A Invenção de Hugo


O último filme realizado por esse guru do Cinema que é Martin Scorsese (e que prepara agora o interessante projeto «The Wolf of Wall Street», e para depois tem já em mente a adaptação cinematográfica do livro «Silêncio» de Shusaku Endo e um biopic do grandioso artista Frank Sinatra) dá pelo nome de «A Invenção de Hugo». E como em muitos projetos do multifacetado realizador, por vezes autor (e ator), mas principalmente conotado pela sua "cromice" obsessiva pelas artes cinematográficas, esta obra mostra alguma da versatilidade do cineasta. E porquê? Porque nunca tinha imaginado que Scorsese tivesse intenções de fazer um filme familiar, todo bonitinho, colorido e maravilhoso, depois de obras tão conceituadas, tão pouco "mainstream" e tão perturbantes como «Taxi Driver», «Touro Enraivecido» e «Tudo Bons Rapazes». É um registo completamente diferente e menos habitual na sua filmografia, que sai vencedor porque mostra como Scorsese continua a ter um olho rigoroso, mágico e incrível para a Sétima Arte, irreverente e muito "scorsesiano", apesar de tudo, e esta entrada de Scorsese em outras formas de Cinema só mostra como o grande realizador, que já nada tem a provar no Mundo das fitas (já é uma Lenda, só pelos três filmes que agora mesmo citei), gosta de descobrir novos mundos cinematográficos e aprender sempre algo mais nesta Arte (mesmo que não precisasse - ele sabe tudo!), que mostra, cada vez mais, que possui uma quantidade infindável de conhecimentos para serem descobertos...


Baseado no grande livro (e nisto convém dizer que me refiro tanto aos dois significados que possam ser dados a esse adjetivo - de uma forma mais literal e de outra menos) da autoria de Brian Selznick (e que por si só já se torna um grande desafio cinematográfico, visto que grande parte do livro vive das imagens, desenhadas pelo autor, que assumem uma função tão ou mais importante que a palavra escrita - e que ocupa muito menos páginas -, o que faz com que o livro se assemelhe quase como que a um storyboard, que homenageia o Cinema pelo poder das imagens que quase se movem nas páginas da obra), «A Invenção de Hugo» é um filme muito interessante principalmente pelo aspeto de nostalgia e de incentivo à descoberta dos primórdios da arte cinematográfica que possui. Não admira que este filme tenha sido escolhido para integrar a lista das obras do Plano Nacional de Cinema, porque nos mostra como o Cinema mais "arcaico" ainda está cheio de atualidade e de magia, visto que inspirou todo o espetáculo visual verdadeiramente espantoso (porque aproveita todas as potencionalidades tecnológicas do cinema americano moderno e, mais propriamente, do 3D - que aqui é utilizado de uma maneira que recompensa o facto de o bilhete, para filmes deste tipo, ser quase ao dobro do preço normal - além de fazer um uso muito vivo e quase "pinturável" da cor e da fotografia, o que torna o filme num festim totalmente dedicado à vista humana) de «A Invenção de Hugo», e antes, a história e as personagens criadas por Brian Selznick. Pecando por vezes por uma certa ligeireza demasiado... ligeira (com o lado infantil da obra a influenciar a aparição de algumas piadas um pouquinho básicas demais, oriundas do estilo mais banal dos filmes mais banais), e por um argumento não muito bem estruturado e suficientemente interessante para justificar a duração da fita (porque a narrativa, se formos a ver bem, não é assim tão complexa e original, e deixou-me uma certa sensação de vazio no final. O filme parece muito vasto mas no fundo tem uma história simples. Muito, muito simples. Mas as coisas boas compensam muito bem esta falta de solidez, coerência e construção do argumento), «A Invenção de Hugo» é um filme sobre a paixão pela arte e pela arte dos sonhos, das ilusões e da magia, com a história de Hugo, um rapazito vagabundo que mora numa estação parisiense e que descobre todo um Mundo relacionado com os primeiros anos de vanguarda do Cinema Mudo... e com uma certa viagem até à Lua. No fundo, é uma obra muito bonita que pretende homenagear o Cinema como só Scorsese, com a sua incrível cultura e experiência cinematográficas, poderia executar. Tem grandes momentos de Cinema, e apesar de estar virado para um lado mais "mainstream" (como se sucede com alguns dos últimos filmes do cineasta). não deixa de ser um filme à la Scorsese.


Outro ponto forte de «A Invenção de Hugo» é, sem dúvida, todo o elenco. Com especial destaque para Sacha Baron Cohen, que no papel de polícia da estação de comboios está muito divertido. É um ator e humorista muito versátil (basta ver todo o vasto leque de personagens do seu reportório: Ali G, Borat, Bruno e O Ditador, as mais emblemáticas) e que, além de muito dotado para a palermice, mostra como consegue ser bom também nas partes mais sérias (apesar de, na fita, ser quase sempre vítima da palhaçada), o que me fez ficar ainda mais curioso para ver como se sairá como Freddie Mercury no biopic sobre o vocalista dos Queen que há muito tempo anda a ser preparado. Os miúdos têm boas interpretações (apesar de Chloë Grace Moretz me parecer, por vezes, um bocadinho forçada na personagem, ao contrário de Asa Butterfield). Ben Kinglsey está, pura e simplesmente, extraordinário, no papel do cineasta George Meliès, num tributo ao seu Cinema e à sua prodigiosa inventividade. A banda sonora está muito boa, a montagem, da autoria de uma veterana da filmografia de Scorsese, é fantástica. «A Invenção de Hugo» mostra como o impacto que, para outras gerações, tiveram a maioria dos filmes mudos, alterou-se ao longo das gerações, e que, para nós, hoje em dia, não nos são tão apelativos, pelo menos pelo lado preconceituoso da coisa. Mas apesar disso, Scorsese alerta não só para o conhecimento verdadeiro e abrangente deste Cinema (há muitas pérolas para serem descobertas), como para a sua urgente preservação, para não se perderem obras tão importantes para a própria História mundial, como aconteceu com grande parte das fitas de Meliès. Cada um de nós tem uma responsabilidade nisto, e mesmo que seja só pelo facto de termos de conhecer o Cinema Mudo, já estamos a dar uma grande contribuição para a "causa" de Scorsese.

★ ★ ★ ★

Comentários

  1. Eu, veja as vezes que vir, não consigo mesmo gostar deste filme. O pior de todos os que já vi do Scorsese, uma canseira descomunal, até recordo de quase passar pelas brasas no cinema... Já viste o Casino e o The Age of Innocence, os meus preferidos dele?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eheh eu gostei :) O Casino já, e gostei muito, Age of Innocence é que ainda não. Os meus preferidos são os três mais conceituados: Taxi Driver, Goodfellas e Raging Bull :)

      Cumprimentos,

      Rui

      Eliminar

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).