domingo, 3 de março de 2013

O Tesouro da Sierra Madre


A água é valiosa, às vezes mais valiosa que o ouro.

«O Tesouro da Sierra Madre»: um dos clássicos mais "clássicos", no puro sentido do termo, de toda a década doirada que foi a de quarenta no Cinema de Hollywood. Um filme que caracteriza totalmente a indústria cinematográfica americana daquela época, as suas tendências, as suas perspetivas da Sétima Arte, e os seus trabalhadores, atores e realizadores, que se regulavam por valores e códigos muito diferentes dos que alguma vez seriam usados nas décadas futuras. Uma obra de um dos maiores estúdios dos EUA, a Warner Brothers, e que simboliza tudo o que o grande entretenimento das narrativas americanas pode proporcionar aos espectadores. E é impossível não se gostar deste grande filme, repleto de emoções fortes e de lições para a vida de qualquer ser humano, independentemente da idade ou da ideologia. Protagonizada pelos Grandes Humphrey Bogart, Walter Huston e Tim Holt, e dirigida pelo realizador John Huston, a epopeia de «O Tesouro da Sierra Madre», em que o trio de protagonistas busca por ouro, pela riqueza e pela glória, simboliza todas as lutas do ser humano para alcançar os seus objetivos e de todas as consequências que se sucedem ao conseguir atingir os seus sonhos. Ambientada no México de princípios do século XX, mais propriamente na segunda década do mesmo, onde se viveram tempos agitados marcados por uma forte Revolução que avassalou o país, a aventura que Fred C. Dobbs (Bogart) e Bob Curtin (Holt), os dois homens em busca de uma vida melhor que a que o ambiente proporcionava, e o experiente garimpeiro Howard (Huston), vão viver nas grandes montanhas da Sierra Madre, mostra a importância da esperança e da força de vontade nas nossas vidas, e a forma como encaramos as conquistas que fazemos ao longo da nossa existência e as maneiras que as mesmas influenciam a nossa forma de ser, estar, e sentir perante os outros.


«O Tesouro da Sierra Madre» contém de tudo um pouco, sabendo conjugar todos os ingredientes utilizados da melhor e mais equilibrada maneira possível (para a época em que foi feito) para poder sair o produto final que, passados mais de sessenta anos, continua a encantar gerações: uma história bem pensada, escrita e concebida (que é uma adaptação da obra literária homónima do autor B. Traven); excelentes interpretações a partir de personagens muito bem compostas e detalhadamente impressionantes, a cargo dos atores Humphrey Bogart, Walter Huston (que ganhou um Oscar de Melhor Ator Secundário pela sua participação neste filme) e Tim Holt (o brilhante protagonista da obra de Orson Weles «O Quarto Mandamento»); a realização ritmada e empolgante de John Huston (um dos grandes cineastas de Hollywood e que também era um grande ator - veja-se a sua interpretação no celebérrimo «Chinatown» realizado por Roman Polanski); e por fim, todas as paisagens e ambientes onde decorre esta história sobre ouro, humildade, ganância e sede de poder, e onde as personagens se movimentam, interagem, discutem e rivalizam. Este último ingrediente é não só fundamental como também indissociável de todo o universo, situações e personagens de «O Tesouro da Sierra Madre», manejado na perfeição pelo realizador e pela sua trupe técnica, e também pela cinematografia a preto e branco, que lhe dá mais "cor" (em termos da simbologia do filme e da sua importância sociocultural) do que as técnicas inovadoras em voga na Hollywood da época, que davam um vislumbre colorido especial aos seus filmes. Depois de ter acabado de ver esta obra encontrei uns excertos colorizados da mesma no Youtube que, além de soarem a falso - o grande problema da colorização dos filmes, que já se tornou um hábito para certos espetadores, graças às reposições constantes de clássicos nesse formato como «Do Céu Caiu Uma Estrela» nas televisões americanas - , me fizeram perceber que, se fosse filmado hoje em dia, com todas as técnicas disponíveis, «O Tesouro da Sierra Madre» tornar-se-ia um filme banal. E felizmente isso não aconteceu... pelo menos até hoje. Mas senhores magnatas da indústria, não pensem em remakes ou sequelas deste filme excelente, porque não merece ser danificado. Por favor.


«O Tesouro da Sierra Madre» está repleto de grandes cenas (existem muitas que merecem ser destacadas, mas menciono aqui uma que foi um dos primeiros momentos do filme que me aumentou a curiosidade sobre o desenrolar do mesmo: a cena da briga no bar. Parece uma cena simples, mas para mim está carregada de simbologia, principalmente quando Bogart e Holt retiram, da carteira do vigarista que os tinha contratado para um trabalho e que depois não lhes pagou, apenas a quantia que ele lhes devia e deixando tudo o resto. Este pequeno gesto mostra ainda o pequeno apego pelo dinheiro das personagens e a forma humilde como pretendem fazer justiça, sem quererem espezinhar ninguém demasiadamente - algo que muda na personagem de Bogart ao longo da história), grandes diálogos (a famosa frase, muitas vezes retorcida, dos "stinking badges"), grandes planos de câmara e grandes momentos de banda sonora. É um filme que tem tudo e que, sendo um verdadeiro "blockbuster" para a época em que estreou, permanece hoje como uma das fitas mais importantes da História do Cinema Americano, fazendo parte de tudo o que é lista especializada em destacar quais são os melhores filmes de todos os tempos (a do American Film Institute, por exemplo). Trata-se de um blockbuster que não pretende mostrar apenas algo que agrada ao espectador, como também apoiar uma visão humanista da vida e da urgência de se voltar aos valores da humildade, da sinceridade, da partilha e da honestidade. Infelizmente, tanto nos anos quarenta como no século XXI, os problemas morais da sociedade mantêm-se totalmente iguais. Mas «O Tesouro da Sierra Madre» mostra como a obsessão pela riqueza e pelo luxo conduzirão sempre aos maus caminhos da vida e a uma mentalidade quase animalesca por parte de quem nutre essa obsessão (algo que está muito explícito na personagem de Bogart, que à medida que fica mais rico, mais desconfiado e irracional se torna para com os seus dois companheiros). A personagem de Walter Huston simboliza, de uma forma alegórica, tudo o que o ser humano deveria representar: alguém que gosta de sonhar alto, mas nunca querendo deixar ninguém para trás, e que tenta ser comedido nas suas ações para não prejudicar nenhuma das pessoas que o rodeia. Esta personagem, apesar de se tratar de uma entidade ficcionada, tem muito mais para ensinar que muita malta que por aí anda e que gosta de debitar coisas sem ter conhecimento de causa das mesmas (classe política... cof cof cof). Eu acredito que os filmes podem ajudar-nos muito a compreender o dia-a-dia e reforçar as atitudes corretas que devemos tomar em cada situação. Este filme é um caso disso, e penso que deveria fazer parte do Plano Nacional de Cinema, para os estudantes poderem aprender, desde cedo, o quão importante é a solidariedade que temos de ter uns com os outros. Contudo, o Mundo continua a girar, independentemente dos bitaites sobre filmes que eu mande ou não...

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