sexta-feira, 14 de junho de 2013

Cafuné: tropelias do secretário da amiga da aia da rainha


Mário Zambujal não se pode livrar da «Crónica dos Bons Malandros». Foi o primeiro romance que escreveu e é, entre os que li, o que mais aprecio («Dama de Espadas» está muito perto da excelência, ficando em honroso segundo lugar), e mesmo na apresentação de «Cafuné», o seu novo livro e que, desta vez, mete alguns factos históricos lá pelo meio (se bem que, em dois ou três casos, parecem ser inseridos de uma maneira um pouco forçada), é referido que Rodrigo Favinhas Mendes, o protagonista da narrativa passada durante os problemáticos anos da Revolução Francesa e da fuga da Corte Portuguesa para Terras de Vera Cruz, é "um bom malandro". É este o fado de Zambujal: não se conseguir livrar dos seus Malandros. E que ele lhes agradeça muito bem, porque é a essa magnífica história que deve muito do seu reconhecimento literário nacional (e que, digamos, é bem merecido).

Em «Cafuné», li uma história menor da autoria de Zambujal, que sai beneficiada pelo tom muito irónico e hilariante que o autor utiliza para descrever as situações que Rodrigo e o frei Urbino (ou melhor, ex-frei Urbino), o seu fiel companheiro,  vivem nas ruas de Lisboa (e não só!), comparando, em alguns pormenores, com a atualidade da escrita do livro (algo que já tinha também notado muito em «Uma Noite Não São Dias», uma narrativa algo futurista, passada no "esquisito ano de 2044"). No fundo, a história de «Cafuné» fala das deambulações amorosas de Rodrigo e das notas que Urbino aponta, todos os dias, no seu diário. Contudo, a história não é muito original nem surpreendente, não conseguindo ser mais do que um simples romance de cordel, salpicado com momentos (relevantes) a nível histórico e os tais apontamentos cómicos e sarcásticos do autor, que, ao que parece, foi afinando o seu humor com a idade. É um livro que se lê muito bem, embora não seja isso que torne um livro bom ou mau. Mas no caso de «Cafuné», isso pode ser reconsiderado, pelo simples facto que, apesar de ter uma história tão simples e que poderia ser reduzida a muito menos, Mário Zambujal consegue a proeza de ir enchendo chouriços sem nos entediar e descobrindo pequenos pormenores e ridicularidades de cada episódios das desventuras deste duo, e também de outras personagens, mais secundárias.

Vale a pena ler «Cafuné» para quem, como eu, devore todo o livro o que tenha Mário Zambujal na capa. Pequeno em qualidade mas relevante em termos de humor e de ironia (e tanto que nós, portugueses, nos precisamos de rir neste momento), este livro pode não ser tão original, em termos criativos, do que outras obras do autor, mas vale também por Zambujal ter decidido pegar num período tão decisivo da nossa História e ter sabido retratá-lo tão bem, com muita documentação detalhada que torna os factos descritos menos "fictícios", e que é tão bem misturada com a menor ficção e com as interessantes personagens criadas pela mente deste "bom malandro". Vale a pena.

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