terça-feira, 14 de maio de 2013

Beleza Americana


Muito provavelmente, «Beleza Americana» é um dos mais controversos e polémicos vencedores do Oscar de Melhor Filme na História dos Prémios que a Academia das Artes e das Ciências do Cinema atribui anualmente. E porquê? Porque se trata de um filme atrevido, corrosivo, que ataca a moral e os bons costumes da velha guarda de Hollywood e que não é um filme nada certinho como o são muitos dos vencedores dessa honra do Cinema Americano. Este filme catapultou o realizador Sam Mendes (que agora é um dos cineastas mais conceituados da atualidade - para mim o James Bond começou a ter interesse graças a «Skyfall», o mais recente filme do franchise, realizado por Mendes, e esperam-se mais capítulos com a sua assinatura), que aposta sempre em projetos diferentes, interessantes e com algum toque de "revolucionarismo". Veja-se também essa grande pérola do Cinema Independente que é «Um Lugar para Viver», com John Krasinski e Maya Rudolph, ou então «Caminho Para a Perdição», um filme que adapta muito bem as histórias de gangsters para o século XXI, e assim se comprova, para além do exemplo de «Beleza Americana», o talento e a versatilidade de um excelente realizador. Este oscarizado filme é o retrato de uma América e de uma sociedade em mudança constante, a caminhar para um mundo menos preconceituoso e mais aberto a novas tendências e a novas ideias, apesar de persistir ainda alguma intolerância, expressada por alguns personagens do filme e algumas partes da narrativa. «Beleza Americana» é uma fita com um forte argumento e uma história perturbadora, que nos faz olhar para tudo o que nos rodeia de uma forma mais atenta e menos apressada. É uma obra sobre a nossa própria vida, e a nossa forma de ser. É um filme sobre o interior do ser humano. E faz isso de uma forma tão perfeita que até me causou uns quantos arrepios na espinha...
Lester Burnham (interpretado por Kevin Spacey numa formidável performance) é o típico cidadão americano, insatisfeito com a vida e com todas as coisas vulgares e ridículas que lhe fornecem o dia a dia. A mulher (Annette Bening) e a filha (Thora Birch) detestam-no profundamente, o que faz com que este trio familiar se torne muito, mas muito disfuncional. E para melhorar as coisas, Lester conta-nos, em voz-off e logo no princípio do filme, que dentro de mais ou menos um ano, estará morto. Ele é sincero e diz a verdade na cara das pessoas, e na nossa também, de uma maneira muito cínica e arrogante. Viajamos nas imagens do seu pensamento (e naquelas famosas cenas que envolvem pétalas de rosas...) e com isto tudo, a pergunta persegue-nos durante toda a duração do filme: O que irá acontecer a Lester? Não sabemos. Mas o que o final permite descobrir é surpreendente. «Beleza Americana» mostra os problemas do quotidiano que são vistos, ainda, com algum preconceito visto por parte de algumas pessoas, retratando também ao mesmo tempo as idiotices e a forma, com particularidades muito "utópicas", que os adolescentes têm de pensar a vida e o futuro da sua existência. «Beleza Americana» retrata ainda as diferentes relações entre Pais e filhos que existem, e a forma como lidam os progenitores e as suas "crias". Numa crítica aos exageros da sociedade americana, tão irónica e tão bem escrita  (num argumento que nos mostra várias personagens, com as suas histórias de vida, todas diferentes, mas tão originais e tão irreverentes) que, com a transformação que a personagem de Kevin Spacey "sofre" ao longo do filme, ao decidir mudar a sua vida com pequenas decisões no quotidiano, nos traz uma moral que nos ensina que, se estivermos constantemente à procura da felicidade (esse conceito tão abstrato e que tanta gente procura decifrar), talvez não conseguiremos aperceber-nos verdadeiramente das coisas boas, ou más, que estão à nossa volta. Porque o objetivo, pelo menos, de uma grande parte das personagens de «Beleza Americana», é serem felizes, cada uma à sua maneira. Mas nenhuma o conseguirá, pelo menos é o que parece. Todos desejamos não ser vulgares, mas no fundo, e mesmo que sintamos isso apenas dentro de cada um de nós, acabamos sempre por nos tornarmos em tal. «Beleza Americana» é um filme "estranho" e excelente que, surpreendentemente, triunfou nos Oscares. Mas a força do filme de Sam Mendes não reside no número de estatuetas que conseguiu arrecadar, e sim, na força e na "vida" que a sua narrativa contém.

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