domingo, 14 de abril de 2013

Os Quatrocentos Golpes


Antes de ter começado a ver, na noite de ontem, «Os Quatrocentos Golpes», de François Truffaut (um dos filmes mais conceituados do cineasta francês, responsável também por «O Menino Selvagem», «Jules e Jim» e a adaptação cinematográfica do romance «Fahrenheit 451» de Ray Bradbury), achei interessante, ao ler a contracapa do DVD, o facto do realizador querer acompanhar a evolução dos seus personagens. Ou seja, Antoine Doinel (o protagonista deste filme, que valeu a Truffaut o prémio, no Festival de Cannes, de Melhor Realizador) foi a personagem principal não só de «Os Quatrocentos Golpes», como também de algumas fitas que o cineasta realizou posteriormente (sendo que a última em que Antoine, interpretado pelo magnífico ator Jean-Pierre Léaud, foi feita em 1979 e chamou-se «Amor em Fuga», vinte anos depois da sua primeira aparição), e que acompanham a forma como o pensamento, o modo de agir na sociedade e os gostos de Antoine se alteram à medida que o personagem vai envelhecendo. E depois de ter acabado de ver «Os Quatrocentos Golpes», e de ter ficado completamente maravilhado com o que me tinha passado pela vista, a primeira pergunta que me surgiu foi mesmo "E agora? O que acontecerá a Doinel depois de «Os Quatrocentos Golpes»?" A esta questão vou dar um certo ar de retórica, pelo menos por agora, enquanto não sei mesmo o destino futuro da personagem, e porque não procuro alguém que me saiba responder à questão. Apenas posso, agora, expressar tudo o que admirei nesta espantosa obra cinematográfica, realista e incrível, que é «Os Quatrocentos Golpes».


«Os Quatrocentos Golpes», a primeira longa-metragem de François Truffaut (que até então tinha realizado duas curtas, sendo que uma delas, «Os Putos», poderá ser vista na edição nacional em DVD do filme), é um dos mais belos e reais filmes sobre a infância e sobre a escola. Mostrando o ambiente escolar e a família de classe média de que faz parte Antoine Doinel, a personagem central, a fita mostra uma escola muito diferente da atualidade, onde, por exemplo, havia a separação entre rapazes e raparigas nas turmas, mas tem as suas semelhanças e que, como se fossem fatais, nunca deixarão de ser associadas à vida nos estabelecimentos de ensino: os sermões dos professores, os miúdos mal comportados que aproveitam qualquer oportunidade para se baldarem às aulas (onde Doinel se encaixa), como também os meninos bem comportadinhos e mais próximos da etiqueta adequada, que fazem tudo para agradar ao professor e deixarem os seus colegas sempre mal vistos, denunciando as suas patifarias e partidas (competição em estado puro, diria eu - nem a SONAE contra a Jerónimo Martins consegue ser tão implacável como este tipo de miudagem). Mas como é óbvio, depois os outros vingam-se, algo que acontece no filme e que, apesar de ser algo incorreto, não consegui deixar de achar bem o que é que os alunos daquela turma fizeram com o "queixinhas" da mesma. Este é um dos muitos pequenos episódios que acontecem na sala de aula onde Doinel passa os seus dias, sonhando com uma fuga àquela vida e aos progenitores que não lhe dão a devida atenção (apesar de, por vezes, Doinel ter alguns momentos de ligação ou com o Pai ou com a Mãe - mas noutras vezes, preferia que eles nem existissem, como quando diz ao professor, como desculpa para não ter ido à escola no dia anterior, que a sua Mãe morreu...). É um miúdo traquina e rebelde que se mete em sarilhos na escola e em casa com os seus múltiplos esquemas e escapatórias à sua vida quotidiana. Ele no fundo, não é má pessoa, apesar de estar sempre a inventar histórias para se safar de eventuais sarilhos que possam suceder-se devido às suas ações. Mas o filme seria igual, se fosse feito hoje, na forma impecável e credível como retrata a infância e a forma como as crianças e pré-adolescentes veem o mundo e tudo o que o envolve. Antoine Doinel é uma personagem que tem um certo carisma (algo que fica superior com a fantástica interpretação do - então pequeno - Jean-Pierre Léaud), por ser o anti-herói infantil real e ideal, com o qual gostamos de nos identificar (recorda-nos o passado escolar - que, para mim, ainda não é muito distante) e que desejamos ser retratado, de uma maneira fiel, no grande ecrã (aqui Truffaut utilizou o seu próprio caso de vida, o que também ajuda a que a história de Doinel seja forte, realista, inspiradora e marcante - tal como ele, Doinel adora passar as tardes nos cinemas da cidade, a devorar todos os filmes em exibição). «Os Quatrocentos Golpes» é uma história francesa, mas universal e comum a todos nós. Independentemente da idade e da vida que cada um tem, é impossível não se sentir algo identificado, pelo menos, com as andanças e os sonhos do pequeno rapaz de catorze anos, enquanto deambula pelas ruas com o seu melhor amigo ou é castigado pelos professores. Este é um filme nostálgico, sem ter nada de melancólico. É um dos filmes que melhor caracteriza a infância, sem recorrer a clichés nem a acessórios cinematográficos. 

