O Comboio Apitou Três Vezes (High Noon)


Arriscaste a vida para apanhar uns bandidos e depois um júri liberta-os para eles voltarem e te matarem. Se fores honesto, arruínas a tua vida. E acabas morto e abandonado num beco qualquer. Para quê? Para nada, por uma estrela de prata.


«O Comboio Apitou Três Vezes» (e não vou perder tempo com a idiotice da tradução portuguesa do título) é um western invulgar dentro do panorama americano dos anos 50, ainda dominado por uma onda mais "certinha" de narrativas menos arriscadas, menos ousadas e com um teor mais repetitivo (salvo algumas importantes exceções) que inundavam muitos filmes de um género cinematográfico que, na época, era uma autêntica indústria dentro da indústria. Mas o filme de Fred Zinnemann, protagonizado por Gary Cooper (que levou o Oscar para casa pela personagem central do filme, o xerife à beira da "reforma" Will Kane) veio "revolucionar", em parte, o método de se contar o far-west no grande ecrã, puxando numa história onde o herói perde a heroicidade (não sendo um Deus omnipotente, que salva o dia - tal como a América quer dar a ideia que "salva" o resto do planeta constantemente), arriscando-se, sozinho, contra os bandidos que, algum tempo antes, tinha prendido, sem receber qualquer tipo de ajuda de alguma pessoa da cidade onde pertence (e da qual estava de partida, a princípio, após o casório com Amy - a bonita Grace Kelly). O resultado foi um filme que mudou a América e que propiciou a feitura de «Rio Bravo», a resposta conservadora e opositora a «High Noon» pelo realizador Howard Hawks e pelo ator John Wayne (que acusou o filme de Zinnemann de ser uma crítica ao McCarthyismo - na altura a política estava em tudo e mais alguma coisa, mesmo numa história de coboiada - ou de aparente coboiada, porque o essencial de «High Noon» não é isso). Ah, e este é o filme de Bill Clinton, vá-se lá saber porquê. Mas colocando todas estas informações irrevelantes de lado, há que admitir que «High Noon» é ainda um excelente filme, arriscado e original, onde os bons têm tanta sorte como os maus, e são tão fracos como qualquer um de nós. É um western sobre os males da sociedade como colectivo de pessoas que, muitas vezes, parecem seguir um único pensamento, por receio de serem julgados pelos demais membros da mesma, em deterimento do poder do indivíduo, do que cada um de nós representa e da maneira como a nossa individualidade pode fazer a diferença no meio de tanta igualdade. E isto pode parecer pouco para os nossos dias, mas meus amigos e minhas amigas, abordar temas como estes no princípio dos anos cinquenta nem era assim tão fácil, e «High Noon» faz isso muito bem, e melhor ainda, de uma maneira que ainda hoje faz sentido e que ainda nos alerta seriamente para a nossa importância no coletivo...


O slogan de «High Noon» deve ser das coisas mais apelativas que já li em termos de marketing do Cinema Americano: the story of a man who was to proud to run. É uma frase que resume muito bem toda a história central do filme e todas as convicções de Will Kane, em relação ao que a chegada do comboio do meio-dia vai causar naquela pequena cidade. A maioria dos habitantes da cidade não passam de cobardes que recusam os pedidos insistentes de ajuda que Kane lhes lança, e para melhorar o ambiente que paira naquele local, com toda a gente expectante do que possa acontecer, muitos gostam de lançar palpites e, mesmo, de lançar apostas sobre quem vai matar quem no duelo que, dentro em pouco, se irá desenrolar. Exatamente igual ao que se passa hoje em dia: um único homem pretende fazer frente aos mais fortes, e como ninguém acredita nele, é alvo de chacota e de desprezo pelo resto da população. «High Noon» mostra, portanto, uma posição menos "heróica" e mais humana que é atribuída ao protagonista do Western que, tal como todos nós, é um ser humano, com os seus defeitos e com as suas qualidades, e que é também vulnerável a tudo o que se passa à sua volta. E Will Kane, entre fugir e lutar sozinho, prefere optar pela segunda opção, indiferente aos conselhos e avisos que muitos dos seus amigos (e incluindo a sua esposa) lhe dão. No fim se verá se o seu orgulho deu ou não resultado, e se terá razões para desprezar toda a "preciosa ajuda" que a cidade lhe ofereceu, depois de todo o bem que fez por ela. Mas com «High Noon» se aprende como nos temos de ajudar uns aos outros, sem recorrer à arrogância e a intrigas desnecessárias e perigosas para o bem-estar da sociedade. Mas por vezes, devemos afastar-nos da maioria e, sem qualquer medo, impôr-nos perante os outros, mostrando ter uma atitude diferente dos demais. Mas se não conseguirem ver esta forte mensagem social que o filme (excelentemente realizado por Zinnemann) apresenta, sempre se podem congratular por verem a magnífica interpretação do oscarizado Gary Cooper (destaque especial para o último momento da personagem da fita - sem precisar de dizer nada e com um pequeno gesto, faz um estrondoso momento de acting, pois são estes pequenos momentos que fazem um grande ator) e, ainda, assistirem à estreia no Cinema do ator Lee Van Cleef (o famoso vilão do Western de Sergio Leone «O Bom, o Mau e o Vilão», e de outras "esparguetadas" posteriores), aqui no papel de um dos vilões e que não pronuncia nem uma palavra durante toda a fita.


«High Noon» é também um filme político: lançado em plena era do McCarthyismo, o filme foi visto, tal qual a visão que John Wayne retirou da fita, como uma crítica ao sistema da "caça às bruxas" criado pelo senador americano. Nesse ano, o filme perdeu nos Oscares na categoria primordial, segundo muitos, por isso mesmo (acabaria por ganhar o galardão o filme «The Greatest Show on Earth» de Cecil B. DeMille, apoiante de McCarthy), mas a sua energia e a sua influência passaram por todas essas controvérsias. Hoje em dia, «High Noon» é tido como um dos grandes Westerns de todos os tempos, graças à sua abordagem mais humana e, por isso, para sempre mais fresca do que muitos filmes do género feitos na época. Howard Hawks não gostou da forma inovadora e irreverente como as personagens foram tratadas no filme, dizendo que não era assim que gostava de ver um Western. Mas a magnitude do filme passou por todas as críticas (algumas muito mesquinhas e desprovidas de qualquer sentido) que lhe foram feitas ao longo dos anos. Hoje, no século XXI, fora de fanatismos políticos e de qualquer espécie de "perseguição" aos valores da cultura e da sua importância na sociedade em que vivemos, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que este é um filme excecional, que marcou e marcará para sempre a cultura popular e a cultura dos cinéfilos em geral. Porque «High Noon» é um Western pequeno em tamanho, mas Enorme em Cinema.

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