Psycho: a arte de liquidar no duche


«Psycho» é um dos filmes mais populares de Alfred Hitchcock, o realizador que continua a conseguir atingir os seus objetivos junto das audiências cinéfilas do mundo: causar arrepios, sustos e tensão, provocar a nossa mente com histórias que, muitas vezes, não são aquilo que estamos a pensar, em suma, agitar a mente e o corpo do espectador, levando-o a não assistir, de uma forma passiva e desinteressada, ao que se está a passar no ecrã. E não sendo o filme mais ousado de Hitchcock, «Psycho» continua hoje a ser alvo de grande estima pelos cinéfilos (apesar de um ou outro pormenor que não conseguiu manter a frescura com o passar dos anos), por não só ter marcado os primórdios de uma nova fase do Cinema Americano, ansioso para se abrir a novas tendências e narrativas, que se viria a suceder alguns anos mais tarde, como também por ter sido uma obra que quebrou muitos tabus e algumas restrições no ano de 1960 (quando estreou nas salas), quando o público foi apanhado de surpresa por esta história de horror, suspense e, e isto não é menos importante, família. Contado de uma maneira invulgar, filmado com técnicas inovadoras que desafiam ainda mais a narrativa e, mais do que tudo, elaborado com um orçamento muito reduzido (basta dizer que Hitchcock teve de usar grande parte da equipa da sua série de TV «Alfred Hitchcock Presents», onde fazia aquelas caricatas introduções - e da qual realizou alguns episódios - para fazer este filme), os muitos estúdios que recusaram realizar «Psycho» por terem considerado ser um projeto demasiado arriscado (mesmo que Hitchcock tenha tido, no filme que realizou antes deste, «Intriga Internacional», um dos seus maiores êxitos do box-office americano) devem ter comido os seus próprios chapéus (como se fossem o Patacôncio, de todas as vezes que perdeu nas suas disputas com o Tio Patinhas - desta referência há duas coisas a reter, e por isso faço aqui um pequeno aparte: não, acho que não houve uma única vez em que o Patacôncio tenha saído vencedor, e por isso imagino como deve estar aquele estômago, e sim, é interessante pensar que todos os magnatas de Hollywood são Tios Patinhas que gostam de nadar em dinheiro, ou coisa do género) quando viram o esmagador e explosivo sucesso que a fita obteve. Muito por "culpa" da inteligente estratégia de marketing que foi utilizada para promover «Psycho», é certo, mas não foi só por isso: os americanos quiseram ver um filme inovador na sua cinematografia, sem deixar de ser, no literal sentido do termo, um blockbuster. E encontraram isso mesmo em «Psycho».

A morte mais desprevenida - e com certeza, mais imitada - da História do Cinema.
«Psycho» não é tanto um filme de conteúdo (apesar de ter uma história com uma carga psicológica inacreditavelmente funcional e perfeita, mesmo para os moldes das narrativas de hoje em dia, onde tudo o que é histórias de assassínios, mistérios e psicopatas anda por todas as fações do entretenimento popular - veja-se as milhentas séries de televisão que, diariamente, lidam com casos enigmáticos, e muitas vezes, tão clichés, que levaram a este tipo de assuntos se banalizar muito), mas sim uma obra onde toda a forma tem tudo para ser admirada e "venerada": Hitchcock consegue fazer, mais uma vez, de cada pormenorzinho inutilzinho e insignificantezinho, um grande momento de Cinema e um precioso achado cinéfilo. Isto é comum na obra de Hitchcock porque o Mestre era, além de um ferrenho perfeccionista, um cineasta atento a tudo o que a câmara teria de captar em cada cena do filme e em cada plano, escolhendo sempre os ângulos certos para o momento certo, sem ser convencional. É impressionante como ainda hoje consegue ser inovador, mesmo naquelas coisas onde todos já o tentaram imitar e/ou superar, o que mostra como «Psycho» é ainda um filme fresco e com muito para dar aos espectadores que não conhecem a obra de Hitchcock. E apesar de, pelo senso comum (pela imensidão de spoilers que a opinião pública gosta de injetar nos consumidores de cultura, sobre as grandes obras primas da Humanidade), termos já uma ideia de quem é o assassino de «Psycho», fica a questão no ar de "porquê?". E só por isso, o filme continua algo chocante e provocador. O momento em que ficamos a saber de tudo é curto, incisivo, e com a música num volume ainda mais elevado (mais uma extraordinária banda sonora de Bernard Herrmann que, como dizia o próprio - e muito bem -, ficou responsável por grande parte da qualidade de cada obra de Hitchcock que "musicou", e não podemos esquecer também mais um excelente trabalho de Saul Bass nos créditos iniciais), que faz com que ocorram diversas conclusões na nossa mente e, aí, percebemos como não estávamos nada à espera que tudo acabasse da maneira como acabou. E mais não digo, porque quando falo demais caio na tendência de estragar surpresas às outras pessoas. Aliás, «Psycho» fala por si, e já se disse (e continua-se a dizer) tanto sobre ele (e há coisas tão boas que se encontram pela internet sobre esta fita), que escuso de acrescentar mais alguma coisa a esta crítica. Apenas afirmo que há muito suspense, que o filme continua a ter impacto e a ser uma obra de referência nos géneros thriller e terror (mesmo que considerem as cenas das mortes ultrapassadas ou não - porque «Psycho» tem muito mais do que a cultura popular nos transmite sobre o filme), e que é uma fita que cresce com o espectador, uma narrativa que reinventou conceitos e que continua a ser novo e inovador. Hitchcock é um dos Grandes Génios da História do Cinema, e em «Psycho» teve uma das suas proezas mais simples, mas grandiosas em termos de eficácia, de Arte, e de Cinema. E este filme é a prova de que, com muito esforço e dedicação, se pode fazer, do pouco que se tem, algo que ultrapassa os limites de "enormidade" que impomos na nossa consciência. Um clássico.

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