quarta-feira, 27 de março de 2013

Matar ou Não Matar (In a Lonely Place)

Nicholas Ray é um dos mais inspirados autores do cinema clássico norte-americano. Antes de «Rebel Without a Cause», o filme que possui a mais popular personagem da curta carreira de James Dean, e do mítico western «Johnny Guitar», Ray realizou «Matar ou Não Matar», uma história misteriosa e impressionante ainda hoje e que se tornou um dos filmes mais conhecidos da corrente "film-noir" nos EUA. Com o protagonismo de Humphrey Bogart, aqui num dos seus papéis mais surpreendentes e memoráveis, «Matar ou Não Matar» começa por ser uma crítica aos exageros e à falta de qualidade da maioria dos filmes de Hollywood, que pretendem apenas apelar à grandiosidade da arte cinematográfica e não à inteligência e à aprendizagem que as imagens projetadas no grande ecrã podem trazer aos espectadores. Contudo, a história de Dixon Steele (interpretado por Bogart), um argumentista arruinado no tempo presente da fita e que não pretende escrever para projetos que ache desadequados ou que não se identifiquem com os seus gostos pessoais (mesmo que neles esteja muito dinheiro envolvido), segue a pouco e pouco uma linha de maior tensão e de maior suspense devido a uma série de acontecimentos que culminarão na suspeita crescente que as personagens do filme terão de Dixon, culpado de um crime que, aparentemente, não cometeu, mas que faz também a nós, espectadores, duvidar da inocência da personagem à medida que a narrativa se desenrola e nos vamos apercebendo de mais e mais pormenores que inundam este misterioso crime. E só no momento final de «Matar ou Não Matar» é que poderemos saber a resposta a todo o crime que atormenta tanto a relação amorosa que Dixon estabelece com a vizinha, que conheceu nos interrogatórios efetuados sobre o homicídio de que Dixon é arguido. A ambiguidade da personagem é inacreditavelmente surpreendente, mesmo nos dias de hoje, e às tantas eu próprio deixei de acreditar na veracidade do seu testemunho e juntei-me ao "grupo" de personagens que duvida, durante o filme, da perfeita inocência de Steele neste caso. Mas quem terá, afinal, razão?


Em «Matar ou Não Matar», encontramos um Humphrey Bogart em modo abatido, deprimido, e vencido pelo tempo e pela vida. Diria que esta personagem poderia ser uma espécie de continuação do Rick do «Casablanca», depois de fugir do seu café e de ter perdido o amor da sua vida. Mas isto sou só eu a imaginar coisas que nada têm a ver uma com a outra, porque fiquei demasiado marcado pelo filme de Michael Curtiz e pela personagem de Bogart no mesmo. Mas tal como Rick, aqui Bogie também é uma personagem sarcástica e temperamental, só que nesta fita, é num grau mais "evoluído", digamos. Steele já viveu muito, e agora pouco mais tem para fazer do que congratular-se por ainda ser chamado para um ou outro trabalho cinematográfico, apesar dos sucessivos fracassos nos últimos anos da sua carreira. Há também um lado que gostei muito nesta personagem que é a suacompaixão pelos seus compatriotas de escrita e pelas antigas estrelas de cinema de Hollywood que são espezinhadas pelos produtores milionários (como um antigo artista, já velhote, com quem Steele se encontra muitas vezes no bar que frequenta), que sempre andam em busca de novos talentos para meterem mais uns milhares de dólares nos bolsos. Dixon já não é uma estrela, e pouco se importa com isso. Não quer uma vida repleta de glamour, grandes luxos e falsidades mediáticas, e nisto, «Matar ou Não Matar» representa o melhor do classicismo hollywoodiano no seu sentido de reflexão e de filosofia sobre a própria arte cinematográfica e a maneira como cineastas, atores e espectadores encaram o Cinema e todo o seu processo de bastidores, muitas vezes obscuros e com muita corrupção lá pelo meio. «Matar ou Não Matar» possui uma boa banda sonora, marcante e profunda, que dá um tom ainda mais negro e romãntico a todo o filme, que cresce gradualmente de "pãozinho sem sal" a obra riquíssima a diversos níveis, estéticos e narrativos. A realização de Nicholas Ray, segura e grandiosa de uma forma inteligente, auxilia à dita ambiguidade da personagem e à forma de como deixamos de saber em quem acreditar, em que testemunho e em que teoria confiar. «Matar ou Não Matar» não é um filme totalmente típico de Hollywood, cuja chama inovadora persiste nos dias de hoje graças a uma história cativante e romântica sem ser demasiado lamechas, e com um elenco e uma ralização brilhantes e que testemunham o que de melhor se fez no Cinema Americano, no seu período áureo, com uma das suas maiores estrelas e ícones da Sétima Arte em geral, Humphrey Bogart. Um must.

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