Alice: realidades no cinema português


- Mas porque é que repetes sempre os mesmos movimentos?
- Parece-me que, se quebrar as rotinas, nunca mais a volto a ver.
- Mas e se ela estiver fora de Lisboa? Mesmo fora do país?
- As pessoas não desaparecem no ar. Mais tarde ou mais cedo ela vai passar pelas mesmas ruas e eu vou estar lá. Que é que queres que eu faça? Não posso desistir, não é?

Muitos afirmam que o Cinema não deve possuir, como ponto de principal importância, a história ou os atores que a interpretam. Contudo, se assim fosse, o ser humano ficaria privado de contemplar muitas das grandes maravilhas, nesses dois setores, que auxiliaram a que a arte cinematográfica proporcionasse ao Mundo desde o ano em que foi criada, iniciada graças aos experimentalismos de alguns pioneiros que encontraram, nas imagens em movimento, uma nova forma de expressão que marcou a humanidade e todo o século XX. E também, assim não existiriam obras primas modernas (ou se existissem, não teriam o mesmo poder e a mesma excelência como as conhecemos), como este «Alice», esta brilhante primeira longa-metragem realizada pelo português Marco Martins. Porque apesar dos tempos terem mudado, a fórmula continua a mesma, podendo ainda ser renovada e inovadora. E se assim não fosse, talvez este filme, com o qual fiquei bastante impressionado, nunca teria sido elaborada. Porque é no argumento, muito inspirado no caso verídico de um desaparecimento de uma criança em Portugal (o do Rui Pedro) como também de outras tragédias semelhantes, e nos extraordinários atores que compõem o elenco da fita, que se encontram os dois principais motores desta obra. E se isso é mau? Muito pelo contrário: apesar de todas as grandes teorias que possam ser feitas sobre a importância/não-importância de atores e argumento nos filmes, é indissociável a influência que estes têm para as fitas, tanto para o bem como para o mal. E, em todos os aspetos, «Alice» é, para mim, um filme que acerta, numa obra que é uma profunda, trágica e triste história dramática sobre como os Pais reagem ao desaparecimento de um dos seus filhos e de como tudo isso altera o percurso das suas vidas, mesmo nas coisas mais pequenas que perfazem o nosso quotidiano. É impossível não nos sentirmos tocados por «Alice» porque nela não há sentimentalismos propositados ou truques de câmara que são utilizados para o melodrama, porque basta termos a visão melancólica, depressiva e que muitos fados tão bem cantam, da cidade de Lisboa, e entrarmos em contacto com a história de Mário, da sua relação com a mulher Luísa (magnífica Beatriz Batarda) e a sua obsessão em busca do paradeiro de Alice, a sua filha desaparecida na capital portuguesa há 193 dias. E cada novo dia que passa torna-se ainda mais preocupante para este Pai, que não desiste por nada do seu objetivo, e que vê em qualquer possível pista uma razão para não perder a esperança, e que sabe que, em algum dia, em alguma hora e em algum lugar de Lisboa, ela voltará a desaparecer. Só não sabe é quando e onde, mas no fim, saberemos se todo aquele esforço diário, que o filme nos mostra de uma forma meticulosa, serviu, afinal, para Mário reencontrar Alice.

Nuno Lopes é Mário, um Pai que não desiste de procurar a sua filha Alice.
«Alice» é, mais do que um testemunho vivo sobre o que acontece aos Pais de uma criança depois de saberem que a mesma desapareceu, a forma como a tragédia muda as suas vidas, o seu estado de espírito e a sua forma de ser enquanto casal. A excelente banda sonora de Bernardo Sassetti (que tinha umas opiniões sobre Cinema muito interessantes - procurem na internet por algumas das últimas entrevistas que lhe foram feitas antes do seu falecimento) condiz a 100% com a atmosfera "fadesca" e melancólica que o filme nos apresenta, retratando uma história trágica que se confunde com a multidão (onde cada um tem também as suas atribulações, os seus problemas e os seus medos), um rebanho de ovelhas que parece ser um só, sem que cada um dos indivíduos que a representa tenha qualquer valor. Mário (que é brilhantemente interpretado por Nuno Lopes, com um olhar perturbador e um acting muito bem composto, é talvez o ator que mais vezes venceu os Globos de Ouro portugueses - em «Alice» conquistou o primeiro galardão da sua carreira, o mais recente foi com o seu desempenho em «As Linhas de Wellington») é, além de Pai angustiado, um ator de teatro. Várias vezes o vemos, no meio do seu quotidiano onde segue, todos os dias, os mesmos passos que foram dados, precisamente, no dia em que Alice desapareceu, a exercer a sua profissão. O modo como a filha desaparecida o afeta no trabalho (nalgumas vezes a sua "persona" em palco mostra mudanças em várias sessões da peça) é apenas um dos vários reflexos que a tragédia tem na vida desta personagem. A sua procura obsessiva leva-o a entrar num esquema de voyeurismo constante, visto que instala diversas cãmaras de filmar nos pontos da cidade onde a filha passou nesse dia, e que, apesar de algumas das pessoas que consegue convencer a ajudá-lo lhe dizem para desistir, ele nunca lhes dá ouvidos. Acumula cassetes e cassetes de gravações que visiona todas as noites, para descobrir algum pormenor que o leve a encontrar o rasto da filha. Além dos atores, do argumento e da forma real e muito próxima como nos é feito este paralelo entre ficção e realidade «Alice» é, na minha opinião, um grande filme por outras razões: há que destacar também a bela cinematografia, que dá à cidade de Lisboa aquela frieza característica que é associada ao povo português (mas, particularmente, ao da capital). Os diálogos são quase como conversas mundanas, improvisadas, que fazem tão parte do nosso dia a dia que nem precisariam de estar escritas, que ganham por se restringirem à realidade, sem necessitarem de recorrer a qualquer tipo de acessórios. A realização de Marco Martins é segura, bem executada e montada, que nos faz pensar como o cinema do meio (como dizia o Vicente Alves do Ó na entrevista que lhe fiz para o programa) é importante em Portugal: o Cinema pode e deve abordar diversas realidades, reais ou imaginárias, e todas as tendências e as perspetivas de cada cineasta. Contudo, são necessários mais filmes assim, como «Alice», mais uma lufada de ar fresco nas fitas portuguesas por ter tocado o Mundo pela sua rara sensibilidade (pelo menos, é uma sensibilidade que já pouco se encontra nos filmes dos últimos anos) e pelas temáticas que são retratadas. Porque afinal, casos como o de «Alice» podem estar mais próximos do que imaginamos.

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Comentários

  1. Olá Rui,

    podeis-me dizer onde vistes este filme?
    sou adepto, fanático e louco por cinema português! (há quem diga que nasci aqui)

    Continuai com este louvável desempenho, aqui no blogue :)
    eheh

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    1. Olá Anónimo, obrigado pelo comentário e pelo apoio! :)

      A maioria dos filmes que tenho visto são em suporte DVD, original. O «Alice» foi um desses casos. Trouxe o DVD da Biblioteca.

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    2. Ora, de nada!
      Hmm obrigado pela informação!

      Já agora, como conseguiste tantos seguidores? Partilhaste o teu blogue onde?

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    3. De nada!

      Em alguns fóruns, e também no facebook. E o prémio que ganhei com um artigo em dezembro também ajudou! :)

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    4. Fóruns? Podeis-me enviar alguns?
      E parabéns por esse prémio

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  2. Obrigado! :)

    Tens aqui ao lado direito do blog, na zona "Olha! Eu estou espalhado pela internet", os sítios onde ponho coisas.

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