quinta-feira, 11 de abril de 2013

Belarmino: a vida e as ambições de um simples lisboeta


Não era o Belarmino Fragoso que estava a jogar, mas a necessidade de ganhar quinze contos.

«Belarmino» é considerado um dos filmes (ou provavelmente é mesmo "o" filme) que iniciou a propagação e a evolução do Cinema Novo Português, uma corrente cinematográfica que caracterizou a Sétima Arte em Portugal durante a década de 60 e nos primeiros anos dos "seventies", e que, à semelhança do neorrealismo na Itália e à Nouvelle Vague em França, virou do avesso tudo o que tinha sido feito, até então, em termos de cinema nesses países, através de uma nova geração de artistas (realizadores, autores e atores) que, com a sua visão alternativa (ao que era habitual ser visto) e arriscada (na sua forma inovadora de contar uma história em imagens), retrataram um desejo de mudança e de constante inovação no meio social e artístico e que, felizmente, continua a estar presente hoje em dia. «Belarmino» trata-se de uma obra que, além de conter, na sua génese, "alguns pingos" de inspiração retirados dos ditos movimentos de novidade cinematográfica da Itália e da França, consegue inovar e impôr o seu estilo tanto dentro do panorama português como dentro de todo o Cinema que era feito dentro do continente europeu. «Belarmino» é neorrealista pela visão crua e dura da realidade, pela mão do realizador Fernando Lopes e do protagonista/ator Belarmino Fragoso, e "vítima" da Nouvelle Vague pela forma como a câmara acompanha os movimentos e ações do protagonista deste pseudo-documentário, e que, ao pretender misturar constantemente realidade (a entrevista do jornalista e, posteriormente, também escritor Baptista Bastos) e ficção (as cenas em que Belarmino passeia por alguns locais emblemáticos da Lisboa diurna e noturna dos anos sessenta, particularmente alguns pontos de encontro de Fernando Lopes e dos seus comparsas cinéfilos - e não só -, como o Hot Club e os pequenos cinemas que, na época, inundavam a cidade, com toda uma oferta curiosa e variadíssima), torna-se um documento muito importante para se entender a História de Portugal e, mais propriamente, este período turbulento que marcou o país, ainda mergulhado na ditadura (e com Salazar ainda sentado comodamente na cadeira) e num atraso económico, cultural e social profundo e crítico que, hoje, continua a persistir, de uma forma menos acentuada é certo, mas ainda notável mesmo em tempo de (aparente) democracia...


«Belarmino» conta a vida e o dia a dia real de um simples e humilde lisboeta que devaneia por muitas das ruas da capital do país ibérico. Apesar de ser um filme que, muitas vezes, é conotado com certas ideologias políticas (algo que se sucede com muitas obras do Cinema Português, tanto para a direita como para a esquerda), mas penso que, ao contrário de alguns clássicos da nobre arte das imagens movimentadas como «O Couraçado Potemkin», de Sergei Eisenstein, ou «O Triunfo da Vontade» de Leni Riefenstahl, que têm mesmo uma posição política muito vincada e extremamente objetiva e precisa e que, assim, se tornam verdadeiros folhetins propagandísticos de uma ideologia, «Belarmino» não é nada disso. É um filme de oposição ao regime salazarista, é verdade, mas é muito mais do que isso, porque mostra muito mais a visão de Lisboa e de um certo lado triste e "fadesco" que continua a "assombrar" o povo português nos nossos dias. «Belarmino» é a verdadeira Lisboa dos anos 60, sem muita subjetividade ou politiquice à mistura, tornando-se a perspetiva pura, real e movimentada, sem melhoramentos ou invenções fantasiosas, da capital de um país orgulhosamente só, mas pouco orgulhoso de si próprio. O filme mostra como Belarmino Fragoso, um antigo pugilista português que, no presente da ação do filme, já não faz a sua vida a competir nesse desporto, conseguiu alcançar o patamar de glória e vitória que, efemeramente, viveu no mundo pequeno e quase despercebido do boxe português. Com a longa entrevista que é feita a Belarmino (e ao seu antigo "manágér" Albano), compreendemos como foi dura, angustiante e triste a vida deste no pugilismo, mas que, apesar de todas as dificuldades que teve de passar, persistiu sempre na sua carreira e de como nunca se arrependeu da carreira que construiu, com tanto trabalho e afinco. Mas ao mesmo tempo, conhecemos Belarmino por dentro: os seus gostos, as suas distrações, a sua forma de ver o Mundo e as pessoas que vai conhecendo na sua vida, e a maneira como comunica com as pessoas (uma pronúncia do português que só consegui compreender na totalidade graças às legendas disponíveis na edição DVD do filme, admito). No fundo, Belarmino Fragoso é apenas mais um homem no meio da multidão, e que, tal como todos os seres humanos, se sente, muitas vezes, desanimado e desiludido consigo próprio, a nível profissional e pessoal, algo causado, em grande parte, pelo fim que teve de dar à sua carreira séria no pugilismo (e que é bem retratada e recreada nesta primeira longa-metragem do realizador Fernando Lopes). Mas a vida continua (Belarmino está sempre a afirmar que as coisas más que lhe acontecem fazem parte da vida, "é a vida" e não há volta a dar ao que nos acontece) e, apesar de "hoje em dia" viver de pequenos biscates e a fazer muitas coisas totalmente diferentes, Belarmino nunca perde o sorriso e a forma simpática e cordial que sempre usa para falar com outras pessoas.


