Obrigado por Fumar: o poder da argumentação nas coisas mais inacreditáveis

«Obrigado por Fumar» é uma surpreendente comédia, mordaz e provocadora, que não aponta o caminho certo a percorrer, mas sim uma crítica complexa aos dois lados de uma situação: o tabaco e a sua permissão e/ou proibição junto dos atuais consumidores e dos futuros "adeptos" do vício. Sendo a primeira longa-metragem do realizador Jason Reitman, um cineasta que tem dado que falar em Hollywood com o seu estilo irreverente e apelativo, muito bem realçado na sua ainda curta filmografia, onde se incluem filmes aclamados e nomeados para um sem-número de prémios, como este e também «Juno», «Nas Nuvens» e o mais recente «Jovem Adulta», o filme possui um tom corrosivo e severamente crítico (ou talvez não - depende da perspetiva de cada um) à indústria tabaqueira, aos lobbies, ao marketing e à forma como a argumentação é utilizada para persuadir os consumidores a comprarem produtos ou a aderirem a certas e determinadas causas e ideias. «Obrigado por Fumar» segue uma linha narrativa linear e que envolve muito (e bom) diálogo, mas acaba por surpreender e entusiasmar por não pretender mostrar que há bons nem maus neste jogo de economia, de interesses e de política. É claro que Reitman e o autor do livro que foi adaptado para o filme, Christopher Buckley, têm as suas ideias próprias e incluem-se numa das faces da moeda, mas é dado ao espectador a liberdade de perceber qual é a posição com que se identifica mais, o ideal de "liberdade" tal como o protagonista do filme muitas vezes afirma ao longo da ação do mesmo. Essa ambiguidade perpassa toda a narrativa de «Obrigado por Fumar» e achei isso uma das suas características mais curiosas.


«Obrigado por Fumar» é contado na primeira pessoa por Nick Naylor, o protagonista da história do filme, que representa uma grande indústria tabaqueira e que consegue persuadir as pessoas da certidão e da veracidade das ideias que tem de divulgar. Eis o grande poder do diálogo: através do uso adequado de certas palavras, de certas frases e de certos modos de falar, o Homem consegue sempre aquilo que deseja. E Nick, uma pessoa envolvida num negócio que suscita à opinião pública muitas dúvidas quanto à saúde dos seus consumidores, alcança sempre o que quer, através de manobras engenhosas e de planos muito inteligentes que conseguem manipular as pessoas que o ouvem, e nós próprios, espectadores, também. Ouvimos as coisas estúpidas que Nick defende, mas ele di-lo com tanta seriedade e acreditar tanto no que profere que é impossível não "acreditar" nele. Nick é uma pessoa que se sujeitou a fazer o trabalho "sujo" porque, segundo as suas próprias palavras, "todos temos uma hipoteca para pagar", mas está tão convencido da veracidade dos seus argumentos que depois, quando é sujeito a passar pelas coisas que defende, consegue arranjar sempre uma escapatória para poder continuar a dizer que tem muita razão naquilo que diz. E é este o ponto mais forte de «Obrigado por Fumar»: o argumento e as personagens, com estados de espírito muito distintos e interessantes, que nos fazem pensar que, apesar da ambiguidade do filme, existe nele um grande retrato dos americanos e dos seus valores mais ou menos retrógrados, quer para um lado, quer para outro. A fotografia do filme auxilia ao ar mais "sério" desta comédia, tal como o grande elenco de atores, que tornam as suas personagens alvo de grande respeito, apesar de poderem ser um pouco "irreais" para nós (destaco principalmente neste parâmetro a interpretação de Robert Duvall). «Obrigado por Fumar» mostra o que se sucede quando levamos o que acreditamos até às últimas consequências, e através da realização de Reitman, dinâmica e adequada ao ambiente e à narrativa, observamos também como não é só a argumentação que sabem persuadir, como o envolvimento dos media nas nossas vidas tem um grande poder na veracidade ou na falsidade que atribuímos na nossa opinião dos diversos temas da atualidade que se nos apresentam (porque sim, sobre tudo nós temos alguma coisa sempre para opinar. Somos seres humanos, não há que evitar!). Com diálogos muito bem feitos e estruturados, totalmente "americanizados" mas sem recorrer a clichés ou estereótipos de maior, «Obrigado por Fumar» deixa as perspetivas da questão para nós formularmos a nossa própria opinião sobre a mesma. Afinal, a questão do tabaco e de tudo o que está nele envolvido, tem muito que se lhe diga...

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