Timão de Atenas» é uma peça para deixar qualquer pessoa arrepiada, tanto pela vivacidade das interpretações do excecional elenco, como pela encenação do falecido Joaquim Benite (esta foi a última peça que o encenador fez ainda em vida, o que faz com que este seja o seu "testamento") que, apesar de um ou outro pormenor menos feliz, não deixa de surpreender pela forma como nos cativa. A partir de todo o dramatismo, cria-se toda uma espectacularidade que se adequa perfeitamente à ação da peça e às suas personagens, que deambulam pelo palco, falam connosco e umas com as outras e assumem os seus pensamentos e as suas convicções (que variam tanto ao longo de toda a história) e que não podem mesmo deixar ninguém indiferente. Mais do que uma história, «Timão de Atenas» é um "character study", pelo génio que só Shakespeare soube dar ao Mundo: seguimos com atenção a mudança de personalidade de Timão, dos oportunistas que o rodeavam e que só querem andar atrás do ouro que ele possuía, e compreendemos como, tal no século XVI, o Homem é um indivíduo muito relativo, que varia segundo as circunstâncias em que se envolve e pelos condicionalismos que influenciam o seu estado de espírito e a sua maneira de ser. «Timão de Atenas» é por isso, e tal como toda a obra de Shakespeare, mais do que um documento histórico para ser analisado por ratos de biblioteca: é uma peça viva, com muito para nos dizer e com muito para ensinar ainda hoje aos espectadores. Apesar de tanto teatro recente e bom estar a surgir cada vez mais na cultura portuguesa, vale sempre a pena voltar aos clássicos. E com a qualidade desta co-produção da Companhia de Teatro de Almada e o D. Maria II e com a capacidade de ser fiel ao texto sem deixar de ter criatividade própria e de conseguir ainda criar uma magia superior no Teatro a um texto do calibre de «Timão de Atenas», encontram-se muito poucas. E por isso aconselho vivamente esta magnífica encenação, que estará nos palcos do Teatro Nacional até ao dia 30 de junho!

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