Serenata à Chuva (Singin' in the Rain)


«Serenata à Chuva» é um dos filmes da minha infância, e o único musical de que gosto verdadeiramente. E só ontem consegui perceber o porquê de tanta gente adorar esta fita fantástica e de tantos cinéfilos a colocarem nas listas mais conceituadas (e sempre muito subjetivas) que versam sobre "os melhores filmes de todos os tempos". E percebi que tinha um preconceito em relação a este filme brilhante, apesar de gostar tanto do mesmo: nunca pensei que pudesse considerá-lo excelente, por se tratar de um musical. Mas ontem à noite percebi que estava errado: revisionei o filme, atentamente, deixando-me deliciar por cada momento, por cada cena, por cada coreografia de Gene Kelly e companhia, pela brilhante combinação entre o melhor da música e o melhor do Cinema, em suma, pela "fantasticularidade" de «Serenata à Chuva». É um filme que deve ser visto desde que somos pequenos, e que tem a particularidade de se tornar cada vez melhor. É impossível não se ficar maravilhado, pelo menos, pelo sumptuoso espetáculo musical e visual que o filme possui, e que influenciou tantos realizadores e artistas por esse mundo fora. E Hollywood produziu dezenas, talvez centenas de musicais na dita era "doirada" do género (desde que surgiram os filmes sonoros até, pelo menos, aos finais da década de 50 e princípios da década de 60). Mas porque é que «Serenata à Chuva» é o único musical que me agrada, perante a vasta panóplia de escolhas que o género dispõe aos cinéfilos (e nisto incluo também todos os - poucos - musicais que foram feitos nas décadas seguintes, em Hollywood e fora dessa indústria)? Por uma razão muito simples: é porque este é um filme que, mesmo que seja dirigido a uma época específica e a um tipo de espectadores e de lucro que a indústria americana conseguia atrair naquela era com uma maior facilidade (veja-se que, um ano antes de «Singin' in the Rain», Gene Kelly já tinha visto as luzes da ribalta com outro musical - hoje, menos popular - com o nome de «Um Americano em Paris», que saiu triunfante dos Prémios da Academia), conseguiu ser intemporal. E apesar de algumas pequenas coisas que se tornaram ultrapassadas pelo tempo e muito visíveis (alguns erros notórios de continuidade da câmara, por exemplo), conseguimos ver como «Serenata à Chuva» continua a ser um filme irresistível, explosivamente divertido, e que permanece com o poder de atrair cinéfilos que o colocam no topo dos melhores, ao lado de fitas que nada têm a ver com este musical, como «2001: Odisseia no Espaço» e «Apocalypse Now». E também porque «Serenata à Chuva» não é só um filme brilhante em termos técnicos, visuais, musicais e narrativos: é porque também consegue ser uma crítica inteligente, subtil, irónica e refinada ao próprio Cinema, através de uma visão pouco explícita, mas muito bem engendrada, dos "loucos anos 20" em Hollywood (e que, em muitos pontos, é exatamente igual ao estado da indústria no ano de 1952, quando este filme estreou). E daí é preciso ver «Serenata à Chuva» mais do que uma vez, em várias etapas da nossa vida. Até porque não é sacrifício nenhum: este deve ser um dos filmes mais bonitos e agradáveis de se ver que conheço. Mas apesar de ser todo "bonitinho" e ter tantas coisas que criticamos em Hollywood, «Serenata à Chuva» destaca-se por ser original e irreverente, e por também ser um filme que aproveita todas as potencialidades do Cinema para ser uma Grande fita, e não como muitos musicais que se limitam a, apenas, serem uma "playlist" de músicas sem ligação entre si e que têm umas imagens para ilustrar, como se se tratassem de um teledisco em longa-metragem. Acho que este é mesmo o único musical, de todos os que vi e que "papei" durante muitos anos, que me entusiasma verdadeiramente e que me faz mesmo ver como a música e as imagens nunca foram tão bem conjugadas num musical, nem nunca voltarão a ser, como em «Serenata à Chuva»!

