segunda-feira, 20 de maio de 2013

Momentos de Glória (Chariots of Fire)


A sequência inicial de «Momentos de Glória» («Chariots of Fire» no original, um título que, numa tradução literal portuguesa, poderia não soar tão bem - a escolha que fizeram até que foi acertada, porque condiz com o filme e a sua história) é, sem dúvida, uma das mais icónicas e populares da História do Cinema, sem que muitos de nós a tenhamos propriamente visto (tal como o facto de sabermos que o Darth Vader é pai do Luke Skywalker sem precisarmos de ter passado a vista pela trilogia original «Star Wars»). Sim, porque é inacreditável a maneira como qualquer pessoa associa a popular banda sonora de Vangelis, criada para esta fita (e que ganhou o Oscar, um dos quatro que o filme arrecadou no princípio dos anos 80) a pessoas a correrem em câmara lenta. Todos temos esta imagem da cabeça, e muitos não sabem mesmo de onde é que ela surgiu. Só que já é uma sequência tão imitada e tão referenciada que talvez se tenha perdido, na cultura popular, a sua origem para a maioria das pessoas. Mas digo que, mesmo se for apenas para descobrir, afinal, onde é que surgiu uma imagem cinematográfica que está tão presente na memória coletiva, vale a pena ver «Momentos de Glória». É um filme bom, talvez um pouco ultrapassado pelo tempo e demasiado "bem comportado" em certos aspetos (daí ter sido laureado pela Academia?), mas cuja banda sonora e todo o legado que esta deixou no mundo do Cinema, e que continua a ser tão influente hoje em dia no mundo dos media (veja-se a paródia que Rowan Atkinson fez com a dita sequência, para a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, que ocorreram no ano passado), fortalece mais um filme que não se consegue destacar muito em todo o resto, pelo menos hoje em dia, vendo de uma perspetiva em que «Momentos de Glória» já tem mais de trinta anos de existência. Talvez o filme tenha sido sociologicamente importante para a época em que estreou e para o impulso que trouxe ao Cinema Britânico daquela altura, mas hoje em dia o impacto inicial de «Momentos de Glória» vive muito mais do poder da sua banda sonora, e de alguns movimentos de câmara utilizados em favor da mesma (outros nem por isso - como por exemplo, aquele estereótipo de começar a conversa numa cena e terminá-la noutra completamente diferente que se lhe segue, como se quisessem dar a ideia de que um dos atores só deu resposta ao outro depois de um tempo quase infindável...).


O filme começa cronologicamente a sua história no ano de 1919, pouco tempo depois do fim da I Guerra Mundial, com a Inglaterra a sofrer muitos dos danos provocados por um dos conflitos mais devastadores do século passado. Com esse cenário dramático como pano de fundo, conhecemos duas pessoas, com diferentes estilos de vida e, mais importante do que isso (pelo menos, para a mensagem que a fita pretende transmitir), duas crenças religiosas distintas: Harold Abrahams é judeu (e sofre um pouco de preconceito dos seus colegas da universidade por causa disso) e Eric Lidell é cristão. «Momentos de Glória» traça, assim, se bem que seja de uma maneira muito mais superficial do que muitos a pintam, o confronto entre duas culturas completamente diferentes, mas que se cruzam devido à competição desportiva e pela paixão que ambos os protagonistas do filme nutrem pelo atletismo, e que afinal, são muito mais semelhantes do que parecem à primeira vista. Não é pela crença que se pode distinguir os seres humanos, mas sim pelas suas habilidades, pelos seus talentos, pela sua vida e pela forma como se agarram aos desafios que a sua existência nos propõe diariamente. No fundo, esta obra acaba por ser mais interessante noutro aspeto: ao ser uma história também sobre a força de vontade, a coragem, a amizade e o companheirismo, coisas que são iguais em todos os seres humanos (e de que todos nós precisamos ao longo da nossa vida) independentemente da etnia, religião, opção política, gosto artístico, etc, «Momentos de Glória» fica com uma grande carga humana e emotiva para sustentar, tornando as corridas em que Abrahams e Lidell disputam (e mesmo as variadas sessões de treino para se prepararem, da melhor forma possível, para os desafios que lhes são apresentados) muito mais interessantes e entusiasmantes para o espectador (algo que é também auxiliado pela, lá está, banda sonora de Vangelis - com ele, correr em câmara lenta tornou-se uma das coisas mais "cool" de todos os tempos). «Momentos de Glória» é, então, mais um filme sobre os atletas e as suas convicções do que um apelo à tolerância e ao diálogo inter-religioso. E ainda bem, porque nesse campo acaba por se sair de uma maneira muito agradável. O filme possui um bom argumento, apesar de a história não mostrar, em certas partes, uma boa consistência ou um desenvolvimento adequado para se tornar mais interessante, e algumas interessantes interpretações do elenco (destacam-se os dois atores que assumem o papel de protagonistas da trama) desta fita que nos mostra como, no desporto, a competição é igual para todos. O final é típico, como costumamos ver em muito filme com temáticas ligadas ao desporto. Mas em «Momentos de Glória», o que sobressai mais é a intenção da obra e da sua narrativa junto de nós, espectadores. E nisso, esta aposta sai vencedora de uma forma total, pela maneira como nos mostra o desporto e tudo o que o envolve sem esquecer as relações humanas e tudo o que os atletas fazem para alcançar os seus objetivos. E nesse sentido, até que temos todos muito para aprender com as histórias verídicas de Harold Abrahams e Eric Lidell...

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2 comentários:

  1. Este post foi referenciado, criteriosamente, no âmbito de uma rubrica no meu blogue. Aqui: http://caminholargo.blogspot.pt/2013/06/a-pergunta-da-reposta-3.html

    Cumprimentos,
    Jorge Teixeira
    Caminho Largo

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    1. Obrigado Jorge. Vou tentar adivinhar! :)

      Cumprimentos,
      Rui

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