segunda-feira, 11 de março de 2013

The Master - O Mentor


Uma das obras cinematográficas mais badaladas deste (ainda) fresco ano de 2013 no nosso país, «The Master» é o mais recente filme de Paul Thomas Anderson. Esperado ansiosamente pelos fãs do cineasta, que se espalham um pouco por todo o Globo, o filme tornou-se ainda menos consensual que o seu antecessor, «Haverá Sangue» (quer dizer, se espreitarmos a curta carreira de Anderson, perceberemos que os seus filmes nunca são totalmente apreciados pelo povo cinéfilo). A controvérsia de «The Master» iniciou-se logo meses antes da sua estreia, com as alegadas comparações da história do filme, que relata a vida de o criador de uma seita com o nome de «A Causa», aos primórdios da Cientologia e ao homem que fundou a religião mais famosa de Hollywood. E continuou a propagar-se até hoje, depois de toda a temporada de prémios que, na minha opinião, deixaram este filme injustamente de parte. Contudo, a meu ver, não é a comparação com uma seita real que faz de «The Master» ser um filme tão bom, para mim. Esta obra tem tanta coisa dentro dele que, por vezes, parece querer dizer muita coisa e ao mesmo tempo é como se não estivesse a passar nada para o espetador. É um filme profundo, uma fita complicada e um pouco pesada, não sendo aconselhável para quem deseja passar uma boa tarde a ser entretido com um filme ligeiro. «The Master» é um filme difícil de entrar, mas se se aderir a todo este ambiente e personagens, é impossível querer sair dele. É mais uma grande obra de Paul Thomas Anderson, que marca o Cinema Moderno.


«The Master» centra-se em duas personagens e as relações que estabelecem uma com a outra, embora se tratem de indivíduos com histórias de vida completamente distintas: o primeiro é Freddie Quell (interpretado por Joaquin Phoenix, um dos atores mais versáteis e marcantes desta geração, que toca pelo seu estilo único, perturbante e arrasador - foi nomeado para o Oscar de Melhor Ator este ano, perdendo para outro Grande: Daniel Day-Lewis), um homem alcoólico, perturbado, agressivo e complicado; o outro é Lancaster Dodd (mais um Grande, Philip Seymour Hoffman, que já interpretou tantas personagens e em tão grande variedade que deixará com certeza o seu lugar na História do Cinema Americano. Foi também nomeado para Oscar em 2013, mas na categoria de Melhor Ator Secundário), o carismático líder de "A Causa", uma seita bizarra com muitos seguidores, e que convida Freddie Quell a conhecê-la melhor, acabando por fazer parte do seu grupo de fiéis... ou talvez não (isto fica à consideração de cada um - vejam o filme e perceberão porquê)... o resultado é uma história controversa, uma amizade peculiar, e uma forma nova e invulgar de se ver a vida e suas particularidades, algo que Paul Thomas Anderson já habituou os espectadores, que aposta regularmente em iniciativas sempre alternativas e que nunca ficam desaproveitadas (pelo menos esse é o caso dos outros dois filmes que vi do cineasta...) e que não deixam ninguém indiferente. Há os que podem ficar com sono a ver «The Master», e outros poderão não entender qual a magnificiência que este sacanazinho vê nesta obra moderna (algum opinador poderá soltar as "sábias" palavras: "este gajo passa a vida a ver filmes a preto e branco que depois se entusiasma com tudo o que tenha cor!" - OK, desculpem, não sei o que se passa comigo hoje, prossigamos!), e como já referi, não é um filme fácil. Mas ele tem mesmo alguma coisa de especial. Pelo menos para mim!


Penso que «The Master», tal como todos os grandes filmes que pretendem agitar a normalidade das coisas, terá de esperar alguns anos para ser verdadeiramente reconhecido. Não se trata de uma obra que seja compreendida e "rotulada" após a sua estreia. É daqueles poucos filmes que precisam de algum tempo para "amadurecer" e atingir camadas maiores de fãs. Tal como se sucedeu com «2001: Odisseia no Espaço» (apesar do filme de Kubrick nada ter a ver com o de Anderson) e com os que apreciam o vislumbramento onírico de «A Árvore da Vida», por exemplo. Não tenho dúvidas que, em edições futuras de listas conceituadas como o AFI e a Sight and Sound, pelo menos um dos múltiplos jurados considerará colocar «The Master» no seu top. Mas pode ser feita uma comparação entre as três fitas: todas mostram um confronto entre a(s) crença(s) e a racionalidade do Homem, e a forma como a sua mentalidade muda através dos atos que comete (no caso de «The Master», assistimos a uma mudança - ou talvez não... - de Freddie Quell em relação à sua provocadora e chocante maneira de ser, demonstrada nos minutos iniciais do filme). «The Master» explora perguntas, mas no final deixa-nos com mais questões ainda por responder. É o olhar preciso através de uma câmara de uma seita religiosa e de como, apesar de para as pessoas que estão fora dela parecer ridícula, é tratada com enorme respeito e dedicação pelos seus seguidores. «The Master» é também uma história de outsiders (um estatuto que Phoenix e Hoffman também acarretam na vida real, participando, na maioria das vezes, em projetos menos populares e afastando-se do glamour e falsidade da fama de Hollywood) e da constante busca do ser humano pela resposta ao irrespondível (esta palavra existe? Senão olha, dou uma de Mia Couto e começo a inventar palavras). Possui uma grande fotografia e cinematografia, além de uma banda sonora escolhida a dedo. Esta obra comprova o método perfecionista, mas inovador, de Paul Thomas Anderson, e que continua a marcar o cineasta como um dos poucos dos EUA que pretendem mesmo mudar o Cinema e trazer sempre algo de novo a uma Arte que é constantemente atacada nos nossos dias. Nada mais posso acrescentar, já esvaziei o depósito de "frases feitas para convencer pessoas a ver um filme" que tinha guardadas para esta crítica. E o filme deixou-me muito pouco de interessante para poder dizer, porque vale por ele próprio e não pelo que qualquer indivíduo possa escrever sobre ele. Eu sei que me repito frequentemente, principalmente no tipo de desculpas que dou para não ter grande coisa a dizer sobre fitas. Mas «The Master», para mim, não foi uma fita qualquer. E por isso até aceito as desculpas que dou a mim próprio desta vez.

* * * * *

2 comentários:

  1. Excelente crítica Rui. É fantástica forma como transcreves os sentimentos para a pequena caixa de texto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado André! :) Escrevo o que me vai na alma, e o que pesquiso pela net... nada de especial, desde que consiga com que as pessoas vejam filmes! ;D

      Um Abraço,

      Rui

      Eliminar

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).