O Grande Conquistador (Play it again, Sam)

Anos antes de «Annie Hall», «Hannah e as suas Irmãs», «Crimes e Escapadelas» e tantos outros clássicos que definem muito o Cinema Novo Americano das últimas décadas, Woody Allen escreveu e protagonizou «Play It Again Sam» (com uma tradução para a língua portuguesa tão fraquinha que, por isso, não vai ser mencionada ao longo desta crítica). Primeiro foi uma peça de teatro, mas a ideia e o conceito que Allen criou para esta história tinha tanto de cinematográfico que, pouco tempo depois da estreia nos palcos, a sua obra foi passada para o grande ecrã. Woody Allen já tinha começado a dar nas vistas, com os seus incontáveis espetáculos de stand up comedy e as primeiras experiências que teve na Sétima Arte e que obtiveram um razoável sucesso («Take the Money and Run», um mockumentary satírico, é um desses casos), e com «Play It Again Sam», apenas se pôde reafirmar como um dos grandes artistas cómicos americanos nos tempos futuros, mas que à época estava ainda em fase de "iniciação". «Play It Again Sam» pode ser caracterizado como um dos pontos fulcrais para a evolução cinematográfica de Woody Allen, que aqui interpreta uma personagem neurótica, irritante em parte, e ultra auto depreciativa e em jeito de Calimero, repleta de tiques, obsessões e muitas manias, que é nada mais do que uma caricatura de si próprio, e que iria permanecer em muitos dos seus filmes posteriores (e mesmo quando tem outro ator a fazer o "seu" papel - veja-se Owen Wilson no recente e aclamadíssimo «Meia Noite em Paris»). Não sendo realizado por Woody Allen, «Play It Again, Sam» vive da criatividade e do talento cómico do autor, que por si só tem um papel muito mais significativo na direção deste filme do que o realizador do mesmo. Esta é uma comédia engraçada, divertida e mais ou menos bem organizada e ritmada, devido à presença de alguns toques de "experimentalismo" (técnico e narrativo) que mostram a ansiedade de Woody Allen querer aprender a trabalhar no meio cinematográfico e a surpreender os seus seguidores, sendo por isso uma peça indispensável para qualquer fã deste exímio comediante, que influenciou, influencia e influenciará tantos aspirantes a artistas do humor.


«Play It Again, Sam» faz alusão a um dos filmes mais amados de sempre pelo povo cinéfilo, «Casablanca», e também ao engano perpetuado durante décadas pelas pessoas que pretendem citar este famoso filme romântico realizado por Michael Curtiz e protagonizado pelo maravilhoso par Ingrid Bergman e Humphrey Bogart. O filme inicia-se com os minutos finais de «Casablanca» e com Allan, o personagem interpretado por Woody, a deliciar-se com este re-re-re-re-revisionamento do clássico e com Rick, a personagem de Bogart (é aconselhável visioná-lo primeiro, não tanto por uma questão de spoiler ou não, mas para se perceber, posteriormente, o porquê de Allan ter uma fascinação por Bogart e pela psicologia das suas personagens). A partir daí, «Play It Again, Sam» cria uma história que gira à volta do facto de todo o ser humano se sentir, pelo menos uma vez na vida, ligado aos personagens que vê no ecrã, ou como "aluno" destes seus "professores" cinematográficos. Este é o caso, então, de Allan, um jornalista de cinema que vê em Humphrey Bogart um modelo e um exemplo a seguir, principalmente no que diz respeito às mulheres. Allan é um desastre com o sexo oposto e, para ele, Bogart é o pico da montanha que tem de alcançar, para poder mudar a situação dos falhanços das suas relações. E a partir disto, o próprio Bogart conversa com o próprio Allan (parabéns à magnífica imitação do ator por Jerry Lacy, está mesmo muito semelhante ao original!), tornando-se o seu guia, que o leva a comportar-se de certas formas nos relacionamentos que a vida lhe vai mostrando. Mas no fundo, Bogart acaba por dar lições a Allan não só no Amor, como também para a própria vida do crítico. Com «Play It Again, Sam», Woody Allen desmistifica a ideia com que nós ficamos da "superioridade" das personagens dos filmes em relação à realidade, que nos parecem perfeitas à primeira vista e sem qualquer razão para nos queixarmos delas. O filme é também uma crítica ao amor e às falhas e aos erros das relações de amizade e das relações amorosas (principalmente quando Allan começa a apaixonar-se pela mulher do melhor amigo, interpretada por Diane Keaton) e que, apesar de não ser uma reflexão tão aprofundada e interior a estas temáticas como Woody Allen iria elaborar anos mais tarde (como no oscarizado «Annie Hall», também com Diane Keaton), dá que pensar. A personagem de Humphrey Bogart surpreende pela forma tão próxima como as suas palavras nos são transmitidas e como nos faz perceber que, apesar de se tratar de um duro e de uma pessoa namoradeira e inigualável com as mulheres, também é alguém com problemas e com mais do que pensar do que nessas obsessões, que são apenas uma ínfima parte de tudo o que forma o nosso quotidiano.

Woody Allen e Humphrey Bogart... ou será que não?
Por fim, apenas refiro outros pormenores que mostram como «Play It Again, Sam» é o indício dos primeiros passos de algumas e significativas técnicas de linguagem e de narrativa utilizadas por Woody Allen, e que este voltaria a colocar em outras obras cinematográficas: são elas, principalmente as diversas personalidades do protagonista e a forma como o seu pensamento diverge e converge com a realidade da situação que está a presenciar (quando, por exemplo, a sua mente "projeta" a figura de Humphrey Bogart, levando-o a crer que está mesmo a conversar com ele mesmo que ele não esteja na realidade ali - algo que também presenciamos porque estamos a dar atenção ao pensamento de Allan) e a forma como entramos na cabeça do protagonista e da ideia muito pessoal e própria com que ficamos do seu estado de espírito, do seu modo de vida, das suas ambições e dos desgostos que a vida lhe vai dando. Tudo isto caracteriza, além do neurotismo já abordado mais atrás, a comédia do autor e cineasta Woody Allen. E «Play It Again, Sam» torna-se um filme curioso nessa forma como nos mostra que, apesar de mostrar algum desequilíbrio e de estar ultrapassado em certas partes, continua a ser uma grande prova da originalidade do comediante e de como o seu humor e a sua forma de ver as coisas acaba por dizer algo a cada um de nós. «Play It Again, Sam» recorda não só os tempos áureos do Cinema Americano clássico e da forma como esta Arte lidou com o Amor ao longo das décadas, como aborda também a universalidade das questões amorosas, que acabam por tocar cada um de nós de alguma maneira em especial.

* * * * 

Comentários