sexta-feira, 8 de março de 2013

Haverá Sangue: originalidade no Cinema contemporâneo


«Haverá Sangue» pode ser, em parte, como que um complemento ao clássico «O Tesouro da Sierra Madre» (e que constituiu uma grande influência para a elaboração deste clássico contemporâneo), no que respeita ao tema da riqueza e a toda a mudança económica, política e social que a mesma traz a quem a possui. Uma das mais extraordinárias obras cinematográficas modernas, este filme realizado pelo incontornável Paul Thomas Anderson (responsável por poucos - mas grandes! - filmes, como o inesquecivelmente bizarro «Magnolia» e o mais recente «The Master - O Mentor», uma reflexão mais profunda sobre a vida que foi um filme injustamente esquecido dos Oscares deste ano, nomeadamente no que diz respeito ao Melhor Filme), uma das vozes cinematográficas mais originais do nosso tempo e que tem marcado território entre os Grandes Mestres da História da Sétima Arte. Com influências dos clássicos americanos mas trazendo ao mesmo tempo a sua perspetiva inovadora, complexa e perturbadora da Arte das Fitas, Paul Thomas Anderson mostra como ainda há espaço, nos dias de hoje, para se fazer a diferença e se trazer a inovação no Cinema. Cada novo filme que realiza é esperado com muita ansiedade, e «Haverá Sangue» não foi exceção, arrecadando diversas nomeações para os Oscares desse ano, conquistando duas, a de Melhor Fotografia e a de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis, o segundo prémio da Academia de um artista que este ano conquistou a terceira estatueta da sua carreira (tornando-se o ator mais premiado de sempre pela Academia) pela sua magnífica prestação em «Lincoln».


«Haverá Sangue» inicia-se de uma maneira invulgar e comprometedora que não nos diz muito do que poderemos esperar de todo o seu enredo posterior. E ainda bem, porque esta se trata de uma história que desde o princípio se mostra original, complexa e identificável com qualquer período da História humana. Mesmo que as circunstâncias se alterem, nunca deixarão de persistir nas sociedades a ganância, a ambição e a procura de Poder nas almas dos indivíduos que as constituem. A partir da história de Daniel Plainview (Day-Lewis), um magnata do petróleo em constante ascensão profissional (e queda em termos de humildade e de humanidade) na América de princípios do século XX, dominada por uma onda de progresso e mudança que caracterizariam o país durante as primeiras décadas e que hoje são aprofundadamente estudadas e conhecidas pelo grande público, «Haverá Sangue» traça a história do país, de um período de transição entre Eras de desenvolvimento, e da sua busca constante por riqueza, que tornou os EUA numa das grandes potências do mundo atual. O filme trata-se também de uma crítica aos valores atrasados e retrógrados da sociedade americana e da forma como, em muitas circunstâncias, não se soube adaptar devidamente às alterações que foi verificando na sua estrutura económica, social e política. Relatando também em paralelo a história de Eli Sunday, um homem que ascende também a um lugar dentro da diversa religiosidade abrangentemente presente na cultura da América, criando a sua própria seita (a "Igreja da Terceira Revelação") que caracteriza todos os fanatismos e incongruências de muitos cultos do género em Terras do Tio Sam, que assiste a uma contínua e imparável propagação em massa de profetas e de seitas que defendem diversas ideias, muitas delas aparentemente absurdas para quem pretende possuir uma visão mais normal e menos fanática das coisas.


Outro dos pontos altos de «Haverá Sangue» é a relação de Daniel Plainview com o seu filho adotivo H.W. Plainview (que não saberá, durante muito tempo, de que ele não é o seu Pai biológico), que com ele estabelecerá laços muito fortes de companheirismo e também de negócios, visto que H.W., quando criança, ajudará muito o seu "progenitor" na compra de terrenos propícios à exploração de petróleo e noutras coisas que envolvem este negócio. Contudo, com o passar dos tempos e a cada vez que Daniel enriquece mais e mais, a sua relação com o filho deteriora-se a cada passo. E aí ficamos a pensar que será que toda a ligação que ele estabeleceu com H.W. não passou apenas de uma oportunidade aproveitada pelo petroleiro para melhorar a sua vida económica e profissional... Talvez se possa, a partir destes dados, fazer-se uma comparação de «Haverá Sangue» a «Citizen Kane», vulgarmente considerado o Melhor filme de todos os tempos. Talvez o filme de Paul Thomas Anderson possa ser visto como uma versão moderna, em termos técnicos, e mais aprofundada, a nível psicológico, das ideias do clássico realizado, escrito e protagonizado por Orson Welles, comparação feita por vários críticos especializados aquando a estreia de «Haverá Sangue». Contudo, tratam-se de dois filmes distintos, incomparáveis e Grandes à sua maneira. Mas este filme ganha mais pela forma menos direta e mais tocante como aborda a ligeireza das relações humanas e da condição do Homem no meio que habita. Mas repito: são duas fitas inigualáveis e obrigatórias! Contudo, as semelhanças com «O Tesouro da Sierra Madre», confessadas pelo próprio Paul Thomas Anderson, são as mais notórias, e por isso penso que «Haverá Sangue» deve ser visto depois do filme de John Huston, que aborda alguns dos mesmos temas e da mesma forma, negra e profunda.


«Haverá Sangue» tornou-se, merecidamente, um dos filmes mais influentes e aclamados deste vigésimo primeiro século. Outros cineastas da formidável geração de Paul Thomas Anderson, como Quentin Tarantino, expressaram a sua admiração por este magistral filme, que apenas merece aplausos de quem dele gostou, como foi, obviamente, o meu caso. Uma reflexão moderna sobre a vida, apesar da narrativa se centrar no princípio do século passado, que mostra como as coisas mudam, mas o ser humano e as suas características psicológicas permanecem iguais. Um filme perfeito a nível técnico (a fotografia magnífica, os fabulosos planos de câmara e perspetivas dos ambientes e das personagens, a banda sonora, minimalista mas inesquecível...), narrativo e representativo (grande leque de atores, encabeçado pelo Mestre Daniel Day-Lewis), que mostra a força que o Cinema contemporâneo pode ter, se quiser. Muitos apressam-se a dizer que tudo já foi inventado na nossa época e que não existe nada de novo para se elaborar, não só no Cinema como também noutras áreas culturais e tecnológicas. Mas «Haverá Sangue», e o seu realizador, mostram como essa frase não faz nenhum sentido.

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2 comentários:

  1. "Muitos apressam-se a dizer que tudo já foi inventado na nossa época e que não existe nada de novo para se elaborar, não só no Cinema como também noutras áreas culturais e tecnológicas. Mas «Haverá Sangue», e o seu realizador, mostram como essa frase não faz nenhum sentido." Não faz de todo sentido. Ainda há tanto por onde explorar, há sempre algo que merece ser visto de um ponto de vista diferente. E ainda bem que não nos encontramos nesse tal "término" da arte.

    Grande realização, brilhante direcção de fotografia, argumento 5 estrelas, banda-sonora mais do que ajustada e a representação do Day-Lewis, que para mim entrega neste filme uma das melhores interpretações da sétima arte. 2013 ainda há pouco começou mas este vai ser mesmo um dos melhores filmes que vi este ano. Boa análise!

    Cumprimentos,
    Rafael Santos
    Memento mori

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    Respostas
    1. Obrigado por mais um comentário e desculpa a demora na resposta. Mas sim, vale a pena apostar no presente, sem esquecer o passado! ;)

      Um Abraço,

      Rui Alves de Sousa

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