sábado, 29 de junho de 2013

L.A. Confidencial [1997]


«L.A. Confidencial» tem um início repleto de ironia, um retrato da cidade de Los Angeles, de todo o misticismo que a rodeia e das verdades incómodas que esconde, que será uma chave essencial para se compreender toda a ação que se seguirá, com as peripécias vividas pelos três polícias protagonistas da narrativa, baseada no livro homónimo de James Ellroy (que, felizmente, se torna mais interessante graças ao ritmo dado à adaptação cinematográfica realizada por Curtis Hanson). Bud White (Russel Crowe), Ed Exley (Guy Pierce) e Jack Vincennes (Kevin Spacey) acabam por se envolver num esquema que tem poucas respostas para lhe dar, e só os faz questionar ainda mais sobre todas as coisas que o rodeiam na cidade do jogo, do álcool e da droga (um mundo "fofocamente" investigado pelo jornalista da revista de escândalos "Hush-Hush", Sid Hudgens - Danny DeVito), onde se movem estrelas de cinema e de televisão (que, à época do filme - o princípio dos anos 50 - estava a dar os primeiros passos) que auxiliam, através dos filmes e das séries em que participam, a transmitir essa imagem paradisíaca e de sonho a que muita gente associa Los Angeles. Mas nunca se deve julgar o livro pela capa, e «L.A. Confidencial» é um perfeito exemplo disso mesmo, acentuando-se mais o lado obscuro da cidade e as múltiplas verdades que a publicidade não pretende divulgar para o seu próprio bem. E tudo isto mostrado num filme com um ritmo imparável e que filma a época retratada de uma forma pormenorizada e meticulosa e que não perde um único frame com inutilidades narrativas (ao contrário do livro...). Esta fita conseguiu "ressuscitar" o género policial e, em parte, o "film noir" tão exemplar e único dos anos 40 e 50, trazendo algumas características que, noutras épocas, tornaram os filmes deste tipo tão interessantes e originais, adaptando-os a um Cinema mais moderno mas que não peca por falta de inteligência cinematográfica, apesar de tantas "tecnologias", sendo um perfeito exemplo de que os americanos ainda têm muito para dar e para executar grandes filmes de crime como só esse país sabe fazer.


Os três polícias de «L.A. Confidencial» são completamente distintos (Ed é um lambe-botas que só pretende subir de posto à custa da denúncia dos seus colegas, Jack é um pseudo-herói polícia para a empresa, uma imagem de lenda construída pelas reportagens de Sid Hudgens, e Bud é um agente obcecado com casos de violência doméstica devido a traumas do passado), mas acabam por complementar-se e a colocarem as divergências de parte para conseguirem por os pratos limpos em relação a um estranho caso que envolveu um massacre num café, onde um dos seus colegas da polícia foi abatido impiedosamente (e tinha acabado de sair do seu cargo, devido a um mau "comportamento" ao longo dos últimos tempos em que esteve na profissão). A pouco e pouco, perceberão que tudo aquilo tem mais do que se lhe diga, e que as conclusões que foram tiradas e que levaram a que o caso fosse arquivado não conseguiram dar uma resposta totalmente clara dos acontecimentos. Droga, prostituição e corrupção acabam por ser alguns dos ingredientes da investigação de Bud, Jack e Vincennes, e no final tudo se resolverá. Mas as dúvidas em relação a Los Angeles e a visão paradisíaca da cidade, perpetuada pelos media, é que não irão dissipar-se tão facilmente... «L.A. Confidencial» é um grande filme, irónico, sarcástico consigo próprio (algo que os estúdios americanos nunca gostaram muito de apostar, nos filmes que produzem), repleto de grandes cenas, de grandes diálogos e de grandes atores, onde os equívocos e a complexidade do mundo da polícia e da investigação é retratado de uma forma fiel e arrebatadora, num estilo que, em parte, me fez recordar o genial «Tudo Bons Rapazes», a máfia vista pela visão de Martin Scorsese. De uma forma constante, faz-se uma antítese entre o aparente glamour de Los Angeles e de toda a violência que cerca a cidade (violência essa que, em alguns casos, é causada para a criação desse dito glamour). Aqui se faz um retrato da América de fachada, terra dos sonhos que, apesar de ter muitos defeitos, não conseguimos deixar de associar à ideia de "sonhos concretizados", onde achamos que tudo é possível e onde podemos ser uma estrela de um momento para o outro (mas muitas vezes, a escalada para a fama é feita através de processos muito duvidosos, como o filme nos mostra em determinados momentos). O filme vira do avesso toda essa ideia bonita que temos de L.A. e da própria América, acabando por tornar-se num retrato auto-crítico da própria América e das diversas incongruências e injustiças que "fazem parte" do país. Com muita tensão (em parte, proporcionada pela "hiperatividade" da câmara) e repleto de suspense, «L.A. Confidencial» lança várias questões, sendo que duas delas, as que me interessou mais, foram: Devemos ou não ceder ao "sistema"? Será que se deve manter limpinha uma imagem de perfeição, embora isso possa trazer muitas coisas tão más ou piores do que se essa imagem fosse apagada? Este é cinema totalmente comercial, obviamente, mas não é por ter de viver do "box-office" que um filme perca a sua qualidade e a sua excelência. E no caso de «L.A. Confidencial», isso são coisas que não lhe faltam.

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2 comentários:

  1. Tenho de rever este filme, acho que não o apreciei correctamente da primeira vez que o vi, pois não causou grande impacto em mim, tirando algumas cenas. Certo é que tem um grande elenco. Abraço

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    1. São gostos! :) Mas vale muito a pena este filme. Um Abraço!

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