quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Lista de Schindler


Depois de ter colmatado uma de muitas falhas cinéfilas que ainda tenho de corrigir (a lista é interminável) ao visionar, há pouco mais de uma semana, o épico de Steven Spielberg «A Lista de Schindler», consegui perceber o quão complexo este aparentemente simples drama sobre o Holocausto consegue ser: abrange muitas perspetivas, muitas ideias e muitos ideais de vida, sem ter conseguido ser, como muitos afirmam, um filme idiota. Talvez se todos os atores do filme falassem os idiomas originais das personagens que interpretam, a perspetiva com que muitos ficaram desta obra teria sido completamente diferente (às vezes um pormenor ou outro ajuda), e talvez assim menos críticas seriam feitas à americanização da história de Oskar Schindler, motivo para uma série de pessimismos picuinhas sobre a veracidade ou não dos acontecimentos retratados. Mas «A Lista de Schindler» não é um filme qualquer sobre o Holocausto e o impacto de uma das maiores tragédias da História da Humanidade no nosso Mundo: é uma obra de homenagem a uma cultura, da qual Spielberg faz parte, e de memórias de um genocídio que nunca mais deve voltar a acontecer. Deve ser por isto que «A Lista de Schindler» é um dos filmes favoritos do público: pelo rasto de humanidade, sinceridade e verdade que desperta em cada um de nós. Os "maus" são retratados como pessoas tão pouco superiores ou inferiores como qualquer ser humano, sem estereótipos a elas associados (como os que muitos filmes criaram em volta dos nazis ao longo dos anos - esquecem-se que Hitler e companhia eram pessoas com cabeça, o problema é que tinham umas ideias nada favoráveis à paz e à tolerância entre os povos), mostrando mesmo assim as atrocidades em que estiveram envolvidas mas apontando o facto de que elas foram "habituadas" a ver a morte de milhares de judeus como algo normal do seu quotidiano. Possuindo um notável rigor histórico, sendo, em parte, um documentário (tanto pelas legendas explicativas sobre certos momentos da narrativa, tanto pela forma como a ficção é filmada - uma câmara desorientada, sempre móvel, que mostra, pela forma como capta as emoções das personagens, muito do ambiente "proporcionado" pela ideologia nazi) e cuja parte ficcional (baseada numa história verídica, é preciso salientar) toca a qualquer um de nós, de uma maneira séria, inteligente e real, sem necessitar de grandes fenómenos de tecnologia, cujas cenas estão carregadas de grande simbolismo e originalidade (a cena da rapariga vestida de vermelho, por exemplo, disse-me muito mais do que muitos filmes que mostram, de uma forma encenada, as torturas feitas pelos homens de Hitler - e que se trata da possível "tomada de consciência" de Schindler -, como também a cena em que o oficial nazi toca o piano de uma habitação de judeus, enquanto os seus colegas encarregam-se de matar, de uma maneira selvagem, os "inimigos" do povo ariano). Spielberg sabia o que queria filmar e o que queria passar, em forma de testemunho, para as próximas gerações de cinéfilos (e de seres humanos em geral), tal como a forma que queria utilizar para homenagear os seus antepassados e o seu legado histórico. E, na minha opinião, o cineasta conseguiu fazer um grande filme. Tem como base uma tragédia? Sim, é verdade. Mas da tragédia, Spielberg criou poesia. E ninguém disse que isso era proibido - muito pelo contrário.


«A Lista de Schindler» não se foca tanto em relação à lista em si (que não chega a ocupar mais de um terço de toda a narrativa), criada por Oskar Schindler (o protagonista, interpretado por Liam Neeson num grande papel - ao contrário dos filmes mais recentes que tem feito) que conseguiu salvar, graças a ela, mais de um milhar de judeus. Centra-se mais na perspetiva dos judeus (e de alguns em particular, como o caso de Isaac Stern - Ben Kingsley -, que se torna o braço-direito de Schindler), de um membro do Partido Nazi que pouco se interessa pelas coisas em que está envolvido (Schindler), e de um oficial das SS (interpretado pelo grande Ralph Fiennes) com sede de poder e que faz tudo aquilo que lhe apetece. O filme mostra também, de uma forma frenética e preocupante, as maneiras que os judeus planearam para conseguirem sobreviver de todo aquele horror - e a forma como é filmado aproximou-me ainda mais os sentimentos das personagens do filme, admito. Schindler, a princípio, tem a mania das grandezas, despreocupado de toda a situação dramática de que faz parte, e que vive de uma forma boémia, glamourosa e com olhos apenas para a sustentabilidade dos seus negócios. À medida que «A Lista de Schindler» avança, a psicologia da personagem torna-se mais densa e interessante: será que tem mesmo interesse, ao longo da trama, de salvar aqueles judeus, ou apenas os contratou para que o seu esquema empresarial continue a triunfar? Só perto do final é que consegui tirar todas as dúvidas que a personagem me "colocou", e se para uns a personalidade muito variável de Schindler piora o filme, eu achei o contrário: só a torna mais humana. A não ser que alguém diga que manteve sempre a mesma opinião ao longo da vida (eu, por exemplo, ao reler as primeiras patacoadas que escrevi para este blog, há já quatro anos, e comparando ao que escrevo agora, noto que houve uma certa evolução da minha parte. E ainda bem!). Oskar Schindler não é o "salvador" do nazismo, não se trata de nenhum santinho mas sim de, a certa altura, de um homem ressentido que se apercebe o bem que pode fazer e que está ao seu alcance para salvar aquelas pessoas. Houve maiores heróis, muito maiores do que ele, como é o caso do português Aristides de Sousa Mendes. Mas sobre ele não existe um filme magnífico, tal como existe para Schindler.


