Rebecca: o reconhecimento de Hitchcock por Hollywood


Rebecca, a mulher que dá título ao filme homónimo de Alfred Hitchcock, o primeiro (e único) da longa filmografia do cineasta (que conta com mais de seis dezenas de títulos) a ser premiado com o Oscar da Academia para Melhor Filme (e que, com esse reconhecimento, catapultou-o para as lides cinematográficas de Hollywood, o que o levou a fazer grande parte das obras primas que tantas vezes são hoje referenciadas), é uma das personagens mais misteriosas que já integrou as tramas impressionantes, empolgantes e, por vezes, aterrorizantes, que compõem o universo do Mestre do Suspense. Contudo, Rebecca tem uma vantagem sobre todas as grandes personagens hitchcockianas das outras (muitas) lendárias obras do realizador (como é o caso do detetive "Scottie" Ferguson e da misteriosa Madeleine Elster, pela qual o primeiro fica obcecado, em «Vertigo», ou o do fotógrafo voyeur de «A Janela Indiscreta» ou ainda até o perturbado Norman Bates de «Psycho» - são muitas grandes personagens e estas apenas são três exemplos): é que ela é uma peça fundamental para a narrativa e para o ambiente do filme, não precisando, contudo, de alguma vez aparecer no mesmo. Rebecca está morta desde o princípio da trama (e isto não é nenhum spoiler, atenção), só que a sua influência é ainda tão grande na vida do marido viúvo Maxim de Winter (Laurence Olivier numa interpretação notável) e no quotidiano dos empregados que trabalham na sua enorme e misteriosa mansão, que é impossível deixar de pensar como, talvez, Rebecca continue muito viva em todo aquele ambiente. Talvez a sua presença seja ainda mais notória e profunda naquela altura do que quando ainda estava viva... É neste ambiente que entra a segunda mulher de Maxim (Joan Fontaine), nova e algo ingénua, e que vai entrar num mundo que é totalmente diferente do que a sua vida a habituou a conhecer: fora de grandes luxos e de "boas" companhias. Contudo, ela vai percebendo (e sobretudo graças ao ambiente estranho e algo caótico da casa de Maxim e aos estranhos comportamentos que uma das criadas, Mrs Danvers, tem em relação a ela e à sua presença naquela mansão que tem ainda a chama de Rebecca muito presente) como o seu marido tem uma obsessão ainda forte (e por vezes, algo paranóica) por Rebecca, e que as razões do seu desaparecimento estão longe de estarem bem explicadas. Ou aliás, será que ficamos mesmo a saber a verdade, a forma como tudo realmente aconteceu, tudo o que levou a que Rebecca se fosse deste mundo?


Em «Rebecca», além de nos perguntarmos porque é que a dita senhora continua a ser tão importante e traumática para aquele mundo, questionamos com ainda mais persistência, quem é, realmente, Maxim de Winter. Porque tal como com as razões da morte de Rebecca, o filme também não nos dá uma ideia exata de quem é este homem. Ou pelo menos, para mim, não deu. Fiquei a duvidar dele até ao final do filme, e talvez tenha ficado muita coisa por responder. Mas consegui ver como Maxim é um homem amargurado, triste e desejoso de refazer a sua vida (social e amorosa), e encontra na sua nova esposa um novo e bom motivo para acreditar na sua própria "ressurreição" (aliás, se ambos não se tivessem conhecido na mesma hora e no mesmo local onde tudo aconteceu, muita coisa teria mudado - e talvez houvesse mais uma morte à mistura, neste caso um total suicídio, e aqui não haveria qualquer dúvida). Tem uma atitude algo cínica e muito british, o que dá origem ao pedido de casamento mais "original" de todos os tempos, pelo menos em cinema (que é, nada mais nada menos, do que algo como "estou a pedi-la em casamento sua burra!"). Maxim é uma personagem invulgar, que levanta muitas suspeitas pelos avanços e recuos "mentais" que faz, e pelas diversas contradições que elabora nas conversas que tem com as outras personagens. Por exemplo, ele conta uma versão dos factos à mulher, mas no final a história "verídica" é outra completamente diferente da que ele tinha contado originalmente. Maxim é um indivíduo obcecado, paranóico e inseguro, e que, ironicamente, é o tipo de personagem que tanto fez as delícias de Hitchcock (que, atenção, também gostava muito de psicopatas e de personagens ingénuas e que, volta não volta, acabam por perder toda a sua criancice com os sarilhos em que se metem - e talvez a segunda Mrs de Winter seja um caso que mostra muito bem isto) e que também encaixa nas preferências de muitos cinéfilos que buscam uma maior profundidade e humanidade nas personagens cinematográficas. Hitchcock consegue isso nos seus filmes, e em «Rebecca» em particular. Com pequenas cenas que mostram situações vulgares do dia a dia, ao mesmo tempo que as mistura com o drama e o mistério que já não se enquadra bem nos limites da vulgaridade, «Rebecca» faz o que achávamos ser real e um dado adquirido dar, constantemente, várias voltas atrás e à frente. Por vezes deixamos mesmo de acreditar no que estamos a ver (e, então, quando já se conhece alguns dos filmes do Mestre, constrói-se um certo faro detetivesco, diria mesmo...) e Hitchcock transforma «Rebecca» num filme genial por isso, mas também pelos atores e pelos planos de câmara e as pequenas subtilezas que nos contam (há um pormenor que achei bastante curioso e engraçado: quando a senhora para a qual Mrs de Winter trabalha como dama de companhia - isto antes de casar com Maxim e, por isso de "ganhar" esse apelido - apaga o cigarro que estava a fumar num frasco com creme, provavelmente por descuido). «Rebecca» é, para muitos, o melhor filme de Alfred Hitchcock. Como não conheço (ainda) toda a obra do realizador, não posso estar a afirmar esses grandes (e sempre tão subjetivos) argumentos. Mas que este filme tem qualquer coisa de especial para que, com 73 anos, continue a ser tão ou mais impressionante que muito thriller que foi feito nas últimas décadas... é porque talvez essas pessoas têm as suas razões para darem o primeiro lugar do pódio a «Rebecca», que é uma obra excecional, cujo "appeal" não se perdeu, nem uma pitada, até hoje.

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