Gene Kelly tornou uma noite chuvosa numa bela oportunidade para criar um fantástico momento musical.
Em «Serenata à Chuva» conhecemos Don Lockwood (Gene Kelly, uma estrela famosíssima da década de 20 do cinema mudo norte-americano (sim, aquele tipo de filmes que permitia estar num estúdio e fazer três ou quatro ao mesmo tempo, com toda a gente a falar - e onde os atores com uma má voz se poderiam safar graças ao poder da imagem, sem som, algo que a sua parceira Lina Lamont, que possui uma voz de autêntica cana rachada, aproveita como ninguém) e que depois se vê confrontado com a entrada do sonoro e do impacto que o filme «O Cantor de Jazz» causou na indústria de Hollywood. Don é um tipo folião, a típica figura do star-system hollywoodiano, alvo de fãs histéricas, mexericos da imprensa e de grande alarido nas estreias dos seus filmes. É uma pessoa que se mostra sempre contente e feliz (mostrando aquele sorriso meio falso - que só agora consegui verdadeiramente compreender) para poder agradar a toda a gente e não prejudicar a sua prodigiosa fama. Ao seu lado está sempre o amigo Cosmo Brown (Donald O' Connor) que, além de ser o seu braço-direito, é a personagem que, para mim, mais me diverte rever (o momento musical "Make 'Em Laugh!" é simplesmente imperdível) e, mais adiante, a sua paixão: a estreante Kathy Selden. E com estas três personagens, faz-se em «Serenata à Chuva» uma sátira agradavelmente parva aos exageros de Hollywood (e que, bem vistas as coisas, não deixa de ser irónico, dado que este filme é todo um exagero - no bom sentido do termo - em termos técnicos e visuais - o filme consegue ser uma crítica ao exagero utilizando a mais "pura" exuberância como "arma"), ao sucesso imprevisível que qualquer um pode encontrar, de um momento para o outro, em Hollywood (e que tão rapidamente o adquire como rapidamente o perde para sempre...) e às incertezas e pessimismos que muitos tinham na altura com a entrada das novidades trazidas pelo sonoro (tal como os múltiplos problemas de adaptação ao novo sistema cinematográfico, para além das gaffes que se podem suceder numa projeção de cinema e numa antestreia), com o auxílio de músicas, danças, piadas (os vários trocadilhos dos diálogos das personagens - e que passam tão ao lado da tradução portuguesa - são geniais) e "timings" narrativos e coreográficos que ainda hoje são inultrapassáveis. Acho que é quase impossível alguém não se deixar levar pelo ritmo divertido de momentos como o da música "Moses Suposes", ou mesmo a cena em que Kelly canta a música que dá título ao filme e que é, com certeza, o momento mais icónico e lembrado do mesmo. «Serenata à Chuva» é de uma alegria contagiante, e é mesmo um dos poucos musicais (ou mesmo o único) que consegue agradar a várias gerações e que não ficou parado no tempo. É um dos filmes de maior culto dos americanos (e que está profundamente enraizado na cultura popular desse povo), uma fita que passa regularmente nas televisões do país (tal como, por exemplo, «Do Céu Caiu Uma Estrela» e «O Feiticeiro de Oz») e que delicia cada vez mais cinéfilos pela sua frescura, vivacidade e "cinemacidade". É um filme onde tudo é pretexto para se tornar música, tanto gestos como palavras e expressões. E nunca o sorriso saiu do meu rosto enquanto revia «Serenata à Chuva».


«Serenata à Chuva» aproveita todas as qualidades da música, da magia do Cinema e das potencialidades das artes de palco da melhor maneira, criando uma história, um grupo de personagens e uma sequência narrativa que fará inveja a muita gente que queira fazer filmes de alegado "entretenimento". É um filme que faz também um estudo sobre os gostos, sempre relativos, do público, e que apesar de querer agradar à "sua" época e de ter alguns ingredientes para, hoje em dia, se tornar datado, chato e aborrecido, conseguiu tornar-se uma referência que será eternamente homenageada e prestigiada no mundo do Cinema, por não ser datado, nem chato, nem aborrecido. É impossível uma pessoa ficar entediada com toda a energia que o filme nos transmite e todos os sentimentos que o fazem ser uma fita tão apreciada e acarinhada. É um filme tão irreal, mas real ao mesmo tempo, pela proximidade com que nos toca e pela arte que emana e que nos faz querer saltar da cadeira e desejarmos que a nossa vida seria muito mais interessante se fosse um musical como este, onde tudo estaria bem ritmado, coreografado e esquematizado para que cada momento do nosso dia-a-dia se tornasse numa verdadeira obra prima da música e do espetáculo. E, se nos primórdios do Cinema sonoro, para se aproveitar as suas qualidades eram feitos, maioritariamente, filmes com muita música na sua génese e no seu conteúdo, «Serenata à Chuva» acaba por, também, ser um digno aproveitador do som e da arte cinematográfica, criando um espetáculo que é muito maior que a vida e um mundo do qual não nos apetece sair. E o Cinema, tal como toda a arte em geral, tem esse preciso objetivo: ser grandioso e superior em relação às nossas "ridículas" e "miseráveis" vidinhas de "meros mortais" que, por acaso, até andam a circular pelo planeta Terra. E além disso, este filme é quase como um Quentin Tarantino dos musicais: foi buscar elementos a outros filmes anteriores do género (sendo que todas as influências musicais para esta fita e todas as músicas que de outras obras foram retiradas para a execução de «Serenata à Chuva» estão muito bem documentadas e "arquivadas" nas edições em DVD e Blu-ray do filme que a Warner Bros. lançou para o mercado), acabando por ser um tributo aos Grandes musicais (cuja maioria não acabou por continuar a ser tão refrescante e arrebatador como este filme já sexagenário) mas que acaba por se tornar distinto em relação às suas influências e a eternizar-se, ao contrário de muitas das mesmas (talvez no Tarantino não seja tanto assim, em relação a este último assunto - veja-se o exemplo dos westerns spaghetti que o influenciaram para «Django Libertado» - mas acho que devem ter conseguido perceber onde eu queria chegar... espero eu!). Em suma: «Serenata à Chuva» é o melhor musical de todos os tempos, e um dos poucos filmes da era mais "bonitinha" de Hollywood que consegue ultrapassar barreiras de gostos e de opiniões cinéfilas. E se os pessimistas dos "roaring twenties" soubessem que o sonoro acabaria por criar filmes como este, talvez perdessem todo o negativismo em relação à novidade que, então, abalou a História do Cinema. Talvez acabariam por, todos eles, sair da sala de Cinema à espera que chovesse, para poderem imitar Gene Kelly da melhor maneira que conseguissem...

* * * * *

Comentários