Tabu: no período áureo do moderno cinema português


«Tabu» é um dos filmes portugueses mais badalados dos últimos anos no mundo inteiro. E ainda bem, porque isto só mostra que o cinema português tem muito para dar e vender e pode trazer muitos consumidores estrangeiros a descobrirem a sétima arte na língua de Camões. A obra de Miguel Gomes (realizador de «Aquele Querido Mês de Agosto) andou em diversos festivais de cinema do planeta, saindo vencedor em duas categorias do certame da "Berlinale". O merecimento ou não-merecimento destes prémios é algo totalmente subjetivo, dependendo dos nossos gostos e daquilo que gostamos de ver em Cinema. Mas tenho a dizer que fiquei agradavelmente surpreendido por este «Tabu». Tem um bom argumento, inteligente e sedutor (que por vezes possa pecar por alguma incoerência ou "literatura" nos seus diálogos, o que faz com que perca um pouco a sua energia e a sua cinefilia - mais aquele início, que me pareceu mal executado e, mesmo, um pouco ridículo - dava uma ótima "cena eliminada" nos extras do DVD) que junta três personagens (Aurora, uma senhora de idade que se sente arrependida dos erros que cometeu no passado, Santa, a empregada que cuida de Aurora, e Pilar, uma vizinha que se preocupa com Aurora e que é uma "feroz" ativista de causas sociais) e a história de vida de uma delas, aproveitando para homenagear a arte cinematográfica. «Tabu» é um filme que tem duas partes: a primeira, no presente, junta o trio e as atribulações mentais e físicas que Aurora sente por começar a estar debilitada e pela solidão em que se encontra; a segunda trata-se de uma viagem ao passado de Aurora, contada por Ventura, um antigo conhecido da senhora e que vai explicar a Santa e a Pilar o tempo em que a conheceu, em África, nos tempos atribulados do Estado Novo, não existindo diálogos, apenas a narração de Ventura, sendo que acompanhamos os sentimentos das personagens através dos seus gestos e expressões ao bom jeito (não pantomineiro) do Cinema Mudo - o que reforça o estilo diferente que Miguel Gomes dá a este seu filme, que aproveita também para dar a conhecer alguns costumes da cultura africana e filmar, brilhantemente, as magníficas paisagens que as redondezas do Monte Tabu, onde vivem Aurora, Ventura e tantos outros, proporcionam a quem quiser visitar. 


Assim, e também por outras coisas que só vendo a fita é que podem ser explicadas, «Tabu» é um filme sobre os portugueses e sobre a humanidade e a História gigante que o nosso povo possui, apesar da nossa pequenez em relação ao resto do Mundo. Não é um filme de patriotismos, mas sim uma história que nos leva, através do exemplo de todas as personagens, com mentalidades e vivências distintas, a entender como somos um povo com coisas interessantes a serem exploradas e divulgadas (e que, por isso, deveriam ser sujeitas a muitos outros bons filmes nacionais...). Portugal é um grande país, nas coisas boas e nas coisas más, e com todas as críticas que há para serem feitas, temos de conhecê-lo bem para encontrarmos razão naquilo que pretendemos criticar (e há muita coisa para ser mal-dita, é verdade...). Em «Tabu» são também dissecados algumas problemáticas que tanto preocupam os seres humanos na atualidade, como sempre foram preocupantes em todas as gerações e continuarão a ser no futuro: o amor, o confronto crença VS descrença, a cada vez maior globalização do mundo (mas que, ao mesmo tempo, sente mais um afastamento entre todos os indivíduos e uma perda acentuada da comunicação entre as pessoas), e tantas outras coisas. Há um certo desequilíbrio na história e nos atores (alguns são muito bons, outros não passam do nível mediano), mas «Tabu» consegue ser um bom filme, diferente do que Portugal costuma ver no seu Cinema (que - e ainda bem! - não é só Oliveira) e que, sendo arriscado, atraiu a atenção de muitos espectadores à volta do Globo. Está longe de ser um filme perfeito, mas comparando com muitos projetos que têm aparecido a nível nacional nos últimos anos, «Tabu» é dos poucos que arriscam fazer a diferença sem se perder demasiado em "extremismos" intelectuais ou exageros "mainstream". «Tabu» mostra Portugal e os portugueses a preto e branco, num filme mágico, misterioso e com muitas histórias para contar aos que as quiserem descobrir. É uma grande pérola.

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