O Ofício de Matar (Le Samourai)


«O Ofício de Matar», um thriller realizado por Jean-Pierre Melville (que foi responsável por um sem-número de fitas inovadoras e com elevado teor político e sociológico que marcaram uma fase dourada do cinema francês) é um dos mais fascinantes filmes europeus de que há memória, pela forma como entra no espírito dos "films-noir", um estilo cinematográfico negro, dramático e repleto de estilo criado nos EUA durante as décadas de 40 e 50 (e divulgado na Europa após a II Guerra Mundial - daí vem a expressão francesa) e cria o seu próprio estilo e a sua própria marca, que permanecem fabulosas nos dias de hoje. O filme que contém, certamente, a interpretação mais famosa do ator Alain Delon, é uma das obras mais "universais" da cinematografia francesa, fabuloso na sua realização, original no seu argumento e inigualável no aspeto "cool" na personagem de Delon, o assassino contratado Jef Costello. «O Ofício de Matar» mostra-nos o dia a dia de um profissional deste calibre, que usa a inteligência e uma técnica muito bem executada para conseguir concretizar os trabalhos encomendados pelos seus clientes. Jef Costello é uma personagem inimitável, cheia de estilo, e que possui à sua volta uma aura de mistério e de enigma: quem é este homem? O que o motiva a ser quem é? Porque é que ele tem uma personalidade tão estranha e, ao mesmo tempo, tão calma e serena (até tem pássaros de estimação - nisto me fez lembrar a "fraqueza" do Léon de Luc Besson, um assassino implacável mas que venerava a sua plantinha, a sua melhor amiga)? O filme não nos responde muito a estas perguntas, porque muito sinceramente, não precisa disso. Há toda a história de intrigas, traições e perseguições, que fazem de «O Ofício de Matar» um filme de luxo e acima da média. Uma fita que ultrapassou a barreira que divide gerações e os seus diferentes gostos pessoais, e que continua a ser um exemplo de Grande Cinema e de, ao mesmo tempo, Grande Entretenimento, eficaz, audaz, inteligente e muito bem construído.


A mítica e extraordinária banda sonora de François De Roubaix, repleta de tonalidades que realçam o tom misterioso e policial de «O Ofício de Matar», sabendo retratar, quando é necessário, a ação do filme de uma forma que, para mim, foi esmagadora. O filme possui uma abordagem aos filmes de mistério e de ação que ainda hoje é inovadora e viciante, e as cenas de ação vivem, pura e simplesmente, da "ação" propriamente dita, e dos movimentos de câmara que tão bem acompanham os personagens e os diversos passos que a narrativa toma, à medida que se torna cada vez mais densa e empolgante. E muitas das cenas não possuem grandes tiradas de diálogo, nem nenhuma fala pronunciada por alguma personagem, o que realça a importância da ação neste filme e de como, em parte, se nota aqui algumas marcas da "nouvelle vague" que revolucionou o cinema ao nível mundial, com uma série de autores e cineastas que, com novas ideias e perspetivas cinematográficas, quiseram romper com o tradicional e abrir novos mundos ao Mundo do Cinema. Jean-Pierre Melville é um realizador atento a todos os pequenos pormenores que vitalizam e reforçam toda a magia deste filme magnífico. E se eu não tinha visto grandes picos de originalidade num outro filme do realizador, «O Exército da Sombra», aqui percebi o que estive, realmente, a perder. Porque «O Ofício de Matar» é um filme que não pára quieto e que tem sempre alguma coisa nova para mostrar ao espectador, esta obra, que acaba por, ao não ter uma história ultra-original e espectacular, ser um filme que se sobressai por conseguir ser um filme perfeito, em tudo. Um film-noir, mas francês e a cores (que, a meu ver, são muito bem utilizadas). O filme poderia ter perfeitamente sido rodado a preto e branco, porque o respeito com o género cinematográfico norte-americano é tão grande e tão visível para quem vir o filme, que também resultaria excelentemente bem sem tanta cor. Mas assim perder-se-iam alguns pormenores fantásticos que o preto e branco, por si só, captaria de uma maneira diferente, como aquele fabuloso final, que encerra «O Ofício de Matar» de uma maneira algo inesperada, e dá um fecho digno de memória a um filme que, para mim, permanecerá inesquecível.

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