segunda-feira, 15 de abril de 2013

Luzes na Cidade (City Lights)


Há uma cena-chave em «Luzes na Cidade», uma das obras primas, por excelência, da História do Cinema, e uma das melhores fitas do Mestre desta Arte, mas também da Comédia e da Vida, que dá pelo nome de Charles Chaplin, que faz com que qualquer pessoa, mesmo que não tenha ficado admirada com todo o resto do filme, não consiga deixar de se sentir tocada e, mesmo, de ver a sua opinião alterada: o final. Aquela magnífica cena em que Charlot, o Little Tramp que, pelo andar da carruagem, nunca sairá da mesma condição de vagabundo que calcorreia as cidades por onde passa numa onda de "desenrrascanço" e de sobrevivência da vida quotidiana, reencontra a protagonista feminina desta magnífica peça de poesia cinematográfica. Mais não se revela nestas linhas porque o autor das mesmas não pretende fazer spoilers, mas aqui está presente toda a força do Cinema Mudo e, por isso, todas as provas pelas quais Chaplin considerava que eram as suas obras sem diálogo que o iriam imortalizar. As fitas mudas de Chaplin primam pela simplicidade e pela beleza das imagens (ambas influenciam-se mutuamente), criando um misto de Arte e de Cinema que nunca, mas mesmo nunca, conseguirá voltar a ser feito na História desta nobre arte que é a sétima. Mesmo que se consigam recriar todas as técnicas e todos os instrumentos que eram utilizados na época do Mudo, nunca seria possível voltar a fazer filmes com o mesmo calibre e o mesmo poder destas obras magnânimes e sem igual na cultura ocidental. E essa força e esse poder persistem hoje: Chaplin continua a cativar gerações e a ser a fonte de inspiração de muitas pessoas. Chaplin continua a ser novo, inovador e original, mesmo com tanta coisa tão ou mais complexa que possa ser feita hoje em dia. Mas o cineasta persiste, pela sua forma bonita de retratar o Mundo e as relações humanas. E com ou sem som nas suas obras (porque apesar de tudo, o cineasta tem obras de grande valor na época do sonoro, sendo «O Grande Ditador» a melhor de todas - e o preferido deste escriba), ele é um génio impossível de passar despercebido. Ensinou-nos a sorrir e a viver a vida da melhor maneira, brincando com o que é sério e ajudando a mudar o Mundo através da comédia e da força dos gestos e das ações dos seus personagens. Mudo ou sonoro, Chaplin é totalmente imortal, um Mestre na Arte de contar histórias e na Arte de se ser humano.


