segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ingmar Bergman e as Máscaras desta vida


«A Máscara», um dos mais icónicos filmes do realizador sueco Ingmar Bergman, pode ser descrito, em muito poucas palavras, como um pesadelo visual. E porque é tão bom? Por isso mesmo, por ser um filme que pega em tudo o que já temos estabelecido, mistura tudo como se fosse uma grande sopa, e acaba por criar algo de completamente diferente, inesperado e, em certa medida, inovador. Em «A Máscara», não se conta a história de uma maneira habitual, não se filma a narrativa de uma forma mais tradicional, e até as emoções das personagens acabam por ser captadas de uma outra maneira, uma forma rara mas mais intensa que poucos realizadores utilizam para irem ao lado mais profundo das "performances" do seu elenco e para as tornarem ainda mais sensacionais. Tudo isso é possível neste pequeno-Grande filme, nesta obra prima cinematográfica e que é um dos títulos mais controversos da vasta, versátil e extraordinária filmografia do senhor Bergman, que num ambiente de desorientação e dúvida constante, consegue tornar esta experiência cinematográfica em algo totalmente arrasador.. E que, como muitos dos grandes filmes da cultura mundial, tem de ser visto mais do que uma vez. E cada revisionamento de um filme com o calibre de «A Máscara» vale pela descoberta de muitos filmes novos que por aí andam e que não possuem nem um centésimo da imaginação, da irreverência e do "choque" que tem esta obra...

O realizador Ingmar Bergman no set das filmagens de «A Máscara» com as atrizes Bibi  Andersson e Liv Ullmann
O início de «A Máscara» é inesperado, estranho e controverso, mas que acaba por ter um grande significado (isto se for analisado com calma). Não nos prepara em nada para o que vamos ver de seguida, para toda a história que se irá desenrolar entre as duas personagens principais. E ainda bem que «A Máscara» não nos diz nada a princípio, sobre a sua história e a sua trama, porque depois toda a narrativa e as situações que esta dupla tão extraordinária de personagens vivem, são impossíveis de prever tal qual Ingmar Bergman as pretende descrever. Somos confrontados com duas mulheres, totalmente diferentes a todos os níveis: Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), uma atriz que, devido a um esgotamento em palco, perdeu a capacidade de falar, e Alma (Bibi Andersson), a enfermeira que vai acompanhar o processo de "terapia" a que a primeira é submetida, sendo para o efeito levar para uma calma e tranquila casa de campo. Mas a tranquilidade desse local não limita os estranhos acontecimentos que por lá se façam, e nisto quero dizer nomeadamente a relação cada vez mais profunda e complexa que acaba por se moldar entre Elisabeth e Alma. A primeira torna-se uma confidente da segunda, contando-lhe todos os pormenores da sua vida privada (incluindo os mais sórdidos e... privados) e partindo para desabafos cada vez mais intensos  e socialmente pouco aceitáveis, ficando Elisabeth com o encargo de, apenas, escutar e a acenar de vez em quando com a cabeça, em sinal de compreensão. Contudo, uma história simples como aparenta ser «A Máscara» acaba por se tornar num dilema cinematográfico e moral sobre algumas das mais importantes (e problemáticas) questões que envolvam a existência humana. Além de que, às tantas, já nem conseguimos perceber quem é que está a cuidar de quem, e quem é que é verdadeiramente "doente" naquela situação. E mais ainda: será que Elisabeth e Alma são quem aparentam ser na realidade, ou tudo aquilo não passa de uma permanente máscara que as duas utilizam para se poderem afastar das más memórias, das experiências negativas do passado e da melancolia da vida? «A Máscara» é, então, o confronto de duas personalidades que chocam uma com a outra, mais as suas maneiras de pensar, sentir e viver o mundo de que fazem parte. E a câmara de Bergman capta, de uma forma tão extraordinária, pesada (no bom sentido) e violenta as reações das duas personagens, das conversas que têm uma com a outra e das coisas que vão descobrindo sobre si próprias, que faz com que «A Máscara» seja um daqueles pequenos achados da arte cinematográfica que valem mesmo mais que mil palavras. E a história de Elisabeth e Alma acaba por se tornar um alerta para todos nós, espectadores, que seguimos atentamente os passos que ambas as mulheres dão ao longo da fita, e que nos fazem corrigir os pensamentos que pré-estabelecemos sobre as mesmas durante certas partes e certas cenas do filme. A história de Bergman, complexa e "complicada", acaba por nos fazer questionar se, afinal, a questão das máscaras não está mais perto de nós do que gostariamos de admitir no nosso quotidiano...


«A Máscara» e a poderosa mente cinematográfica de Ingmar Bergman abriram novas portas no mundo sempre possível de refrescar e de renovar que é o do Cinema. É um filme muito mais experimental do que outros clássicos do realizador (como por exemplo «O Sétimo Selo» e «Saraband»), mas que é uma obra intemporal de um Mestre que se destacou no tão disperso Cinema Europeu pela sua visão original da vida e dos hábitos do ser humano, algo que agradou e continua a agradar a cinéfilos de todo o planeta. Quando acabei de o ver fiquei como que "aterrorizado" por aquela luz que surgiu na minha grande "escuridão" cultural. E penso que vou rever esta fantástica fita muitas vezes nos próximos anos, porque fiquei a sentir que só consegui perceber uma pequena parte do seu odor de excelência. E tal como os grandes filmes, que nos "obrigam", por gosto ou por simples curiosidade, a revisitá-los muito pouco tempo depois da sua descoberta, com «A Máscara» irá suceder-se exatamente a mesma coisa. É um filme que, com o passar dos anos, vou entender melhor (ou espero que isso aconteça!), porque quero e porque anseio descobrir todos os porquês que inundam esta narrativa e que me deixaram uma impressão tão forte na mente, na escrita e no sentimento. Este é mesmo um filme verdadeiramente singular da História do Cinema, que só muito bem mastigado (como um bom bife da vazia - e desculpem esta péssima comparação) é que será mesmo bem aproveitado. Fantástico!

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