sábado, 27 de abril de 2013

Relíquia Macabra (The Maltese Falcon)


«Relíquia Macabra», um título português que dá a «The Maltese Falcon» um aspeto mais assombroso do que tem na realidade (porque a sua substância encontra-se noutros elementos), trata-se, pura e simplesmente, de mais um clássico do film-noir e do Cinema Americano. Para muitos, trata-se da primeira obra que se enquadra nesse género cinematográfico, cujo epíteto foi criado pelos cinéfilos do Velho Continente. Este é um filme realizado por John Huston, que viria a ser um exemplo para realizadores posteriores como Roman Polanski (que renovou o género cinematográfico nos anos 70, com «Chinatown» - e onde Huston interpreta, de uma forma grandiosa, uma das personagens centrais, num fabuloso film-noir), e que possui todo um ambiente de suspense e mistério que marcam a visão cinematográfica do cineasta. Nesta fita, sucedem-se mentiras atrás de mentiras (e às tantas interrogamo-nos onde pára a verdade no meio desta coboiada toda), mas também se descobrem mistérios atrás de mistérios, e que parecem não ter solução e que só nos deixam mais e mais perguntas por responder. Mas no final, tudo se resolve. Ou será que não? O que é certo é que o final de «Relíquia Macabra» foi um dos melhores, mais ritmados e provocadores que vi na vida. É a cereja no topo do bolo desta obra impecavelmente escrita, realizada, interpretada, montada e fotografada. Poderia ficar por aqui e fazer uma pequena crítica, mas vou desenvolver a minha opinião mais um pouco, porque este filme tem muito que se lhe diga...


«Relíquia Macabra» foi o filme que catapultou o até então pouco conhecido Humphrey Bogart para a ala dos Gigantes ícones de Hollywood. Antes, Bogart tinha entrado em vários filmes de gangsters com papéis secundários e mais ou menos relevantes (caso dos clássicos «The Roaring Twenties» e «Anjos da Cara Negra», por exemplo), e foi com esta fita que o ator se tornou relevante na cena de Hollywood. E ainda bem. Já aqui mostrava o seu grande talento e a sua forma grandiosa de dar vida a personagens que marcam o seu estilo de performance e a sua forma de encarar o Mundo que o rodeia. Em «Relíquia Macabra», ele é, numa interpretação verdadeiramente explosiva, Sam Spade, um detetive arrogante, sarcástico, irónico e metediço, à boa maneira da tradição do film-noir. Spade vê-se metido numa história repleta de reviravoltas, intrigas e contradições, sendo que tudo gira à volta de uma estranha relíquia que muitos pretendem e que nenhum consegue encontrar. Mas atenção: «Relíquia Macabra» não é uma espécie de "caça ao tesouro" detetivesca, nada disso - é uma busca incessante em perceber o que é que cada uma das personagens pretende e qual a importância do "falcão maltês" (a relíquia à volta da qual toda a ação do filme gira) no meio disto tudo. Spade é uma personagem ambígua, que utiliza diversas "máscaras" consoante os diversos momentos de tensão da narrativa e consoante as personagens com que se depara: ele está, ao mesmo tempo, dos dois lados da barricada. Os outros não sabem, mas Spade dá essa pista aos espectadores do grande ecrã. E há também os dois grandes vilões do filme (Sydney Greenstreet e Peter Lorre em desempenhos notáveis, na primeira de nove obras em que participariam juntos), que não olham a meios para obter a estatueta com um grande legado histórico. E depois Spade quer perceber o seu papel nesta história. Em que é que ficamos? Sei lá... só a ver o filme é que poderão compreender! O que é certo é que «Relíquia Macabra» é um dos grandes filmes americanos da era clássica e "doirada" de Hollywood. Os anos quarenta foram recheados de grande material cinematográfico que nunca poderia ter sido feito noutra época nem noutro contexto, porque perderia toda a sua magia. Este é um filme que, se fosse feito hoje em dia, não conseguiria ser tão bom, obviamente. Tornar-se-ia mais vulgar porque hoje em dia o Cinema não está virado para este tipo de estilo e de narrativa. Mas trata-se de uma grande história, excelentemente escrita e interpretada, e que ainda hoje consegue fazer vibrar.


A complexidade da câmara de John Huston, em «Relíquia Macabra», faz deste filme uma das maiores lições de Cinema técnico que Hollywood deu ao Mundo. As habilidades fílmicas do realizador fazem com que toda a ação do filme pareça decorrer de uma forma tão simples e tão dinâmica, que nos faz ter aquela ideia de que os filmes são feitos de seguida, sendo que a sua feitura dura apenas o tempo que têm. Mas está aqui todo um trabalho elaborado e meticuloso de cinematografia, de cenários, de iluminação, de encenação e de fotografia, que é um espectáculo! E o estilo, meu deus, o estilo (= cool) dos "homens de gabardine", algo tão comum nos films-noir, é algo que me encanta. Falta mencionar também os planos de câmara, grandiosos e  muito expressionistas, que tornam toda a ação do filme ainda mais rápida, intrincada e consistente. «Relíquia Macabra» é um excelente filme de crime, mistério e suspense como nunca, até então, tinha sido feito no Cinema Americano, e que permanece fresco hoje em dia. E o que melhora ainda mais o filme é conseguir descobrir, através do exemplo de Humphrey Bogart, como nasce uma grande estrela.

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2 comentários:

  1. Venho deixar-te uma perguntinha que li por aí e que fiquei curiosa com a tua possivel resposta. Prepara-te, porque é uma coisa super fofinha e sentimental. Então, é isto: "Se alguém te oferecesse um livro e, ao fim de algumas páginas, percebesses que aquele mesmo livro contava toda a tua história, acabarias de o ler?". E tenho ainda outra, porque me lembrei e porque discuti o assunto no outro dia: "O que achaste do filme "A Vida de Pi"?" - não sei se viste ou se fizeste alguma critica ao filme, enfim. Mas é isto.
    Beijinhos :)

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    1. Fica registada a pergunta. Não vi o filme e sinceramente não tenho grande curiosidade (para a próxima se quiseres saber se eu fiz a crítica a algum filme vê aí em cima o «índice de críticas de cinema», 'tá bom?).

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