sábado, 4 de maio de 2013

Matrimónio à Italiana


«Matrimónio à Italiana», um filme algo melodramático realizada por Vittorio de Sica (responsável por esse clássico do neorrealismo - e de todo o Cinema no geral - que dá pelo nome de «Ladrões de Bicicletas»), é o retrato de duas pessoas miseráveis em diferentes sentidos do termo (no dinheiro, na inteligência, e na vida social - estes são os três pontos que ambas as personagens principais se contrariam por serem muito diferentes uma da outra). É uma história dramática, com um toque de comédia ao bom estilo italiano, sobre a relação duradoura, mas sempre pouco amistosa e muito conflituosa, entre Filomena (a personagem de Sophia Loren) e Domenico (interpretado por Marcello Mastroianni). Eles conheceram-se há algum tempo atrás (um pouco antes da eclosão da II Guerra Mundial) e iniciaram um romance que, no presente do filme, está completamente acabado, com Domenico a querer casar-se com uma moça muito mais nova do que ele, mas com Filomena a tentar tramar o seu antigo namorado para que este não a abandone. Além disso, em «Matrimónio à Italiana» conta-se uma história de segredos, de flashbacks, de memórias do passado (que nos ajudam a entender como mudou o caráter das duas personagens - ou não - ao longo dos anos e de como a relação entre elas se foi deteriorando) que condicionam tanto o presente e a situação destas duas acutilantes personagens, sendo que Filomena se arrepende do que fez em tempos anteriores, e Domenico, aparentemente, rompeu com os acontecimentos que marcaram antes a sua vida. Mas no fim, tudo será revelado, o que pode trazer um desfecho mais ou menos feliz para a trama. Esta é uma história de vida e da vida, com uma grande componente neorrealista (mas um que aqui possui um certo estilo mais teatral e "romance-de-cordel") ao estilo dos «Ladrões» de Sica, que possui cenas algo bonitas e eternecedoras que, para mim, são um dos dois pontos que faz o visionamento deste filme valer a pena (gostei particularmente do momento em que Filomena está com os filhos, em pequenos, e quando os reencontra, quando estão mais crescidos - uma das "subplots" que alimentam esta história muito italiana, mas que bate certo em qualquer região da Europa, e mesmo do Mundo inteiro...), e que têm um timing preciso e que resultam na perfeição (como o caso dos flashbacks - apesar da maneira como se faz a transição entre o presente e o passado ser algo manhosa para os dias de hoje, com aqueles "zooms" exagerados).


A outra coisa que torna «Matrimónio à Italiana» um filme bom para os olhos é contemplar a interpretação e a química formidável entre Loren e Mastroianni, nesta que é apenas uma das várias fitas em que os dois atores contracenaram. Eles perfazem um duo soberbo e que preenche o ecrã e as nossas emoções de uma forma notável e digna mesmo de nota. Estes dois "monstros" (no bom sentido, obviamente) da cinematografia italiana são tão formidáveis que o seu legado continua a persistir na memória (muitas vezes curta) do público e do tempo. Loren ainda faz filmes (como o recente musical «Nove», onde faz uma pequena aparição) e Mastroianni já nos deixou há alguns anos (sendo que o seu último trabalho cinematográfico foi «Viagem ao Princípio do Mundo», um filme de Manoel de Oliveira), mas ficou nas fitas as performances de um histórico par que marca o Cinema Italiano. Fora isso, «Matrimónio à Italiana» é um interessante melodrama, caseiro e muito telenovelesco, com uma história moralista sobre nós próprios e sobre quem nos rodeia. Com o filme, percebemos a razão de Camões em afirmar que "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", mas as muitas incongruências do filme, uma grande insipidez que existe na narrativa e as muitas falhas da realização (com muitos planos e truques de câmara exagerados, que não se adequam nada à história que se pretende relatar) parece que mostram que não houve cuidado em fazer-se esta fita, não se desenrolando uma trama suficiente boa para melhorar toda a conjuntura da obra. Mas a banda sonora até que é bonita, e a humanidade das personagens e dos ambientes em que se deslocam ajuda a ver como a intenção de «Matrimónio à Italiana». Mas sem as presenças de Loren e Mastroianni, talvez nem seria um filme que me tivesse chamado à atenção...

* * * 1/2

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