Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard)


O público não sabe que alguém escreve os filmes. Pensa que os atores vão inventando os diálogos...

«Crepúsculo dos Deuses» foi (e é... e será!) um filme tão importante para a História e para a evolução do Cinema Americano, que foi logo uma das obras incluídas na primeira fornada do ainda embrionário National Film Registry para conservação e preservação. Com o passar dos anos, o NFR colocou mais e mais filmes na sua "filmoteca" essencial de clássicos americanos, e a cada ano que passa, «Crepúsculo dos Deuses» angaria mais e mais seguidores. É um filme com uma pontuação altíssima no IMDb e que, pelos vistos e ainda bem, anda a captar as novas gerações de uma forma avassaladora. E comigo o mesmo também aconteceu. Queixam-se que eu só vejo bons filmes, mas caramba!, ia perder tempo com obras cinematográficas que não selecionei previamente e correr, eventualmente, o risco de não passar os olhos por obras primas como esta fantástica fita realizada pelo Mestre Billy Wilder? Não senhora. Porque «Crepúsculo dos Deuses», minhas senhoras e meus senhores, trata-se de um daqueles raros filmes que  quase consegue alcançar o nível de perfeição. Ou "in other words", como o conceito de "perfeição" é perfeitamente ambíguo e utópico e como pode abranger várias perspetivas diferentes, eu digo mesmo que este é um filme perfeito. Em tudo. Nele não vi qualquer falha. Ou se vi, passou-se-me ao lado ou a minha visão fingiu que não viu, para não estragar este festim cinéfilo com que fui brindado no passado sábado. Sim, caríssimos amigos e amigas, «Crepúsculo dos Deuses» é um filme divinal. Ponto. E prossigamos porque apenas estas linhas sabem a pouco.


«Crepúsculo dos Deuses» é, ainda hoje (e, espero, por mais algumas décadas), um filme completamente surpreendente, vivo, frenético e espectacular. A maneira como o argumento me agarrou desde o princípio da fita, com toda aquela sequência inicial tão pouco usual num filme dos anos 50 (pelo menos, para a ideia que tenho, no geral, do Cinema nessa época hollywoodesca) e que me cativou para descobrir Sunset Boulevard de uma maneira que me deixou espantado. Já para não falar do facto de todos os diálogos do argumento do filme são muito refinados, inteligentes, e atraentes para o ouvido - este é um filme repleto de grandes frases, de grandes momentos, de grande Cinema. Mas isto não é de admirar, visto que o senhor que realizou este filme (e que Senhor!) dá pelo nome de Billy Wilder, que é muito conhecido pela forma muito "carinhosa" e eficaz que utiliza para introduzir a narrativa e a sua importância devida na ação cinematográfica (veja-se, por exemplo, «O Inferno na Terra», também protagonizado pelo Grande William Holden, e que se trata de uma comédia muito divertida, e «Pagos a Dobrar», um fantástico film-noir com argumento de Raymond Chandler), e por isso, em matéria de argumento não há, de todo, alguma coisa mais a apontar. Em «Crepúsculo dos Deuses», William Holden é Joe Gillis, um argumentista de Hollywood que narra o filme (e se autoconfessa constantemente, mesmo quando, na realidade, isso não seria possível - "if you know what I mean") e encontra uma "oportunidade" de emprego com a descoberta da mansão de Norma Desmond, interpretada por Gloria Swanson, uma grande atriz do mudo que, agora (no tempo da fita), está afastada de tudo e todos, desprezando o sonoro e ambicionando voltar a fazer uma nova fita, para gáudio dos milhares de fãs que não se cansaram de a admirar (ou será que não?). Desmond é uma resistente do mudo que não quer ser confrontada com as mudanças trazidas pelos progressos de Hollywood, pensa que o Mundo gira à sua volta (muito por causa das vontades que lhe faz o seu mordomo - que é mais importante nesta trama do que se poderia pensar...) e age sempre como se estivesse atuar, nos tempos do mudo, de uma forma exagerada e sem dar muita atenção ao "som" (apesar da voz de Desmond ser inigualável, diga-se!). Desmond representa o declínio das grandes estrelas, esquecidas pela sociedade. E em várias ocasiões reencontra os seus amigos veteranos para uma jogada de cartas (entre os quais se encontra o lendário Buster Keaton). E para ela, Gillis é o único motivo para continuar a viver e a sobreviver no mundo que, parece, não tem mais espaço para ela. Toda a postura de grandiosidade e imperiosidade que Desmond mostra não passa disso mesmo: uma aparência. Ela reencontra também o realizador Cecil B. de Mille  (que faz também um papel extraordinário - o de si próprio - mas que mostra que foi um cineasta que se adaptou ao sonoro e triunfou, tendo sucesso depois do mudo), que ambiciona que seja o homem que esteja por trás do seu regresso ao Cinema. Mas será que tudo isso é mesmo possível, ou não passam de sonhos de uma mulher que preferiu esconder-se no seu canto durante tanto tempo? É o que Gillis descobre e nos leva a pensar a importância do "star-system" hollywoodesco para a perspetiva com que ficamos do Cinema Americano. Mas a fama nunca poderá afetar a arte que cada estrela produz. Em teoria, não deveria, pelo menos...

Norma Desmond - a nostalgia do mudo?
«Crepúsculo dos Deuses» apenas me permitiu pensar nestas notas soltas que escrevi e que pouco consigo interligar para as transformar numa crítica com princípio, meio e fim (mas também, quando é que as minhas críticas obedecem a essa estruturação?). Mas posso também dizer, para concluir, que o filme é um estudo muito interessante e original sobre os processos de "fabrico" de estrelas e filmes em Hollywood, para além de que olha para toda a indústria do Cinema Americano de uma forma muito menos glamourosa e plasticamente feliz, ao contrário do que a comunicação social e os diz-que-disse nos levam a crer, a cada momento. Com a interseção entre as personagens reais (que mais não são do que grandes figuras do Cinema a fazerem delas próprias e a mostrarem mesmo o seu "fracasso" no mundo do então-atual sistema de Hollywood) e a história (muito pouco) ficcional de Norma Desmond (e caramba, é preciso voltar a referir - Gloria Swanson tem uma interpretação extraordinária! Representa a personagem de uma forma tão terrorífica, tão alucinante, tão entusiasmante!), «Crepúsculo dos Deuses» mostra como, ao olhar para o presente, tem de se estimar o passado, e vice-versa, para uma melhor compreensão do futuro. Com uma impecável realização de Billy Wilder, um Grande argumento e uma lindíssima fotografia, «Crepúsculo dos Deuses» é um dos grandes filmes de sempre, livre de pretensiosismos e tocando nos corações com uma história humana que pode dizer tanto a cada um de nós. É uma jóia mais valiosa da coroa.

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Comentários

  1. É um grande filme Rui, duma era de outro tempo mas que ao mesmo tempo continua a ser o nosso, Abraço

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    1. É um filme intemporal Carlos! ;) Um Abraço!

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