«Luzes na Cidade» segue as deambulações do vagabundo Charlot por uma cidade típica americana dos anos 30. Ou, sejamos mais precisos, o filme gira à volta da paixoneta do Little Tramp por uma rapariga invisual que vende flores (e a atriz que a interpreta, lindíssima, dá uma certa luminosidade especial à obra). E por ela, ele vai fazer tudo e mais alguma coisa, inclusive fingir-se milionário e possuidor de coisas que, na realidade, nunca pôde sonhar que iria alguma vez ter como suas. Mas o Amor é assim, guia uma pessoa a agir de maneiras que nunca tinha pensado que iria fazer, e Charlot vai meter-se em alguns sarilhos por causa da sua paixão, como conhecer um milionário que salvou e que o trata como seu amigo enquanto está bêbado (mas de manhã, após a ressaca, já voltou a ser o "big shot" milionário arrogante do costume - uma das muitas críticas à condição humana, neste pequeno apontamento humorístico concebido por Chaplin) e entrar num ringue de boxe para, ao participar numa competição, conseguir arranjar dinheiro para salvar a moça da miséria e ajudá-la a curar a cegueira. Em certas alturas poderemos pensar, tal como noutros filmes da personagem, que Charlot está a ser demasiado ingénuo e a arriscar exageradamente a sua pele pelas pessoas que pretende ajudar, mas o vagabundo não é parvo. É apenas desenrrascado. Sim, tem a sua maneira de ver as coisas e uma forma descontraída e inventiva de fugir aos problemas que, na maior parte das vezes, ele próprio cria, mas ele apenas quer alcançar o seu objetivo: conquistar a miúda. E como é uma tarefa difícil, ele faz tudo para concretizar o seu desejo. Ele é o ser humano humilde, generoso e disposto a fazer tudo pelos seus, e que se torna um exemplo para todas as gerações, da época do filme ou as que se lhe seguiram. Em qualquer época, em qualquer lugar, em qualquer situação, o caráter e a personalidade de Charlor nunca deixará de ser exemplar e necessária para ajudar a compreender o que é um Homem no verdadeiro sentido do termo. A simpatia, a humanidade e a simplicidade da personagem tornam-no no espírito mais fofinho e carinhoso que o ser humano pode ter na sua alma. E a maneira como Charlot olha para a câmara (ou seja, para nós, espectadores) em diversas cenas do filme (recordo-me agora assim de repente de uma festa a que o vagabundo vai com o seu amigo rico - bêbado -, em que Charlot põe um charuto na boca e olha para "nós", todo contente da vida) aproxima ainda mais quem o está a ver da ação cinematográfica de «Luzes na Cidade». Chaplin identifica-se connosco, tal como nós nos identificamos com ele. E tanto ele como o espectador sabem como a vida é, cheia de amarguras e de alegrias. Mas no fundo, nunca há razões para uma pessoa perder completamente o sorriso...


«Luzes na Cidade» é uma obra prima, ponto final. «Luzes na Cidade» é um caso magnânime que faz reduzir a minha ignorância cinéfila a níveis nunca antes vistos: que pena só ter conhecido esta fantástica fita agora! Como deixei escapar um filme portador de uma rara sensibilidade (e que, repito, já não se faz hoje em dia...), uma tragicomédia excecional que fala das coisas simples da vida num Cinema que, se fosse adaptado à atualidade, deixaria de fazer sentido e perderia toda a sua magia (como o momento final - volto a sublinhar -, uma das cenas mais tocantes e extraordinárias que vi até hoje, e que mostra como, apesar de muitas vezes nos quererem enganar, os olhos passam sempre os sentimentos do nosso coração), e que é uma fita bela como a vida, e que tem uma fantástica banda sonora que eleva ainda mais a superioridade do filme (e que é da autoria, "as usual", do próprio Chaplin - uma das melhores composições da sua carreira, juntamente com as partituras de «Luzes da Ribalta» e «Tempos Modernos»)? Eis a questão, para a qual dou a seguinte resposta: porque sou um ignorante. E depois de ver «Luzes na Cidade», tornei-me um bocadinho menos ignorante. E já consegui preencher, com mais um pouco de grandeza, a minha tão-deprimente existência. Obrigado, Chaplin.

* * * * *

Apenas uma nota sobre a forma como vi «Luzes na Cidade»: num DVD trazido da Biblioteca, edição da Costa do Castelo Filmes. Imagem? Horrorosa, vi cópias do youtube com menos "pixelizado" do que a deste disco. A editora apoderou-se das tremendamente excelentes edições da MK2, repletas de extras e que, em 2003, foram editadas em Portugal pela Lusomundo/Warner, e agora vende os filmes de Chaplin a preços barbaramente caros, sem extras e com pior qualidade. Mais vale mesmo aceder à net, visto que fizeram desaparecer essas edições de luxo antigas...

2 comentários:

  1. Tens razão. As edições da Costa do Castelo têm preços escandalosos, muitas vezes para uma qualidade de imagem tão fraca.

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    1. Olá Ricardo! Pois, finalmente começam a ter filmes mais baratos (como os clássicos italianos nas FNACS) mas mesmo assim...

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