Espantosamente filmado, «A Lista de Schindler» não parece, em parte, um filme de Steven Spielberg, pelo menos para a ideia habitual, mais "mainstream", que temos do seu Cinema. É um filme com muito de expressionismo alemão e do Cinema clássico americano, que nos ajuda a perceber, graças a uma estética e a um visual cinematográfico menos comum para a nossa época, mais avançada tecnologicamente, como o nosso olhar pode captar e fica mais sensibilizado pelos momentos mais simples, mas mais eficazes, do Cinema. A montagem cria momentos que, combinados entre si, mostram sequências impressionantes ao nível cronológico, fotográfico e fílmico da obra, apresentando-nos uma série de personagens com vidas absolutamente distintas, mas que nos tocam de uma maneira totalmente comum. Haja respeito por este filme! Tantas críticas negativas que algumas pessoas lhe fazem, e que tendem a levar em conta mais pequenos pormenores do que realmente interessa numa fita desta magnitude, porquê? As opiniões são sempre subjetivas mas alguns indivíduos (e volto a referir: alguns) que criticam este filme negativamente este filme, parece que pretendem levar a sua opinação a um estado de objetividade autoritária e algo "repressiva", esquecendo-se que, mesmo que não gostem, o Cinema não se faz só de Godards, Oliveiras e Kiarostamis. Não vale a pena tentarem dar ao Cinema o estatuto de "cultura de nicho", porque não é. Nenhuma arte o é nem nunca será. Porque o público, quando quer, sabe ver uma grande obra por se deixar levar pelo espírito da mesma. E penso que é este o caso de «A Lista de Schindler»: é um filme de espírito, de poesia, de toque e de emoções. É um monumento do Cinema. E ainda por cima, tendo também "aquela" excelente banda sonora...

* * * * *

8 comentários:

  1. As pessoas que deram críticas negativas ao filme, e que se têm fartado de falar mal do filme ao longo dos anos é a pseudo-esquerdalhada que não admite poder haver bom cinema americano. E o filme, sendo sobre o Holocausto, é um alvo fácil.

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    1. Tens razão Ricardo! Vejam mas é o filme! :)

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    2. Zé da Adega5/7/13 06:43

      Menino Ricardo, por respeito ao Rui, na altura, não respondi ao teu comentário ignorante de extrema-direita salazarista-fascista.....

      Mas como mais ninguém meteu ordem no teu comentário...

      Ficas a saber que no Cinema da U.R.S.S. qualquer filme anti-nazismo era bem visto, até esta versão soft Walt Disney do Spielberg. Vai ver o filme soviético "Vem e Vê", se tiveres estômago para tal, e caso não ofenda os teus ideais hitlerianos.

      (Desculpa Rui, mas este palerma merece.)

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    3. Zé, percebo o teu ponto de vista, mas não penso que o Cinema deve ser melhor ou pior pela maior "violência" que tiver. Confesso que ainda não tive estômago suficiente para ver o «Vem e Vê», mas sei que o irei ver, mas se pusermos razões políticas de parte, o que conta mais na «Lista de Schindler» é a intenção de Spielberg, que não precisou de mostrar muito do Holocausto/os horrores dessa tragédia para fazer um filme tão profundo. Mas é só a minha opinião. O Ricardo, penso eu, não quis fazer um comentário de direita salazarista-fascista. Porque se assim fosse teria vindo para aqui criticar o filme e não dizer bem do mesmo. ;)

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  2. Julgo que nenhum ser humano "normal" pode ficar indiferente a este filme tão tocante emocionalmente quanto impressionante. Como todos nós, já vi vários filmes sobre esta triste época mas, sem dúvida, este emocionou-me especialmente. Apesar de já o ter visto há muito tempo, no cinema, lembro-me frequentemente dele. Espero revê-lo em breve. É bom não esquecermos certas fases da história, não tão longínquas assim, mas tão "bárbaras". E como um ser humano pode fazer a diferença! Um belíssimo filme!

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    1. Obrigado Tia! Vale a pena rever, aliás porque tem passado regularmente na televisão (Canal Hollywood)! :)

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  3. Zé da Adega10/5/13 22:41

    Em relação aos screenshots, que só ficam bem, tenho 2 dúvidas:

    1) És tu que os tiras? (suponho que sim, pela escolha)
    2) Porque é que nos outros sítios, não os colocas todos? Eu adoro screenshots, e tendo em conta a polémica gerada sobre a menina de vermelho, no DVD Mania, fazia falta lá essa imagem...

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    1. 1) não sou eu que os tiro, selecciono de pesquisas de imagens que faço no google. Não vejo filmes neste computador...
      2) não ponho nos outros sítios porque não percebo muito dessas coisas dos tamanhos das imagens e afins. Prefiro pôr só aqui! :)

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