terça-feira, 19 de março de 2013

Frankenstein Júnior


E a fechar este mini-ciclo que eu pseudo-criei em volta da obra do genial Mel Brooks está «Frankenstein Júnior», uma grande comédia muito bem composta, ritmada e realizada. Para mim, este foi o filme que verdadeiramente se destacou entre os três do cineasta e comediante que eu pude ver na semana passada. É uma comédia que não perdeu tanta graça como as outras duas e que permanece intacta no seu espírito de humor e paródia. Neste caso, «Frankenstein Júnior» tem como alvo de sátira, lá está, o clássico do terror, tanto o livro da autoria de Mary Shelley como a mais famosa das adaptações cinematográficas que foram feitas do mesmo, aquela que celebrizou o ator Boris Karloff (no papel do célebre monstro criado pelo Doutor Frankenstein, um cientista louco que pretendia tornar realidade a sua teoria da possível "ressurreição" de um cadáver - sim, todos sabemos a história, apesar de nunca termos lido o livro ou visto alguma das adaptações. É uma história que faz parte, de uma maneira muito forte, da cultura popular), num dos períodos mais gloriosos e intensos do cinema de terror nos EUA, e que Brooks soube tão bem recriar em plena década de 70, no seu estilo cómico próprio e intransmissível, e que se tornou tão (ou mais) popular do que a obra original a partir do qual foi concebido.


Estreado no mesmo ano de «Balbúrdia no Oeste», e com grande parte da equipa técnica e artística que integrou o mesmo, «Frankenstein Júnior» dá uma volta completa de progresso em relação ao primeiro. Enquanto que «Balbúrdia no Oeste» se tratava de uma sátira excêntrica ao western e ao próprio cinema, «Frankenstein Júnior» é uma comédia mais abrangente, mais intrincada, e mais "respeitadora" dos alvos que escolheu para a paródia. Enquanto que em «Balbúrdia no Oeste» há uma desconstrução do western, «Frankenstein Júnior» segue ao pormenor as regras de estilo e de forma desses clássicos do terror a preto e branco (o filme de Brooks até foi gravado assim), tendo como única diferença o teor cómico elevadíssimo que possui em relação ao Frankenstein original, mais dramático e negro (apesar de ser uma história que, por si só, já dá azo para grandes gargalhadas... mas isto sou só eu). «Frankenstein Júnior» começa de uma forma arrepiante, e é essa a impressão inicial que Mel Brooks nos quer dar para tudo o que vamos ver nos próximos cento e poucos minutos. Contudo, à medida que a ação do filme prossegue, começamos a entender que, apesar de todo o ambiente - maravilhosamente recriado também em termos de realização, com a utilização de diversos ângulos de câmara e efeitos de transição que eram característicos do tempo da estreia do original «Frankenstein» com Boris Karloff - nos querer fazer passar, a princípio, a ideia de que estamos perante um filme de terror, percebemos logo, mesmo que com algumas dúvidas, que se aparece o nome de Mel Brooks nos créditos iniciais, por alguma razão será. 


«Frankenstein Júnior» gira à volta do neto do original Dr. Victor Frankenstein. Chama-se Frederick, e é um reputado cientista e professor que não pretende que as pessoas o associem ao seu antepassado derivado do Frederick acaba, devido a uma série de situações, a reencontrar a casa onde o avô viveu, na Transilvânia (terra do Terror por excelência) e, mais do que isso, o neto do original Igor, o ajudante marreco que auxiliou o antepassado a fazer a sua diabólica experiência (o momento em que os dois se conhecem está hilariante, com Igor a brincar com o facto de Frederick querer que o seu apelido seja, à força, pronunciado de outra maneira). Igor seguiu a linhagem familiar e é também um indivíduo estranho e marreco (mas com muito mais graça do que o original, suponho), e é ele e a governanta daquela estranha e assombrosa mansão que levam Frederick a descobrir o legado deixado pelo avô e os livros que escreveu a relatar as suas experiências. E assim... a experiência repete-se, e será que é desta que corre bem? Não é essencial saber, mas sim que se tome atenção de todos os detalhes, minuciosamente preparados por Mel Brooks (e Gene Wilder, que não só volta a entrar num filme de Brooks - desta vez como protagonista - como também é co-autor do argumento), que não só resultam em termos estéticos e fílmicos, como também na graça das situações apresentadas, onde o ambiente aparentemente sério do filme é sempre aproveitado para se fazerem umas quantas piadas, todas muito diferentes, mas todas elas bem engendradas.


«Frankenstein Júnior» é um filme superior de Mel Brooks, tanto pela realização mais "cinematográfica" e original, como pela maior qualidade do argumento e da melhor construção das situações e das personagens. No elenco, Gene Wilder é eletrizante e (vou dentro de momentos utilizar uma expressão usada e abusada pela crítica americana em diversas ocasiões distintas) histericamente divertido, dando corpo ao descendente de Frankenstein que vê a sua vida mudar com a descoberta dos relatos do avô. Marty Feldman, o ator que dá vida a Igor, um dos mais extravagantes cómicos que o Cinema deu a conhecer ao Mundo, e deixou aqui outra prestação igualmente marcante e hilariante. Destaque ainda para Peter Boyle, a.k.a O Monstro de Frankenstein, uma criatura que se revela surpreendente e que é explorada de uma maneira muito interessante pelo filme, e ainda para o regresso de Madeline Kahn, nomeada para Oscar com «Balbúrdia no Oeste» mas que nesta comédia teve, a meu ver, um papel muito mais engraçado e muito mais bem conseguido. Aparece também em «Frankenstein Júnior» Kenneth Mars, o autor da peça nazi que os dois protagonistas de «The Producers» (a primeira comédia de Mel Brooks e os primeiro passos de Gene Wilder na comédia) usaram para levarem em cena, e que neste filme é um polícia (também ele alemão) e que me fez lembrar algumas personagens dos Monty Python, vá-se lá saber porquê. «Frankenstein Júnior» é um filme paródia que nutre muito respeito pelos filmes que parodia, ao contrário de "spoofs" mais recentes que têm vindo a ser feitos e quase como que a crescerem das árvores (Scary Movies, cof cof cof...). E além disso, é um filme mais bonito que outras paródias de Brooks. É estúpido também, mas daí vem a graça do filme, conseguindo aliás ter uma estupidez mais bem concebida e eficaz, que não é ultrapassada tão facilmente como nos outros filmes do cómico. Uma obra fundamental no Cinema americano, um filme para pôr toda a gente feliz e contente, mas que vale mais do que os risos que pretende provocar nos espectadores. É uma grande obra. Uma comédia inesquecível.

* * * * 1/2

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