É interessante ver como «Belarmino» nos mostra as diferentes perspetivas que podem ser retiradas dos acontecimentos que o protagonista relata e são ou não contrariados pelo seu antigo agente. Belarmino Fragoso é o exemplo do português que faz sacrifícios para o bem dos que lhe são mais próximos, fiel aos seus amigos e que possui uma enorme honestidade e seriedade, apesar de tudo, no seu discurso. É o português mais vulgar, mas que tornou este filme numa obra de grande interesse tanto artístico como narrativo. A boa banda sonora, no estilo do jazz e que me fez muito lembrar as inesquecíveis sonoridades que Bernard Herrmann compôs para o excelente «Taxi Driver» de Martin Scorsese, complementa o lado melancólico e filosófico da obra de Fernando Lopes, tal como os planos de câmara dinâmicos, os grandes ângulos e os interessantes perspectivas fílmicas. Belarmino Fragoso recordou-me Marlon Brando em «Há Lodo no Cais», e a famosa frase "I Could'a been a contender", que expressa a desilusão que a sua personagem sente pelo que poderia ter sido mas que não conseguiu, ou não quis, atingir. Algo parecido é dito, muitas vezes, de Belarmino Fragoso, ao longo da fita. E apesar de ser um filme de referência no Cinema Português pela inovação e abertura que deu a novos realizadores e visões cinematográficas, o que fica mais, no presente, desta obra, é a forma como, apesar de tudo, a sociedade ainda está, hoje, povoada de Belarminos, e de Lisboa continuar uma cidade tão bonita e com tantos segredos para serem desvendados, que achei mais "inultrapassável" temporalmente. E só por isso, ver «Belarmino» já é algo importante a ser feito.

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2 comentários:

  1. O senhor dos óculos monocromáticos12/4/13 07:27

    Aleluia, começa a chegar a tua redenção em relação ao cinema Português (se é genuína ou não isso serão outros pincéis!) :P

    Agora segue o caminho e mete-te pelo Aniki Bobó, pelas Recordações da Casa Amarela, pelo Quarto da Vanda, pelo Até Amanhã Mário e pelos Mutantes da Teresa Vila Verde...

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    1. Não é questão de redenção, eu sei que existem bons filmes tugas para ver, mas só agora é que tive oportunidade. Vários dos filmes que tenho na minha watchlist estão entre os que mencionou, com exceção do do João César Monteiro - já tentei ver há uns tempos e, sinceramente, não aguentei muito. Não pretendo ver esse filme agora, talvez daqui a uns anos.
      Além disso, tenho ainda ao mesmo tempo muito cinema italiano, francês, espanhol, árabe, americano, brasileiro e asiático para ver... tanto para ver e tão pouco tempo.

      Obrigado,

      Rui Alves de Sousa.

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