terça-feira, 19 de março de 2013

Balbúrdia no Oeste (Blazing Saddles)


Men, you are about to embark on a great crusade to stamp out runaway decency in the west. Now you men will only be risking your lives, whilst I will be risking an almost certain Academy Award nomination for Best Supporting Actor. 

1974 foi, com certeza, um dos anos mais ricos, produtivos e populares da carreira do realizador, do autor e do cómico Mel Brooks. E digo isto porque foi nesse ano que estrearam duas das suas comédias mais famosas, irreverentes e intemporais: uma delas foi «Balbúrdia no Oeste», uma paródia aos clássicos "westerns" norte-americanos e aos grandes nomes desse género cinematográfico (como John Ford, Howard Hawks e Nicholas Ray, por exemplo), e a outra foi «Frankenstein Júnior», cujo motivo de sátira foi... bem, o título diz tudo. Mas centro-me agora neste primeiro filme, que apesar de possuir uma tradução pouco adequada em relação ao título original, até que não deixa de lhe fazer algum sentido, visto que o que se passa nele pode resumir-se mesmo a esse substantivo: "balbúrdia". Tudo é uma loucura e cada pormenor é levado ao extremo da sátira e do humor em estado puro, no estilo único e completamente descabido que caracteriza o humor de Mel Brooks. «Balbúrdia no Oeste» trata-se de um disparate pegado, estúpido como nunca se viu nem se voltará a ver no cinema americano. Mas caramba, é tão giro e tão hilariante ao mesmo tempo que todos os seus males ficam compensados pelo riso que a fita nos proporciona. É uma boa comédia, admirada ainda hoje (também faz parte da Lista das 100 Melhores Comédias Americanas do AFI e está guardado para preservação no National Film Registry) e que proporciona um grande divertimento que satiriza também a forma heróica e mítica, muitas vezes exagerada e estereotipada, como os americanos veem o universo do "far-west".


«Balbúrdia no Oeste» é então uma paródia aos westerns clássicos americanos, onde se goza com as características dos mesmos (e que, com o passar dos anos, se tornaram em parte algo ultrapassadas), mas também se dá espaço aos temas e abordagens que nunca vimos serem realmente tratados nesses filmes, como, por exemplo, o racismo (com a personagem principal da trama, um escravo escolhido por um governador idiota para ser o xerife de uma pequena aldeia americana) e a forma como a "n-word" é pronunciada pelos personagens (passámos do 8 ao 80 - enquanto que naquela época se usava essa expressão a torto e a direito, hoje os americanos preferem retirá-la completamente de obras fundamentais da literatura do país como «As Aventuras de Huckelberry Finn» de Mark Twain). «Balbúrdia no Oeste» consegue ser por isso, de uma forma alegre e irreverente, uma crítica ao fanatismo tradicional e que ainda persiste nos EUA, e que poucos sinais dá de poder, eventualmente, desaparecer de vez, numa sociedade muito centrada em si própria e que está muito poucas vezes realmente aberta ao resto do Mundo. O filme desconstrói o género western de uma maneira implacavelmente divertida e, por vezes, "chocante" para quem seja um purista desses clássicos americanos, "destruindo" também por completo os modelos tradicionais da cinematografia dos EUA e ainda a noção que temos do que é um filme, trazendo uma narrativa linear, mas bizarra, louca e que mistura ficção e "realidade" de uma maneira muito original. «Balbúrdia no Oeste» goza com tudo e todos. Nada escapa a Mel Brooks, que parodia sem dó nem piedade (humorísticas) coisas típicas do Oeste, ao qual associamos primeiramente, como os índios (retratados maioritariamente de uma maneira menor e mais "irracional" nesses ditos clássicos dos grandes realizadores dos westerns), os xerifes, os vilões canastrões e maus como as cobras, os saloons repletos de movimento, e divertimento e onde se encontram pessoas muito duvidosas, enfim, há um manancial de pormenores para descobrir nesta comédia, que Mel Brooks executou de uma forma muito criativa e engraçada e à qual ninguém pode ficar indiferente. «Balbúrdia no Oeste» tem personagens e gags muito engraçados e que, apesar de alguns deles terem perdido algum do seu impacto, conseguiram resistir bem ao tempo e que ainda hoje tornam esta comédia muito divertida e uma delícia de se ver.


A nível de interpretações, «Balbúrdia no Oeste» contém atores fenomenais como o excêntrico e hilariante protagonista Cleavon Little, que dá uma vivacidade e uma "elasticidade" ao seu personagem que o tornam inigualável a fazê-lo. Gene Wilder, veterano na obra de Mel Brooks, reaparece como o ajudante do protagonista, num papel menos engraçado mas que está bem conseguido. O próprio Mel Brooks aparece neste filme, num papel completamente louco e estereotipado, mas que mesmo assim tem a sua graça. Madeline Kahn é surpreendente no seu papel nomeado para Oscar, e que deve muito à lendária Marlene Dietrich, e o último destaque que faço é o do vilão, interpretado pelo ator Harvey Korman, que faz todo e qualquer disparate soar a algo que uma pessoa com a sua sanidade completa possa dizer em público com a maior das naturalidades (como a frase com que iniciei esta crítica). No filme é muito utilizada a comédia de referências (fonte de "inspiração" para muitas - e demasiadas - séries de comédia e fitas dos nossos dias), que parodia diversas cenas e personagens famosas dos westerns, e até se fala em «O Tesouro da Sierra Madre» (e talvez tenha surgido a partir desta referência a vulgar confusão que é feita com uma das citações mais populares do filme). «Balbúrdia no Oeste» é uma fita divertida, bem feita, propícia para se passar um bom bocado, a rir e a descobrir a imaginação cinematográfica, com o humor corrosivo e multifacetado do Grande Mel Brooks, que apenas nos mostra como não há nenhum tema neste Mundo que seja sério o suficiente para não ser vítima de uma piada.

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