Regresso à Laranja Mecânica


«Laranja Mecânica», um dos filmes a pertencer, sem dúvida, ao meu top 10. Um filme que gosto mais e percebo melhor de cada vez que o revisito. Uma obra prima da História do Cinema e, para mim, o melhor filme (entre os que vi) de Stanley Kubrick. Voltei a vê-lo no final da semana passada. Cada vez compreendo melhor a forte mensagem social e cultural que Kubrick (e o autor do livro que inspirou a história e atribulações de Alex, Anthony Burgess) pretenderam transmitir com toda a narrativa e com os avanços e recuos que se sucedem na vida sádica, estrondosa e, para ele, divertida, do protagonista, cuja forma de vestir voltou a tornar "cool" o uso do chapéu de coco. Ah, e com «Laranja Mecânica» a adorável música que Gene Kelly entoou em «Serenata À Chuva» tornou-se símbolo de más memórias e de traumas noturnos para muitos. Mas lá está, o filme não se trata de um retrato sem nexo e inconsequente de um grupo de miúdos violentos e com divertimentos pouco usuais (e tão bem que se adequa tanto à sociedade de 1971 como à de 2013...), que será a ideia com que muitos ficarão se virem apenas metade do filme, mas sim de uma grande reflexão sobre a forma como encaramos a violência, a manipulação que cada um de nós pode estar sujeito pelo que nos rodeia (o que pode pôr em causa o nosso livre-arbítrio), e de como a educação e o meio são importantes na nossa forma de ser. Contudo, não acho que é só por isso que Alex é uma personagem tão estranha e tão complexa (para mim, um dos mais icónicos protagonistas do Cinema), porque, lá está, temos liberdade de escolha para algumas coisas apesar de todos os condicionalismos. Mas podemos escolher ser um "druco" que gosta de agredir mendigos e assaltar casas localizadas no meio de nenhures, ou então uma das pessoas que tenta resolver esse tipo de situações. Mas que não queiram por aí utilizar o método Ludovico para encontrarem uma solução para a banalização da violência do nosso mundo, está bem? Porque, como «Laranja Mecânica» nos mostra, não é só no bando de Alex que está presente a maldade do ser humano... por vezes o maquiavelismo pode ser feito a partir de pequenas palavras, gestos e ações que, aparentemente, querem ser "amigáveis" e inofensivas... E aí ficamos com um dilema: estamos no lado de quem? Da personagem de Alex, da qual ficamos com pena quando o vemos a ser submetido ao tratamento para ficar "bom" e aos acontecimentos que se sucedem em consequência disso, ou da classe política e científica que pretende, à custa desta sua cobaia, arranjar meios para alcançar os seus interesses pessoais e que pouco dizem respeito ao bem-comum? Ninguém é santo em «Laranja Mecânica»...


Se me pedissem para mencionar um único filme que, a meu ver, todo o jovem deste mundo (e dos outros) deveria ver antes de passar à idade adulta (um tema que, um dia destes, gostava de trabalhar de uma forma mais "académica"), eu não hesitaria duas vezes: seria mesmo «Laranja Mecânica» a minha escolha. Podem muitos ficar traumatizados pela violência, mais psicológica do que física, do universo cinematográfico de Kubrick, auxiliado pela escrita de Burgess, e pesadelos poderão surgir nas noites das mentes mais sensíveis ao choque visual que o filme proporciona. Mas «Laranja Mecânica» é importante para se perceber o papel que cada um de nós pode ter na sociedade, tanto no bom como no mau sentido do termo. Podemos fazer parte de um gangue que se impõe no meio dos mais fracos e que os domina, como também temos a opção de integrar a classe política que tão poucas vezes olha para o que verdadeiramente interessa na vida dos cidadãos que neles votaram. Mas existem muitas opções, e «Laranja Mecânica» é bom para se perceber cada uma delas. Além de ser uma grande lição de vida (e de Cinema!) exposta de uma maneira pouco usual, chocante e ainda tão provocadora (mesmo tendo mais de quarenta anos de existência, o que é obra e o que mostra a genialidade do Master Kubrick!). Alex não é um exemplo para a Humanidade (apesar de, na altura em que o filme estreou, houve quem pensasse que sim - e o próprio Kubrick viu a sua vida e a sua família ser verdadeira e perigosamente ameaçada), mas uma amostra do que aquilo que nós, seres humanos, somos capazes de fazer, dos limites a que podemos chegar se quisermos ser como estes "drucos", comandados pelo seu "guru" a fazerem algumas das maiores atrocidades com que os media nos presenteiam todos os dias nos noticiários, e que mostram como a ficção do filme está, afinal, tão perto da nossa realidade. Mas, sejamos sinceros, Alex é dos anti-heróis mais carismáticos que alguma vez passaram pelo ecrã de Cinema (e veja-se o seu gosto musical refinado pela obra de Ludwig Van Beethoven - e principalmente por "aquela" Nona Sinfonia). E o facto do filme conseguir passar por tantas gerações e continuar a ser novo, fresco, chocante e perturbador, não é para qualquer um. Porque o Bom Cinema é feito de filmes que mudam o Mundo, de diferentes formas - umas mais arrasadoras e polémicas, como o caso de «Laranja Mecânica» (como diz uma interveniente de um documentário dos extras da edição DVD do filme, nem todos os filmes podem ser «Do Céu Caiu uma Estrela»...) - e que nos alertam para o que nos rodeia mesmo que se tratem da maior das "ilusões". E poucos filmes na História do Cinema conseguiram ter o poder, a energia, a irreverência e o divertimento de «Laranja Mecânica». Um Clássico Absoluto.

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Comentários

  1. Excelente texto, Rui, sobre um dos meus filmes preferidos. Como bem dizes, "Ninguém é santo em «Laranja Mecânica»" e Alex é verdadeiramente inesquecível, com tudo o que é e simboliza.

    Cumprimentos cinéfilos.

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