sexta-feira, 19 de abril de 2013

Aniki-Bobó: o amor, a infância e a sociedade


É um facto que o Cinema, e se formos a ver bem, toda a Arte em geral e todas as formas que utiliza para se expressar e para se divulgar, gosta de outsiders, dos grandes heróis que têm tanto de vulgaridade como de diferença em relação à maioria das pessoas.. O vagabundo Charlot, o Man With No Name encarnado por Clint Eastwood, o inesquecível Rick Blaine de «Casablanca»,... poderia estar aqui a enumerar exemplos durante horas (alguns minutos, vá, porque a minha memória não consegue trabalhar assim tanto...). Um tipo de Cinema que utiliza muito a presença dessas personagens que, apesar de serem apenas um indivíduo no meio da multidão, conseguem ao mesmo tempo representar todo o Mundo que conhecemos e o que não nos deram a conhecer, é o neorrealismo italiano, do qual «Aniki-Bobó», primeira longa metragem de Manoel de Oliveira, o realizador mais velho do Mundo em atividade, foi um grande percursor e que, ainda hoje, é aplaudido e admirado por isso mesmo, pelo retrato realista, tocante e fiel que faz da cidade do Porto e do grupo de crianças que lidera a ação da narrativa do filme. «Aniki-Bobó». É um dos filmes portugueses mais admirados de sempre (apesar de, na época em que estreou nas salas nacionais - e numa situação semelhante ao que acontecera anos antes com a curta-metragem muda de Oliveira «Douro, Faina Fluvial», e que hoje é um filme estudado e analisado pela sua importância cinematográfica e histórica acrescida e que o tempo ajudou a amadurecer e a tornar consistente -, ter sido completamente enxovalhado não só pelo público, como o próprio regime salazarista - que viu na bonita história de Carlitos, Eduardinho e Teresinha, uma potencial arma perigosa contra os valores da ditadura), fazendo parte de um tipo de corrente cinematográfica com aquelas obras que, gostos à parte, são necessárias em qualquer cinematografia do Mundo: filmes que digam algo a nós, espectadores, utilizando a realidade e o nosso dia a dia para torná-la, no grande ecrã, numa experiência útil e ainda mais enriquecedora a cada um de nós. É isto que se sucede com «Aniki-Bobó». Não vou comentar o facto de, depois de ter estado tanto tempo sem filmar, Manoel de Oliveira se tenha dedicado mais àquele estilo controverso, pouco apetecido em Portugal, mas que é aplaudido por esse mundo cinéfilo fora (e que, apesar de eu querer conhecer primeiro todos os seus filmes para poder ter uma opinião bem formada sobre o cineasta, dos outros dois filmes que vi não fiquei grande admirador - muito pelo contrário), e apenas dedicar-me a «Aniki-Bobó», filme mais "normal" na sua filmografia, mas não é por isso que é um mau filme (muito, mas muito pelo contrário), e é, sim, sem dúvida alguma, a obra cinematográfica mais popular do realizador no seu país de origem, e que, sendo uma fita necessária para compreender o povo português, trata-se de um filme que abrange muitas discussões e muitos temas, e que é bonito, sem precisar de ser pretensioso e de dar a entender que, apesar de nada mostrar, que está a mostrar alguma coisa (última referência que faço ao cinema mais recente de Oliveira, peço desculpa, não voltará a acontecer ao longo desta crítica).

