quarta-feira, 27 de março de 2013

Mentira (Shadow of a Doubt)


«Mentira» era um dos filmes preferidos da filmografia do cineasta que o realizou, Alfred Hitchcock, como também da sua mulher e frequente colaboradora dos seus filmes em vários parâmetros, Alma. O Mestre gostava do conceito de "assassino que entra num ambiente calmo, pacífico e sem razões para ocorrer qualquer tipo de crime". E essa é, efectivamente, uma das premissas deste filme, uma das primeiras obras do realizador a ser elaborada em solo americano e um dos seus primeiros grandes sucessos nos EUA, e que se mantém importante hoje e por muitas mais gerações, por ter sido incluído também na área de preservação de filmes do National Film Registry. E «Shadow of a Doubt», título original - e bem mais sugestivo - desta fita do Mestre do Suspense, contém todos os ingredientes que caracterizam, para mim, o melhor que este Génio do Cinema soube proporcionar à arte cinematográfica e aos espectadores fanáticos por extraordinários e envolventes filmes: personagens que não são o que parecem, constantes reviravoltas narrativas, a intromissão do pacifismo de uma pequena cidade pela inclusão de uma personagem, cheia de segredos, que faz parte de uma família lá residente... há muita coisa para ser dita, mas que a minha mente não é evoluída o suficiente para conseguir expressar tudo o que há para dizer pela palavra escrita. «Shadow of a Doubt» tornou-se também um dos meus Hitchcocks de eleição, de entre o muito pouco que já tive oportunidade de visionar entre a vastíssima filmografia do realizador, pela sobriedade da realização, a profundidade das interpretações, que só ao longo do filme saberemos o quão profundas são (a princípio parece tudo alegre, falso, hipócrita e feliz, mas é só a aparência de fachada que Hitchcock nos pretende transmitir). O humor sarcástico e irónico (ao melhor estilo britânico), recorrente nos filmes de Hitchcock e que aqui marca uma presença muito vincada, é sempre combinado com o suspense ao mais alto nível e com uma história de intrigas e de segredos que envolve um jogo de "gato e rato" que é impossível ficar-se indiferente.


Joseph Cotten (aqui numa interpretação arrepiante e enigmática, numa personagem com, digamos, duas personalidades) é o co-protagonista de «Shadow of a Doubt», sendo o Tio Charlie que vai visitar a irmã, o cunhado e as sobrinhas numa pequena aldeola ao melhor estilo clássico do "American Way of Life". Estando envolvido numa série de assassinatos e sendo um alvo a encontrar pela polícia, o Tio Charlie pensa que é na pacatez do lar familiar que conseguirá encontrar sossego e uma escapatória às perseguições policiais de que tem sido "vítima". Contudo, nos filmes de Hitchcock, nada do que parece ao princípio acaba por se manter igual durante o desenrolar da ação: tudo começa na maior via da normalidade, e depois... é o que se vê. Os indícios deixados pelo homicida começam a criar algumas suspeitas em relação a uma pessoa que lhe é muito querida e que mal consegue acreditar na culpa de Charlie na corrente de assassínios que começou a dar que falar na imprensa... e entretanto, há uma sub-plot muito interessante (e deveras cómica), que envolve as múltiplas conversas entre o cunhado de Charlie e Herbert, um vizinho seu amigo, que se reunem para discutirem o seu fascínio pela "arte" do homicídio (ou seja, são dois alter-egos de Alfred Hitchcock a falarem entre si - um pouco como o diálogo inicial de «O Desconhecido do Norte Expresso», de que me recordei bastante enquanto estas cenas da sub-plot surgiam). Entretanto apercebemo-nos como, a pouco e pouco, e apesar da aparente atmosfera de "cinema clássico" que existe em «Shadow of a Doubt», o filme possui uma certa lógica de desconstrução do formato convencional de se contar uma história e dos sentimentos que devem ou não ser suscitados no espectador - uma das marcas do estilo de Hitchcock, seguramente. Muitas das personagens do filme são aos nossos olhos irritantemente queridas e simpáticas, mas depois apercebemo-nos como algumas acabam por se desconstruir e mostram possuir ter algo de maior interesse para nós.


«Shadow of a Doubt» trata-se de um filme único, construído de forma inigualável na montagem, nos pormenores e na continuidade das cenas. A forma como Alfred Hitchcock dirige sempre a câmara para aquilo que interessa que o espectador veja mesmo num determinado momento, a cada diálogo e a cada situação, é um ponto que destaco pela importância acrescida que neste filme é dado a este fator (como por exemplo, numa cena em que a família está a jantar e um dos parentes, ao falar de algo que estivesse direta ou indiretamente ligado com o Tio Charlie (já não me recordo a 100% de todos os pormenores, eu contemplei este filme há mais de uma semana), e a câmara foca-se apenas na face do ator Joseph Cotten e na forma como ele reage a essa dita notícia. No teatro, por exemplo, temos de ser nós a decidir focar o olhar naquilo que mais nos interessa no palco. No cinema, tem de ser o realizador a escolher o melhor plano, a melhor situação, o melhor ângulo. E Hitchcock sabe mesmo o que o espectador anseia ver, mas mostra isso sempre de uma maneira alternativa ao esperado. O que é impressionante, pelo menos, naquilo que eu acho mais interessante na arte cinematográfica! Repleto de momentos rápidos e fulminantes, «Shadow of a Doubt» foi, para a minha pessoa, um "estrondo" de filme (não associar aos filmes com níveis elevados de testosterona), que são arrematados com uma grande banda sonora de Dmitri Tiomkin, um dos grandes compositores para Cinema dos anos 40 e 50 em Hollywood, cujas peças aqui contribuem para o climax e o suspense criados por Hitchcock. E o final, também ele repleto de tensão (mas que dá um desfecho ao filme que deve ter tido mão de algum produtor, mas penso que isso não estraga a fita) que é muito diferente do que os estigmas que foram criados em volta do cinema a preto e branco. «Shadow of a Doubt» é um Hitchcock especial, para mim, e um dos seus trabalhos mais fantásticos. Ainda me falta muito para ver, sim senhora, mas esta foi uma excelente obra de se ver!

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