E agora, o que será de Antoine Doinel...?
«Os Quatrocentos Golpes» é, por isto e muito mais (que as minhas críticas são pouco boas na arte de persuadir pessoas a ver filmes, por não conseguir expressar, por escrito, grandes argumentos sobre os mesmos), um dos filmes que todo o jovem deve ver. É um filme dinâmico, repleto de ação e de situações cinematográficas belíssimas, graças à genial mise-en-scène de François Truffaut e a toda a narrativa, bem pensada, construída e adaptada para o ecrã, para além da linda banda sonora e das poderosas interpretações dos atores, escolhidos a dedo (principalmente Léaud) pelo cineasta. Na fita, tudo se passa muito rápido, e somos confrontados com os sonhos de Doinel, as mentiras que inventa (às tantas nem consegui perceber, afinal, o que é que era mesmo verdade naquilo que o rapaz conta às outras pessoas...). Por momentos fez-me lembrar as histórias hilariantes do Menino Nicolau (criação humorística do argumentista René Goscinny e do desenhador Sempé), pela forma subjetiva e ligada à personagem como é visto tudo o que nos é apresentado. «Os Quatrocentos Golpes» mostra mesmo o Mundo nos olhos de um gaiato francês e a sua forma de estar perante a sociedade, tal como as influências que escolhem para moldarem a sua maneira de ser (por momentos, Doinel usa Balzac, fazendo em casa uma espécie de "capela" de adoração ao escritor...), e também a maneira como os adultos "pensam" as crianças. É um must para qualquer cinéfilo, uma obra de referência para muitos realizadores da mesma geração ou posteriores a Truffaut (Akira Kurosawa e Luis Buñuel são dois exemplos), onde tudo está muito preciso, bem composto, completo e com um timing que acerta em cada cena da obra. Não podemos estar quietos, com tanta coisa a acontecer, e com a arrebatadora e arrepiante cena final que fecha esta fantástica fita, ninguém, mas mesmo ninguém, consegue ficar indiferente a «Os Quatrocentos Golpes».

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7 comentários:

  1. Parabéns pela excelente escolha em termos de filmes. São precisos mais cinéfilos como tu, informados sobre a história do cinema.

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    1. Obrigado Ricardo! :) O tempo que tenho para ver filmes é muito pouco e por isso tento-me só dedicar a filmes que verdadeiramente me interessam. E felizmente na maior parte dos casos tenho tido sorte, apanho obras primas como esta... ;)

      Obrigado e um Abraço,

      Rui

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  2. Também ja vi este filme, e adorei :) !!

    Só por curiosidade, ja pensaste em alguma vez realizar um filme?

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    1. Obrigado caro anónimo! :) Eu adorava, era uma das coisas que eu gostava de fazer na minha vida! :p

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  3. Também euu!! Sabias que há um concurso de video escolar na escola Eça de queiros? parece fixe, vai ao site deles pa ver mais www.8emeio.com, podias começar por aqui.

    Eu gostava de participar, mas infelismente provavelmente ninguém na minha turma se quereria dar ao trabalho. Já pensei fazer com bonecos, mas enfim

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  4. www.8emeio.net * enganei-me

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