quarta-feira, 26 de junho de 2013

Cinco Dias, Cinco Noites [1996]


Adaptação do romance homónimo da autoria de Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal, o líder histórico do Partido Comunista Português), «Cinco Dias, Cinco Noites» é uma história social passada no tempo do Estado Novo (mais precisamente, no ano de 1949, no Norte de Portugal) e que, apesar das conotações políticas do seu criador, não chega a tornar-se "politizada" e adequada apenas a uma facção do parlamento. A obra fala, muito resumidamente, da forma como André (Paulo Pires), um indivíduo que fugiu da prisão e que é por isso procurado, de forma incansável, pela PIDE, é conduzido por Lambaça (Vítor Norte), um fulano da pior espécie e criminoso profissional (e que tem um sotaque bastante peculiar), para a fronteira de Espanha, de maneira a conseguir despistar os seus perseguidores e a ter uma oportunidade para continuar a sua vida noutro país e com outro passaporte (e, por isso, com outra identidade). Trata-se de um dos maiores sucessos do Cinema Português, realizado por José Fonseca e Costa (o cineasta de, por exemplo, «Kilas, o Mau da Fita» e da adaptação do romance de José Cardoso Pires «Balada da Praia dos Cães», protagonizada pelo magnífico e icónico Raul Solnado) e que foi muito apreciado pelo Mestre (para muitos) Manoel Oliveira, que destacou a simplicidade e a candura raras que o filme possui. Com uma brilhante banda sonora de António Pinho Vargas e um sólido argumento (é também digna de nota a forma como o som foi tratado - todas as falas das personagens são percetíveis ao ouvido humano), «Cinco Dias, Cinco Noites» não é um caso raro no Cinema Português pela temática que aborda (filmes sobre o Estado Novo, a Censura e a repressão são incontáveis), mas tem alguma "especificidade" pela forma como o tema é tratado, de uma maneira muito realista, apesar de grande parte de toda a história ser ficcional. De destacar, além disto, é o retrato da época, que é feito com elevado número de detalhes, fisicos e sociais, mostrando como os hábitos e costumes da população portuguesa de 1949 eram ainda muito atrasados e tradicionais, tal como queria António de Oliveira Salazar, mas não se cai, apesar disso, nalgum exagero político: os contras do Estado Novo estão lá, tal qual como a realidade os mostrava, num país pequeno e que, perante o Mundo, proclamava, com toda a convicção (ou pelo menos, o seu líder) estar "orgulhosamente só".


Em «Cinco Dias, Cinco Noites» são confrontadas essas duas personagens tão distintas, que protagonizam a narrativa. São muitos os conflitos que André e Lambaça têm um com o outro, em relação à viagem e ao tempo que esta está a demorar,  mas a pouco e pouco, no meio das inúmeras discussões (que revelam, por vezes, uma grande hostilidade e desconfiança por parte de André, impaciente para chegar à fronteira), estabelece-se entre os dois homens uma relação de amizade (algo que a publicidade ao filme pretendeu sublinhar com mais ênfase - faz com que o mesmo se pareça com um melodrama típico do Cinema Americano -, apesar desse não ser o aspeto central da fita, porque a  relação não é aprofundada, nem tem de ser, porque não é isso o essencial) que ultrapassará as barreiras da política e da clandestinidade (ai que bonito cliché!). E assim se resume, em poucas palavras, o que é «Cinco Noites, Cinco Filmes», um filme agradável, correto e nada pretensioso, que se limita a expor aquilo que tem de filmar, sem caminhar por rodeios e ideias que possam quebrar o ritmo da narrativa. Com uma bela fotografia, propícia a captar da melhor forma as bonitas paisagens e ambientes por onde os dois passam, captam-se os pormenores que rodeiam a dupla de viajantes e que fazem um dos pontos de maior interesse de «Cinco Dias, Cinco Noites». Vítor Norte tem aqui uma boa interpretação (ao lado de um interessante Paulo Pires - na sua estreia no grande ecrã), mas destacam-se também os inúmeros atores secundários que, na sua maioria, tiveram aqui fortes performances em momentos cinematográficos memoráveis. O exemplo maior que eu posso dar é o do Grande Canto e Castro, que tem um dos melhores momentos de acting do filme, e mesmo sendo uma das muitas personagens pequenas, com pouca duração na obra, não deixa de ser bastante interessante e simbólico de toda uma época, representada por diversas personagens com hábitos e costumes distintos umas das outras. É preciso também dizer que neste filme não existem, contudo, personagens caricaturais, não há os bons nem os maus, como costuma acontecer em ficções mais enfabuladas sobre o Estado Novo («Capitães de Abril» de Maria de Medeiros é disso exemplo), querendo José Fonseca e Costa, através da ficção criada por Cunhal, dar uma perspetiva abrangente e mais realista do tempo do Estado Novo, sem fazer com que a obra perca alguma da sua grande simplicidade, e que a torna ainda mais atrativa. Não se tratando de uma obra de maior destaque no Cinema Português, «Cinco Dias, Cinco Noites» é o exemplo de como com pouco se pode fazer bom Cinema, aproveitando todos os recursos disponíveis e não querendo alcançar feitos impossíveis e que destoam completamente com a narrativa que está a ser trabalhada. E com este filme, e com as personagens de André e Lambaça, ganha-se alguma esperança, no sentido de que o Cinema ainda gosta de retratar a humanidade das suas personagens...

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