Carlos ou Eduardo: qual deles acabará por conquistar o alvo de toda a sua disputa?
«Aniki-Bobó» gira à volta de um triângulo amoroso, de um comboio (e da tragédia que se gira à volta do mesmo), de uma boneca roubada, e dos sonhos e das ambições comuns à infância de qualquer um de nós, mas que acabam por bater certo em qualquer idade, estrato social, credo ou etnia. Carlos e Eduardo são dois gaiatos que vivem ao pé do rio Douro (no mesmo ambiente e cenário da curta de Oliveira, disponível em três versões diferentes na edição DVD do filme que tanto tardou a chegar aos pontos de venda habituais - uma, original, muda, e outras duas com música, uma de Luís Freitas Branco e outra de Emmanuel Nunes), onde fazem as suas brincadeiras e onde encontram o seu grupo de amigos, que é liderado com "mão de ferro" por Eduardo (que é, sejamos sinceros, uma autêntica besta... trata-se daquele tipo de miudagem que, além de ser mal educada até dizer chega - e sim, a má educação das crianças não é só de agora, ah pois não - consegue sempre fazer frente aos restantes garotos da sua idade, apenas armando-se em mau. Ai mas se eu pudesse... os estalos que aquele miúdo levava... OK, continuemos a crítica). Acompanhamos as suas aventuras na escola, fora dela, em casa e na "Loja das Tentações" (cujo dono é interpretado pelo ator Nascimento Fernandes, numa personagem memorável), uma lojinha que vende de tudo, e inclusive, uma bonita boneca que Teresinha adoraria ter na sua casa. E Eduardo e Carlos estão sempre numa luta constante, um contra o outro, para ver quem é que vai conseguir conquistar a linda menina que lhes roubou o coração. Quem sairá vencedor? Por quem é que devemos torcer nesta disputa que parece não ter fim (e que acaba por ficar meio conturbada lá para o meio do filme)? Não é isso que verdadeiramente interessa em «Aniki-Bobó», mas sim toda a sua conjuntura socio-cultural e a forma como o meio é retratado, através dos planos de câmara, dos movimentos dos personagens, dos diálogos e das variadas situações que a narrativa nos vai apresentando ao longo de sessenta e oito minutos de filme. As interpretações hilariantes dos miúdos e os diversos gags de que são "vítimas", aliado a um dramatismo belo e tocante que em nada deve ao cinema italiano (algo auxiliado pela inesquecível banda sonora da obra), fazem de «Aniki-Bobó» uma grande experiência de Cinema e de Vida, tal como é mostrada, de uma forma que não é estereotipada nem exagerada, a ingenuidade e da graça do pensamento infantil (que é tão identificável com a infância pela qual cada um de nós passou).


Ao contrário de outros clássicos portugueses da tão-designada "época de ouro" do Cinema Português («A Canção de Lisboa», «O Pátio das Cantigas» e «O Pai Tirano» - este último o meu preferido - são alguns exemplos), «Aniki-Bobó» possui um restauro digital digno desse nome e que não serve só para fazer publicidade na capa do DVD. Mesmo que não seja perfeito (e há ali cada calinada - mas o que é mesmo de fugir a sete pés é a sinopse da contracapa... os tugas são tão maus a fazer resumos de filmes sem ter de contar a história toda e a torná-la desinteressante...), ao menos esta cópia melhorada torna o filme visualizável, retirando grande parte dos danos que o tempo causa a este tipo de fitas mais antigas. E isso é muito bom, porque «Aniki-Bobó» é um filme intemporal, curto, incisivo, poético e altamente fiel ao espírito da alma portuguesa e do engenho e arte da "tripeirice". Este é um filme que tem uma história repleta de humanidade, de magia e de energia e que, apesar de alguns erros estruturais e fílmicos que são notórios (para Oliveira, este foi um filme experimental, convém lembrar), não consegue deixar de ser, na sua totalidade, um grande filme e uma grande pérola da cinematografia lusa. É uma obra que nos deixa interessados, admirados e curiosos, pelo seu realismo, pela sua eficácia, pela forma bonita como foi feito e que, em pleno século XXI, se torna mais próxima de nós do que muita fita mais recente. Carlos e Eduardo (mais o primeiro que o segundo) fazem tudo pela moça por que estão apaixonados, e por causa disso suceder-se-á uma série de peripécias que criam alguns dos momentos mais fortes e marcantes do filme. Isto só prova que o Amor é, tal como sabemos, universal, e que se torna admirável em qualquer cinematografia, em qualquer parte do globo. Mas em «Aniki-Bobó», é à moda do Porto!

* * * * 1/2

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).