Filhos de um Deus Menor

Não é muito comum eu ler críticas de outras pessoas antes de fazer as minhas próprias opiniões escritas sobre os filmes que vejo. Mas desta vez houve uma exceção. Com o falecimento de Roger Ebert esta semana, dois dias depois de ter visto «Filhos de um Deus Menor», a curiosidade era demasiado grande e, por isso, decidi ler a sua recensão sobre este drama romântico protagonizado por William Hurt e Marlee Martin. E curiosamente, é das poucas críticas em que concordo a 100% com Ebert, sendo que em algumas coisas coincidia com as ideias que eu tinha retirado durante o visionamento da fita e que tinha apontado em tópicos no meu bloco de notas. De facto, este texto é desnecessário, porque me basta dizer que mais valem ler as palavras do Grande Ebert do que estarem a perder tempo com isto. Mas talvez consiga acrescentar algumas perspetivas sobre o filme com que fiquei para além das que coincidiram com as do crítico mais famoso do Mundo - mas, de uma forma ou de outra, vou cair sem querer nas que ele já tinha falado, e peço desculpa desde já por essa inconveniência.


«Filhos de um Deus Menor» é uma história de amor ao melhor/pior estilo dos anos 80. Um amor impossível que passa não só pelas diferentes vidas dos dois protagonistas que formam o par romântico do filme, como também pelas formas distintas como ambos veem... e ouvem o Mundo. William Hurt é James Leeds, um professor de surdos que chega a uma escola que ensina alunos com essa incapacidade, adaptando o ensino e as aulas às suas necessidades e ao que necessitam aprender para a sua vida, e Marlee Matlin (que arrecadou o Oscar de Melhor Atriz com este desempenho, o primeiro da sua carreira) é Sarah Norman, uma ex-aluna da dita escola que, sendo agora uma moça maior de idade, trabalha no estabelecimento a fazer limpezas para poder "sobreviver". E, surpresa das surpresas, James e Sarah vão-se apaixonar e viver uma "linda" história de amor, que à boa (e à má) maneira de Hollywood, até perfaz um filme cativante e bem feito, e que, confesso, foi do meu agrado (até gosto de lamechices, pronto! Uns morrem, outros ficam assim, acontece...). É interessante terem querido transpôr para o grande ecra uma peça de teatro (da autoria de Mark Medoff, que venceu o Tony Award por ela e que depois escreveu, a meias com Hesper Anderson, o argumento cinematográfico) que envolve um tipo de sistema educacional que não estamos habituados a ver no Cinema. E, se o staff de «Filhos de um Deus Menor» quisesse, poderia ter utilizado esse ingrediente para tornar o filme mais pindérico e emocional num sentido mais patético e deprimente, mas felizmente não decidiram fazer muito isso. Há algum rasto disso no filme, mas para o bem de todos nós, não foi utilizado em demasia. Mas o filme possui muitos clichés (começando, desde logo, pela relação improvável que, logo no princípio, nós percebemos que vai resultar - sim, porque se não resultasse a narrativa não utilizava alguns mecanismos que podem ser vistos na fita) e tem um lado muito marcado dos anos 80, da sua música (algo excessiva - por vezes o silêncio, e havendo uma co-protagonista que é surda e faz de uma personagem surda, ele poderia ser muito bem utilizado) e de alguma poesia visual que nada nos interessa e que só serve para aumentar o grau de melodrama desta obra. E sim, já devem ter percebido que foi para estes lados que o staff do filme decidiu usar, em parte, os assuntos sérios que a trama aborda. Mas não são suficientes para tornar o filme mau. E aliás, este é um bom filme, que consegue ser bonito e bem estruturado e escrito, com os dois atores principais a marcarem uma forte e impressionante presença em «Filhos de um Deus Menor». Talvez a personagem de Hurt fale um pouco demais (para nossa sorte, quando ele fala em linguagem gestual para ela, ele auto-traduz porque, segundo o que diz, gosta de ouvir o som da sua própria voz - que conveniente, não é?) e a personagem de Matlin merecia mais espaço na história e na forma como nos mostram a evolução da relação entre as personagens... mas lá está, Hollywood ainda não estava muito preparada (e estará hoje?) para tratar devidamente os atores surdos nos seus filmes. Mas pelo menos, em «Filhos de um Deus Menor», foi dado um grande passo para a abrangência de oportunidades no mundo da representação. E Matlin tem mesmo uma grande performance no filme, que consegue ser muito bem destacada, apesar desta pequena "injustiça" de atribuição de espaço e de importância às personagens (se até a Academia premiou, é porque conseguiu chamar a atenção do público mesmo assim, e isso é muito bom, porque Matlin, para mim, é a força maior da fita).


«Filhos de um Deus Menor» possui a estrutura básica de uma fita romântica, nas partes em que o romantismo está presente, e por isso, nas cenas da relação entre James Leeds e Sarah Norman, é possível encontrar a maioria dos clichés que caracterizaram o modo de filmar o amor e a paixão no Cinema Americano da década de 80. Só que o filme não é só drama romântico, e bem, porque no resto encontramos muitas coisas boas que devem ser aproveitadas. A relação de James com os seus alunos revela momentos de Cinema com alguma substância filosófica e moral e que são muito humanas e tocantes (e não por os alunos serem surdos, é por tratarem-nos como pessoas) e que mostram a inteligência e a perspicácia do argumento (e supostamente, da peça) de Mark Medoff, ao pegar em coisas menos conhecidas do grande público e mostrar que, afinal, não são tão invulgares como julgamos a uma primeira vista descuidada e desatenta. «Filhos de um Deus Menor» é um bom drama que, apesar dos problemas (e que estão muito bem descritos na tal crítica de Roger Ebert - felizmente consegui não ir muito pelo caminho da opinião dele...), torna-se um bom filme, uma história algo arriscada apesar de algumas coisas menos singulares, e pelo retrato sério e fiel da realidade das pessoas com deficiências auditivas. A forma como um filme nos toca não depende só da originalidade, mas do nível de "agradabilidade" que nos proporcionam, entre outras coisas mais. E se falha em grande parte no primeiro parâmetro, «Filhos de um Deus Menor» é uma aposta ganha no segundo. E pelas escolhas habituais das televisões, que preferem optar maioritariamente por dramas com alguns toques de humanidade/idiotice para passarem nos seus ecrãs, talvez esta obra conseguir-se-ia destacar mais do que as habituais (e repetitivas) escolhas dos canais generalistas...

* * * 1/2

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