Disponível para Amar


Já nada que lhe tenha pertencido existe.

Wong Kar-wai já não era um realizador desconhecido no panorama cinematográfico mundial antes de ter mostrado ao Mundo «Disponível para Amar» (o cineasta já tinha dado que falar, anos antes, com «Chungking Express»), mas foi sem dúvida graças a este filme de 2000 que o cineasta deixou de passar despercebido por alguma alminha cinéfila que ande por este planeta. Provavelmente o seu filme mais conceituado, «Disponível para Amar» é um exemplo óbvio de como a forma de um filme pode melhorar o seu conteúdo, ou em certas partes, torna-lo mais secundário (porque, se formos a ver, a história de amor que faz parte de toda a trama da fita não é nada de outro mundo, mas a "arte" consegue levantar o espírito da narrativa de uma maneira surpreendente!). Deve ser esse poder que muita gente vê em filmes como, por exemplo, «A Árvore da Vida», mas que a mim me escapam por completo. Mas pelo menos, em «Disponível para Amar», consegui perceber a essência do filme, e a química dos dois atores e a sua "relação" com a belíssima fotografia (parece pintura!) e a sublime e magistral realização de Wong Kar-wai (que possui um estilo muito próprio e bem definido, mostrando sobriedade na escolha dos planos e da câmara e na continuidade das cenas, que possuem uma certa lentidão por terem um significado específico: torna-las mais bonitas, algo que também sai reforçado com a fantástica banda sonora do filme). E tudo junto, faz um extraordinário filme, que é uma delícia para os olhos e para os sentidos.
 
 
«Disponível para Amar» é um filme que tem não só uma história romântica, como também faz o retrato social e crítico de uma época e dos seus costumes, que sai beneficiado pelo incrível rigor histórico da narrativa e dos seus ambientes, que nos mostram que a sociedade asiática dos anos 60 não é assim tão diferente da nossa, e quando descobrimos pontos em comum nas duas culturas, essas ocorrências podem fazer-nos rir ou pensar (depende do caso em si). Todos os códigos de conduta das personagens e todo o receio que o "casal" tem de poderem circular boatos sobre eles, sobre a sua relação de que nos apercebemos sem precisarmos de algo muito "gráfico": apenas nos mostram gestos, palavras e olhares entre Su e Chow, e apenas isso é preciso para nos dar a entender o grande sentimento que os começa a unir ao longo do desenrolar do filme. Não é preciso mostrar a relação de uma forma mais íntima. E ambos sabem o que sentem um pelo outro, mas os "rituais" das relações não lhes permitem "abrir-se" logo diretos ao assunto (algo também muito comum hoje em dia - e que nunca mudará, para o bem e para o mal...), mas vão-se aproximando pouco a pouco, de uma forma escondida e sorrateira, sem darem muito nas vistas. E este caso, meio banal, é transformado em espetacularidade graças ao toque de Wong Kar-wai. Em «Disponível para Amar», é tudo tão subjetivo, e tão poético ao mesmo tempo. Pouco nos é dito e mostrado sobre a dupla de personagens protagonistas da fita, o seu passado, as suas convicções, a sua existência, mas o filme faz-nos mesmo assim pensar tanto sobre tudo o que se está a desenrolar, em cada local por onde passamos e que ficamos deslumbrados. É a forma de Kar-wai dar a esta história um certo nível de "transcendentalidade", que nos diz algo e que nos faz sentir qualquer coisa de especial (de uma forma mais forte, para uns, e menos, para outros) e que nos toca pela sua sensibilidade, pela sua humildade e pela sua humanidade. Independentemente da língua, das tradições, dos costumes e do modo de vida de cada um de nós, há pequenas coisas na existência humana que acabam por chocar, em relação a tudo o resto que é completamente diferente. O Amor é uma dessas pequenas coisas, e em «Disponível para Amar», vi um dos poucos e raríssimos casos em que o conceito de "Amor", na sua essência, foi respeitado: que esse sentimento faz-se dos momentos simples e nada espalhafatosos.
 
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