Porto da Minha Infância: Oliveira e a cidade que o viu nascer


A convite do produtor Paulo Branco (responsável por uma boa parte do cinema português que o Mundo tem conhecido nos últimos anos), e enquadrado na iniciativa do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, Manoel de Oliveira realizou este «Porto da Minha Infância». Uma revisitação a alguns dos lugares mais emblemáticos da capital Invicta em que nasceu o cineasta português mais conceituado do planeta, e às memórias que o realizador guardou de situações, pessoas e eventos que marcaram os primeiros anos da sua vida, hoje centenária e tão emblemática. Com um forte teor nostálgico, saudosista e emocionado, Oliveira adapta as suas memórias, que relata, em voz-off, ao longo dos cinquenta e sete minutos deste quase-documentário, a cenas cinematográficas que dão vida ao que a mente do autor permitiu que ele se recordasse até então sobre os primórdios da sua existência, que tanto mostra a forma como a cidade do Porto mudou (para o bem e para o mal) durante um século. Revisitando o Porto do "antigamente", durante os anos 20 e 30, abordando-se também as primeiras experiências cinematográficas de Oliveira (caso do documentário mudo «Douro, Faina Fluvial» e do seu filme mais bonito e popular «Aniki-Bobó»), «Porto da Minha Infância» mostra como a cultura portuguesa do século XX se confunde com a vida agitada, boémia, luzuosa e cativante do realizador. Contudo, esta viagem ao passado não foi feita da melhor forma possível, sendo que, de Cinema, este filme possui muito pouco. É pena, pois todo o material, todo o conceito historico-social que o filme poderia ter tido, além de uma vertente mais lúdica e melhor construída que poderia aproximar melhor a fita das pessoas, não foi aproveitado. Esta obra dá uma certa sensação de pouco interesse também da parte de Oliveira, que não teve muito cuidado nem delicadeza em tornar as suas memórias num grande trabalho cinematográfico. É pena.


Cruzando filmagens reais que Oliveira captou muitos anos antes, em sítios, para ele, icónicos do Porto como a casa onde nasceu (que o cineasta filmou, em ruínas, para poder preservar uma memória visual daquele "baú" recheado de tão grandes e boas recordações), e filmagens atuais que recriam situações que ficaram bem vivas na memória do realizador (como a cena de uma peça no Teatro Sá da Bandeira, as conversas que tinha com os amigos boémios, e as saídas noturnas), o filme pretende homenagear o Porto, se bem que de uma forma que não aproveita as potencialidades oferecidas pelos lugares por onde a cãmara passa, tal como das situações apresentadas. Em «Porto da Minha Infância», fica-se com a sensação que, apesar do filme ter apenas cinquenta e sete minutos, poderia ter uma duração muito menor. Os planos estáticos em ângulos não muito favoráveis aos monumentos e locais portuenses que são referidos, tal como um escasso aproveitamento do que a voz-off de Oliveira nos "ensina" através das suas memórias, sem que a imagem, muitas vezes, o acompanhe devidamente, não ajuda a realçar muito o pensamento que Oliveira tinha em pequeno, os costumes e tradições de tempos mais antigos, e a constante comparação que o cineasta faz entre o passado e o presente da época em que foi feito este filme. Mas não deixa de ser interessante como o realizador conjuga o Cinema e a Arquitetura, duas das suas grandes paixões, neste filme que passa depressa e deixa um gostinho a pouco. É o retrato do estrato social a que Oliveira pertencia em jovem, membro de uma das famílias mais ricas do Porto em princípios do século XX. Mas como documentário pouco ou nada serve, sendo mais a perspetiva do autor e o seu historial de vida, tal como os primeiros anos de vida do Cinema Português (o pioneiro - e imitador dos irmãos Lumière - Aurélio Paz dos Reis é profundamente mencionado), que me puxou um maior interesse em ver «Porto da Minha Infância» até ao fim. Existe muita confusão com o que Oliveira relata, não se sabendo bem, afinal, qual é o seu objetivo com toda esta recolha de memórias. Mas no fundo, talvez Oliveira queira apenas mostrar como, apesar de todas as mudanças (tanto para um lado mais positivo como para um mais negativo) que a cidade sofreu , o Porto continua a ser a "sua" cidade, que marcou também grande parte da sua vida.

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