quinta-feira, 27 de junho de 2013

Tarde Demais [2000]


Baseado em (passe-se a redundância) "factos verídicos", o filme «Tarde Demais», realizado por José Nascimento, constitui uma surpresa muito interessante no Cinema Português contemporâneo. Não se trata de um filme "pipoqueiro", mas também não ultrapassa a barreira da "intelectualidade" de alguns realizadores lusos: é uma obra sobre uma realidade portuguesa, que se restringe à realidade e a aproveita para fazer, do seu conteúdo, um filme muito bem executado, sem a presença regular de clichés e com uma forma de filmar pouco usual e pouco "correta": não há planos fixos, a câmara está sempre em movimento e, por vezes, fica-se com a sensação que estamos a assistir a um documentário. E talvez seja esse o objetivo da história, escrita por Nascimento e por outro cineasta português, João Canijo (que recentemente obteve o elogio da crítica e do público internacional com «Sangue do Meu Sangue»): dar-nos uma sensação de que o que estamos a ver é a própria vida, e é como se «Tarde Demais» não fosse uma ficcionalização da história verídica, mas a exata realidade dos factos. É um drama que se passa num ambiente isolado (o rio Tejo), representado por cores frias e, muitas vezes, quase inexpressivas, na fotografia do filme. É neste contexto que encontramos os quatro pescadores protagonistas do filme, que tentam salvar as suas vidas depois da canoa que estavam a utilizar ter começado a afundar-se. Somos logo confrontados, com o início da fita, com esta problemática, que abarcará toda a restante duração da mesma. Sem mais demoras, atiram-nos com o problema à cara e com as diversas maneiras que Zé (Vítor Norte), Manuel (Adriano Luz), Joaquim (Nuno Melo) e António (Carlos Santos) tentam utilizar para concretizarem o seu desejo de regressarem a terra, para junto das suas famílias e amigos, e saírem dali o mais depressa possível, antes que o frio das águas do Tejo consuma as suas vidas. E em «Tarde Demais» assistimos também aos confrontos que se realizam entre as personagens, uns, causados pelo pânico da situação e pela vontade de um ou outro querer denunciar quem é que causou tudo aquilo, outros, porque não conseguem engendrar uma solução totalmente fiável para o problema que têm em mãos. E disto se faz um filme relevante, uma história de simplicidade(s) e uma incrível lição de coragem. Porque às vezes esquecemos que as coisas mais simples da vida se encontram naquilo que rodeia o nosso quotidiano e que, por tantas vezes que costumam suceder-se, deixámos de lhes dar qualquer significado ou importância.


De entre os quatro pescadores, um destaca-se mais, pela sua vivacidade e persistência em querer salvar os seus companheiros, que já não possuem tantas forças, como ele, para continuarem a caminhar para a salvação que, ao mesmo tempo que parece estar perto, parece também que se afasta cada vez mais daquele quarteto. Esse pescador é Zé, que proporciona a Vítor Norte uma excelente interpretação (o Globo de Ouro foi totalmente merecido!), e que acaba por ser o representante de um tipo de homens que não são muito comuns na sociedade - aqueles que ainda têm respeito pelas pessoas que o rodeiam e que não pensa só no seu próprio umbigo. E isto não nos é mostrado com sentimentalismos desnecessários, nem "manipulações" excessivas como naqueles filmes de puxar a lágrima ao canto do olho de forma propositada. Nós ficamos a saber isso vendo as ações deste personagem, e isso apenas basta para tirar-se essa conclusão. Não é preciso "heroicizar" ninguém nem pôr Zé num pedestal divino, com "Herói" estampado na testa. E ele e os seus colegas não podem desistir e não podem parar, e Zé tenta, com o máximo das suas forças, que todos cheguem ao fim, depois de todo o martírio, sãos e salvos a suas casas. Mas «Tarde Demais» não se centra "apenas" na situação dos pescadores, acabando por, a partir de uma determinada altura, mostrar duas cenas: a do desenrolar do dramatismo na canoa que a pouco e pouco se vai afundando, e por outro lado, as reações e os comportamentos do filho de Zé e da filha de Manuel, que tentarão, por todos os meios, encontrar os quatro pescadores, antes que seja demasiado tarde, apesar da burocracia e da falta de percepção de algumas autoridades que contactam só ajude a que tenham mais dificuldades nesse processo. Assim tomamos contacto com um mundo pequeno e perigoso, e que foi retratado de uma forma muito interessante em «Tarde Demais». O filme vive principalmente do grande e complexo trabalho dos seus atores, auxiliando à narrativa uma análise psicológica profunda das mesmas e dos comportamentos que as levam a agir de determinadas maneiras, acompanhando uma banda sonora quase "invisível", mas que de certo modo, preenche o peso dramático que o filme carrega, tal como o facto das imagens não terem um aspeto "limpinho", não são trabalhadas para parecerem muito coloridas e bonitas, dando ainda uma maior noção de realidade, "sem corantes ou conservantes". É por estas razões (e talvez outras que me podem ter escapado durante a escrita desta análise e que não apontei durante o visionamento do filme) que gostei muito de «Tarde Demais». O Cinema Português tem muitas pérolas escondidas... o que é pena é que não são tão divulgadas quanto merecem...

* * * * 1/2

2 comentários:

  1. Boa referência, quando vi o filme há uns tempos também fiquei com uma excelente impressão. quanto ao cinema português, concordo que há pérolas escondidas, no fundo, temos de reconhecer-lhe o valor quando o há e criticar mais negativamente quando assim o entendemos. Não podemos toldar a nossa análise pelos clichés, mas também não podemos entrar num caminho de compaixão só porque é português. boa referência este filme.

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    1. Obrigado Carlos, é sem dúvida um filme reocmendável! :)

      Cumprimentos,

      Rui

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