O Estranho Caso de Angélica


Aprendi a respeitar Manoel de Oliveira mesmo que não seja um particular apreciador dos seus trabalhos. Se agora olhar para as coisas que disse sobre o centenário realizador há uns anos, no blog, sei que hoje isso não passam de infantilidades sem qualquer tipo de argumentação (isto é, excetuando que «Cristóvão Colombo - O Enigma» continua a ser um dos piores filmes que vi na minha vida) e que apenas se pode julgar um artista pelo seu trabalho quando se é conhecedor do mesmo. E por isso, ultimamente, tenho feito algumas incursões no cinema de Oliveira. Duas críticas feitas, falta-me apenas fazer a de «O Estranho Caso de Angélica», um filme muito recente que é a penúltima longa-metragem realizada, até agora, por Manoel de Oliveira, para completar a fornada tripla de fitas do realizador que vi nos últimos dias. Este não foi o último visto (mas sim «Porto da Minha Infância»), mas acho que só agora é que consigo escrever qualquer coisa de jeito sobre ele. Vamos lá a ver o que sai daqui...


«O Estranho Caso de Angélica» é uma pequena obra cinematográfica, que talvez seja demasiado longa mesmo assim. No entanto, apesar dos planos longos e estáticos que caracterizam o Cinema de Oliveira, há ação, há narrativa, nos mesmos. Há coisas a acontecer no pequeno universo nortenho aqui criado pelo cineasta, num argumento que tinha escrito há mais de cinquenta anos mas que só recentemente conseguiu adaptar ao grande ecrã. A história, sobre um fotógrafo, Isaac, que fica obcecado por uma das suas fotografadas (a enigmática - e falecida - Angélica) cria um certo ambiente de mistério em volta da personagem e das suas verdadeiras intenções. Contudo, o argumento centra-se na atualidade, o que acaba por "danificá-lo" um pouco - os diálogos de Oliveira têm muitas marcas de um português que, hoje em dia, já não se usa, assim como muitas expressões proferidas pelas personagens que soam algo "ocas" e desprovidas de sentido por causa disso mesmo. Não teria sido melhor que a história de Isaac e Angélica tivesse sido filmada numa fita de época, onde todas essas características da narrativa conseguiriam ser muito melhor aceites (e, ainda melhor, realçavam o realismo da fita, pelo menos, pela maneira como, no "antigamente" - e nisto digo anos 40/50 - se faziam filmes em Portugal - olho para «Angélica» e lembro-me das comédias populares da "época de ouro" pela maneira de falar das personagens. Só que essas comédias, que Oliveira tanto critica, foram feitas na altura apropriada, e não foram adaptadas para o "agora"...)? Ou, pondo a questão de outra maneira, Oliveira nem chegou a rever o seu argumento? Bastou-lhe tirar dos arquivos e pumba!, dá-lo aos atores para o decorarem? Muita gente gosta de dizer que no Cinema não é importante a história, mas num filme como este em que tudo se apoia na narrativa (e não é que se apoia mesmo?), as falhas da mesma são essenciais para estragar todo o conjunto. Mas talvez (e isto é apenas uma suposição), e fazendo uma teoria mais "intelectual" (não gosto desta expressão, nem do seu significado, mas uso-a agora para tentarem perceber o que pretende metaforizar) do objetivo de Oliveira, é que isto pretende simbolizar como a tradição do passado persiste no presente, ou que o passado ainda é presente. Isso vê-se bem em cenas como aquela em que Isaac vai ver e fotografar os agricultores a trabalharem a terra à moda antiga, artesanal, que hoje em dia caiu em completo desuso. Mas não quero entrar em conspirações, continuemos mas é a analisar a fita, e apontemos as coisas boas (e mais uma ou outra má) porque ainda há muito para dizer sobre a mesma.


O ator Ricardo Trêpa, neto de Manoel de Oliveira e presença habitual dos seus mais recentes filmes (tanto como protagonista, tanto como em interpretações mais secundárias) é, de facto, muito parecido com Oliveira. Aqui até tem uma boa e relevante interpretação, muito fora do que estamos habituados a vê-lo fazer (como no caso do deplorável - e volto a citar - «Cristóvão Colombo - O Enigma»), conseguindo transmitir os sentimentos da personagem Isaac de uma maneira que muito apreciei. Talvez Isaac seja um alter-ego de Oliveira mas, como afirmei há pouco, não volto a entrar em teorias! «O Estranho Caso de Angélica» possui também uma realização limpa, sóbria e bem conduzida de Oliveira, com uma fotografia muito bonita e uma banda sonora que, apesar de por vezes roçar o descontextualizado/desnecessário, tem grandes momentos, muito graças à virtuosidade da performance da ilustríssima Maria João Pires (destaco a "theme tune" do filme - uma verdadeira delícia). O filme é insuportável para muitos (algo que eu compreendo perfeitamente), mas por acaso não tive de preparar grandes doses de "paciência" para ver este filme, ao contrário de «Porto da Minha Infância», por exemplo. Porque me interessei pela história do filme e por todo o seu interessante ambiente. Oliveira parece ter sempre premissas excelentes para os seus filmes (algo que, muitas vezes, acaba por não ser realmente aproveitado), mas este foi um dos poucos casos, dos que conheço, onde houve até um aproveitamento considerável do "material" fornecido pela narrativa e pelos ambientes onde a história se situa, mas que, mesmo assim, ainda necessitaria de uns grandes e essenciais acertos, porque a rica ideia de Oliveira poderia ter sido concebida de uma maneira melhor. Para terminar, destaco apenas a fraca direção, no geral, dos atores do filme (talvez depende dos gostos, mas muitos dizem que os atores de Oliveira são muito "teatrais"... só que neste filme, na maioria dos atores, se houve uma coisa que não me ocorreu ao ver as suas performances foi a palavra "teatro" - é uma outra visão do cinema, tudo bem. Mas que não está semelhante ao teatro, que felizmente, é uma arte que conheço suficientemente bem, disso não tenho dúvidas. O problema (e agora pretendo pegar num estigma que se criou, criticado entre os que não gostam de Oliveira porque não viram os seus filmes, e usado por alguns que gostam mas que não arranjam argumentos próprios para defender a sua opinião) é que o Cinema de Oliveira não é para pessoas mais ou menos inteligentes. Sei que filmes como «O Estranho Caso de Angélica» tocaram melhor, e de uma forma mais profunda, noutras pessoas com gostos distintos do meu. Para mim, é um filme interessante, uma obra merecedora de visionamento e que marca pela originalidade da sua história geral. Mas é assim tão difícil para Oliveira pegar numa história como esta, que tem tantas ligações ao povo português e que, decerto, muitos gostariam de ver no grande ecrã, e torná-lo num filme direcionado a um "nicho" cinematográfico um pouco mais vasto?

* * * 1/2

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