sexta-feira, 29 de março de 2013

O Inimigo Público: o pontapé de saída de James Cagney


«O Inimigo Público», elaborado antes do "Production Code" que, anos depois, viria a regular os "comportamentos" das obras cinematográficas, foi uma obra relevante pelo impulsionamento que teve para os filmes de gangsters nos EUA, pela sua importância histórica e cultural que marcou a sociedade americana, e porque foi o filme que lançou aquele que é um dos atores mais míticos da indústria de Hollywood: James Cagney. Se a produção não tivesse mudado de ideias e tivesse deixado com que Cagney continuasse a ter um papel secundário, como era suposto, muita coisa não teria sido alterada na História do Cinema. E «O Inimigo Público», hoje em dia, perderia todo o seu interesse. Na noite de quarta feira vi o filme e percebi que apenas o estava a ver por ser protagonizado pelo James Cagney, que não só é uma figura lendária como tem uma interpretação fabulosa nesta obra. A maioria dos restantes elementos que compõem a fita já estão algo ultrapassados ou não têm substância tanto hoje como não tinham há oitenta e dois anos, quando estreou nas salas de cinema americanas. É um filme de gangsters, algo experimental e primário em termos técnicos, narrativos e interpretativos (muitos atores ainda não se conseguiram adaptar muito bem ao cinema sonoro, uma relativa novidade na época), e hoje em dia, «O Inimigo Público» é um filme interessante de se ver, mas que não chega tão facilmente às audiências atuais como os clássicos posteriores protagonizados por James Cagney, como «Anjos de Cara Negra», «Heróis Esquecidos» e «Fúria Sanguinária». É um filme de puro entretenimento, sem grandes intenções artísticas. Tem grandes momentos, totalmente propiciados pelo Grande Cagney e pela realização que, apesar de muito rudimentar e desorganizada em muitas partes, ainda possui uma ou outra cena que revela alguma mestria pela mão do realizador de «O Inimigo Público», William A. Wellman. Vi o pequeno documentário extra da edição DVD, onde críticos, historiadores e realizadores de Cinema (incluindo o Mestre Martin Scorsese) tecem elogios rasgados ao filme e ao quão excelente ele é. Não fiquei com essa sensação, mas para quem gosta de descobrir tesouros relevantes cinematográficos, talvez «O Inimigo Público» possa ser uma boa opção. Pena que esteja numa cópia tão degradada (afinal o National Film Registry serve para alguma coisa ou quê?), mas aparte dos problemas de restauro e dos múltiplos problemas do filme, «O Inimigo Público» é uma relíquia americana, e que ainda surpreende. Especialmente pelo twist final que, ainda hoje, revela ser uma pancada algo forte em termos de violência visual.


E de violência é que se pode retirar grande parte da importância cultural de «O Inimigo Público» no cinema americano. Para a época, foi um filme que chocou as audiências pela forma inovadora como mostrou as cenas pesadas, envolvendo tiros, pancadaria e certas ameaças psicológicas por parte de Tom Powers, o implacável e sanguinário gangster interpretado por James Cagney. E apesar de, em grande parte, já não ser um filme violento hoje em dia, existem certas cenas que são completamente assombrosas hoje ainda, e tudo por "culpa" da atuação vibrante e inigualável de Cagney. Por vezes parece que «O Inimigo Público» vive apenas do facto de estar a inovar a violência e esquece-se um pouco de tudo o resto - a história falha, os restantes atores também, a câmara muitas vezes não está bem direcionada, etc. Mas vale mesmo a pena centrar todas as atenções em Cagney e nos seus movimentos, nas suas reações, nos seus modos de se exprimir. Este filme só confirmou aquilo que eu já tinha confirmado com as três outras fitas protagonizadas pelo ator e que eu vi antes: é um enorme talento e um indivíduo que preenche o ecrã de uma forma extraordinária. Ainda hoje, em 2013! O filme centra-se na ascensão ao poder do bandideco Tom Powers, que começando com pequenos crimes em criança, evolui sempre na sua "profissão" acabando por, depois da I Guerra Mundial, estar envolvido num dos muitos negócios ilegais que caracterizaram o período da Lei Seca dos EUA. No meio do drama do poder existe uma história familiar, onde os dois irmãos Powers se rivalizam por pensarem de maneira diferente sobre o que é ter um emprego a sério. E no meio de pequenas situações, na sua maioria, sem um grande ritmo ou um entusiasmo por aí além, auxiliados por uma montagem mais ou menos competente, acompanhamos as andanças de Tom, os seus crimes, os seus amores e os seus dilemas pessoais e profissionais. Mas se não fosse o senhor James Cagney, «O Inimigo Público» seria, todo ele, uma banalidade quase-total. Já disse isto várias vezes mas penso que é importante realçar mesmo este fator. Foi a única coisa que me fez ver o filme todo do princípio ao fim. Este sim, era um ator fabuloso, que sabia agarrar as pessoas, de uma maneira tão invulgar e fascinante.


E sinceramente, não sei mais que dizer sobre «O Inimigo Público». Ao centrar-me na única parte que se salientou para mim desta experiência cinematográfica, perdi-me no que queria ainda escrever sobre o filme. Apesar de ter à minha frente o meu bloco de notas com uma folha em que escrevi uma dezena e meia de tópicos e ideias a retirar da fita, não estou a conseguir transpô-las agora para uma crítica propriamente dita. Mas penso que já disse tudo: «O Inimigo Público» é um filme interessante, que vive de Cagney. Não sei se, na época, o mesmo se passava, mas é o que sinto hoje na nossa época. Mas só por isso o filme tem mais valor do que o suposto: Cagney é Rei neste filme, e apesar de uma realização muito amadora e mais ou menos inadequada, de uma montagem muito incompetente, de um exagero do dramatismo que parece que quer fazer passar o espectador por estúpido em certas partes, o ator sai vencedor porque nenhum das coisas técnicas consegue denegrir a sua performance. Aliás, as cenas demasiado óbvias tornam-se apelativas com Cagney e a câmara até consegue captar bem o estilo de Cagney (bem, é bom que consiga mesmo captar bem alguma coisa, não é?). Resumindo e concluindo: «O Inimigo Público» é um documento histórico essencial para se compreender a cultura e a sociedade americanas de início dos anos 30, as suas preocupações e o que lhe interessava realmente na vida. E com Cagney (e com o facto de podermos ver a ascensão de uma grande estrela), e também aquele punhado de cenas que ainda são verdadeiramente espetaculares (são poucas, mas são boas), o filme passa por ser algo mais do que um simples achado "arqueológico". Felizmente.

* * * 1/2

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